Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Intersecionalidade: potências de um instrumento teórico para a prática feminista

Observatori@ de Direito e Cidadania da Mulher - Observatori@ DCM (Brasil)

*Juliana Mercuri
*Léia Chrif De Almeida
*Mariana Fideles



Apresentação
A Observatóri@ dos Direitos e Cidadania da Mulher é um grupo multidisciplinar de mulheres pesquisadoras formado em maio de 2015, cujo objetivo consiste em produzir materiais informativos e espaços de escuta e acolhimento. O grupo nasce da necessidade de se pensar outros olhares e dinâmicas a respeito do cotidiano das mulheres, suas lutas e suas histórias. Nesse sentido, buscamos estruturar nossos trabalhos a partir dos recortes de gênero, raça e classe de forma não hierarquizada e suas implicações com as relações de poder impostas no sistema patriarcal vigente em um território marcado pela colonização, como é o caso da América Latina, utilizando assim a intersecção dessas opressões (raça, etnia, classe, território) como nosso principal instrumento de análise (1).

Objetivos
Entendemos que os debates e as produções acadêmicas sobre gênero e sobre feminismo, em sua ampla maioria estão ainda estruturados em espaços e linguagens de pouco acesso. Geralmente nas Universidades, em espaços longes das periferias das grandes metrópoles, e distante das mulheres trabalhadoras. Detectamos que ao longo das atividades desenvolvidas, existe um esforço em homogeneizar o “movimento feminista”, a “luta da mulher”, de maneira a uniformizar suas demandas e sublimando as inúmeras desigualdades, sobretudo, as econômicas e raciais que incidem na categoria mulher. Nesse sentido, com o objetivo de ampliar o diálogo, e consolidar a via interseccional como método de investigação, a Observatóri@ busca elaborar materiais e promover ações com as mulheres trabalhadoras e periféricas, em espaços descentralizados, públicos e não formais (2) . Assim nosso trabalho principal consiste em mapear, sistematizar e divulgar em linguagem dinâmica e acessível conteúdos multidisciplinares que ofereçam um panorama das demandas e articulações das mulheres em toda sua diversidade, respeitando as características e particularidades de cada contexto onde se dão (território) e as necessidades das mulheres (sujeitas políticas) que neles atuam. Esse objetivo surge a partir da constatação de que as mulheres não são todas iguais e que a solidariedade e o fortalecimento entre os grupos e as sujeitas na luta feminista deve ser forjada a partir do reconhecimento das diferenças(3).
Esse quadro é constantemente reivindicado por diversos feminismos “não brancos”, não elitizados, não ocidentalizados – não hegemônicos. Nesse sentido, a produção da Observatori@ (4) refletiu a necessidade de reafirmar o feminismo como um movimento político anti-sistêmico. Retomar seu caráter revolucionário, como movimento político que deseja a transformação das relações sociais de produção a partir das transformações das condições de exploração e opressões impostas as