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Resumen de ponencia
Gênero e a formação em Psicologia

*Vanessa Crumial Herdy De Andrade



O ponto de partida para deste trabalho é refletir sobre a relação entre as assimetrias de gênero e a Psicologia enquanto campo de saber e profissão. Entendendo que as identidades de gênero produzem importantes marcas nos modos de subjetivação, a ideia é pensar como essa categoria vem sendo situada dentro dos espaços de formação e produção de conhecimento e quais são as implicações dessa discussão nas práticas psi. É importante ressaltar que o recorte utilizado é minha vivência enquanto mulher estudante de Psicologia, propondo questões que se colocam a partir deste lugar. É essa condição que opera, ética e afetivamente, o questionamento à neutralidade na construção dos saberes que sustentam a organização social em torno dos papéis atribuídos a cada gênero. O que proponho é reafirmar essa diferença como forma de torná-la visível e pensar o que se tem produzido com ela e através dela.
Primeiramente, apresento um breve panorama do conceito de gênero, trazendo a contribuição de algumas autoras na construção desse campo de estudos, ainda marginal dentro da academia, mas que tem contribuído historicamente para dar visibilidade à discriminação de gênero. Nesse sentido, é preciso ressaltar a importância dos feminismos e seus desdobramentos teóricos na crítica à ciência enquanto prática discursiva que produz verdades sobre o corpo e o sexo, apontando para a necessidade de um campo de problematização possível para desconstruir a ideia de uma ordem natural que impõe, a partir das diferenças sexuais, papéis sociais masculinos e femininos. Estes mecanismos de autodiscriminação se tornam tão naturais que se confundem com autodeterminação, não sendo interpretados como escolhas pautadas pelas normas sociais sutilmente internalizadas ao longo da vida. Desse modo, as interpretações das situações cotidianas, dos discursos que circulam nos espaços que habitam socialmente, condutas reprimidas e outras que são estimuladas vão delineando as possibilidades de si, vão criando um território existencial produzido a partir dessas micro-identificações e recusas.
Nesse ponto, surge a proposta de se fazer uma reflexão sobre a presença preponderante de mulheres no curso de Psicologia e na profissão e a relação entre a divisão sexual do trabalho e a subjetivação feminina. Nota-se que a discriminação de gênero e as marcas do feminino na produção de subjetividade pouco aparecem na produção teórica e na formação. É preciso então pensar nestes silêncios que contribuíram para compor a Psicologia enquanto campo de saber consolidado. Por que esta questão é de tal forma invisibilizada, se a desigualdade em relação à distribuição sexual na Psicologia é numericamente notória? O que faz com que a percepção dessas diferenças seja naturalizada a ponto de nos fazer supor que estamos em um campo neutro de produção de conhecimento? O que tem dificultado sua emergência enquanto problematização necessária ao avanço dos estudos? Qual a relação que podemos estabelecer entre a predominância masculina na produção científica e a ausência da discussão em torno dos desdobramentos da assimetria de gênero no saber psi? Até que ponto este campo se encontra aberto para enfrentar esse tensionamento?
Trazendo a questão para o campo científico, a proposta de epistemologia feminista se relaciona à crítica ao conhecimento asséptico que se forja a partir de um discurso homogeneizante. Não se trata de afirmar um sujeito feminino, mas que se possa localizar o sujeito do conhecimento dentro do contexto social que o modula em uma lógica binária de gênero, no qual há a dominância do masculino em relação ao feminino. Ou seja, é fazer com que as marcas dessa assimetria possam aparecer no discurso científico, e isso implica necessariamente em questionar as condições que sustentaram sua invisibilidade. Qual a relação que se pode estabelecer entre o saber e quem o produz? É possível pensar em uma ciência sem gênero, na medida em que se trata de uma prática exercida tradicionalmente por homens, cuja presença feminina é tolerada nos dias atuais com alguma resistência? Quais são os impactos dessa assimetria nos enunciados que se produzem, e quais os efeitos desse discurso nas políticas de subjetivação?
O conhecimento científico não é uma mera produção a partir de uma visão mediada da realidade objetiva, uma vez que seus tratados reafirmam as estruturas que aprisionam os indivíduos em identidades de gênero pré-fixadas. Em outras palavras, o discurso científico é também responsável por fomentar os mecanismos que sustentam este modo de vida, e isto implica em afirmar que o pressuposto da neutralidade da ciência é inconcebível. O que se entende como conhecimento verdadeiro é uma construção que se produz a partir de relações de poder, e, portanto, se trata de um campo de disputa. A invisibilidade da discriminação de gênero no fazer científico é o principal alvo da crítica feminista e as questões trazidas pelo movimento feminista reiteram a importância dessa discussão no sentido do combate ao sexismo.
Nesse sentido, reconhecer os atravessamentos da questão de gênero na produção científica é pensar em meios de trazer à tona uma categoria não marcada, revelando a parcialidade negada pelo cientista. Mais ainda, é tonar público os efeitos da autoidentidade nas ciências, na medida em que se afirma que o conhecimento é contingente às condições de possibilidade de sua emergência, e consequentemente, tem a ver com os privilégios no acesso aos “meios de produção” de saber. E pensando na dominação masculina dos “meios de produção” científicos, como combater a invisibilidade da experiência feminina em seus edifícios teóricos? Não se trata de validar a ideia de um universal feminino, mas de considerar a universalização estereotipada do feminino produzida historicamente, que traz desvantagens importantes para as mulheres nas práticas sociais. Em outras palavras, negar a existência de uma essência feminina não é o mesmo que negar que a opressão de gênero é um aspecto da vida social que atravessa a trajetória de muitas mulheres.
Nesse sentido, a Psicologia tradicionalmente tem se apresentado como apolítica, negando o poder de seu discurso na perpetuação da divisão sexual binária que categoriza os agentes sociais em identidades de gênero fixas e preestabelecidas. Ao reproduzir de forma estereotipada as identidades de gênero, as teorias psicológicas reiteram padrões que generalizam as experiências de homens e mulheres e reforçam a naturalização dos papéis atribuídos a cada gênero. Características como sensibilidade, fragilidade, e passividade são atribuídas às mulheres enquanto os homens são estimulados a desenvolver uma postura agressiva, autônoma e racional. O alinhamento a este padrão é uma marca importante da política de subjetivação, define o lugar que o sujeito ocupa socialmente e envolve uma adequação permanente, ou seja, não se trata de algo inato, mas de um conjunto de condutas que vão sendo reproduzidas e atualizadas, demandando uma mobilização dos sujeitos ao longo de sua existência, pode ser gerador de grande expectativa e sofrimento. Além disso, a lógica da patologização das condutas desviantes oculta o viés político da marginalização das experiências desses sujeitos. A questão recebe assim um enquadre individualizante e o problema passa a ser responsabilidade do sujeito e não resultante da ordem social que se encarrega de alimentar o ciclo que provoca a segregação dessas experiências.
Há, portanto, uma lacuna na formação, que não acompanha a efervescência dos movimentos sociais e só passa a validar esse saber quando consegue enquadrá-lo nos referenciais teóricos que asustentam. A Psicologia enquanto ciência propõe um saber desencarnado, livre de qualquer marca de singularidade. No que diz respeito à questão de gênero, é possível dizer que o percurso para tornar-se psicóloga pressupõe o apagamento das marcas que a universalização do feminino imprime na subjetividade. Se a norma se conjuga no masculino, para a mulher significa que é necessário se desvencilhar do que a caracteriza para que possa de fato ocupar outro lugar, mais próximo de si. O psicólogo que se pretende formar é, na verdade, uma extensão do universal masculino, não uma figura neutra.
Nesse sentido, o fato de que boa parte dos profissionais do sexo masculino estar no meio acadêmico sugere que essa minoria tem bastante representatividade na produção teórica. As mulheres que se propõem a fazer esse debate, no entanto, são constantemente silenciadas por não haver suporte teórico para validar suas confrontações, e esse movimento muitas vezes parte mesmo de outras mulheres. O discurso científico é forjado por essa estrutura patriarcal, o que permite que o mesmo discurso seja revalidado sem que haja muito espaço para outras vozes. Ou seja, a crítica aos pressupostos sexistas da prática científica não é aceita e é rebatida dentro da mesma lógica. Mas o que está em jogo é a marca do “ser mulher”, não se trata de tomar o feminino como uma identidade cristalizada, como uma essência, algo que existe a priori ou de forma homogênea. E na medida em que é uma produção da cultura, algo que vai sendo internalizado de diversas maneiras, que produz uma marcação que situa formas diferentes de experienciar o mundo, não se pode ignorar que a psicologia se estruture como um saber que concebe um ser genérico, a-histórico, apolítico, destituído de qualquer característica social.
Precisamos nos responsabilizar pelas intervenções que produzimos. Por ser uma questão que diz respeito à organização social, em alguma medida seus desdobramentos aparecem em todos os campos de atuação profissional da Psicologia. Faz parte de nosso compromisso ético estar atento ao direcionamento de nosso trabalho, no sentido de nos colocar a favor de uma política de respeito às diferenças. Precisamos, desse modo, garantir que nossas práticas não estejam ao lado dos mecanismos de discriminação e violência de gênero.






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* Crumial Herdy De Andrade
Universidade Federal Fluminense UFF. Niterói, Brasil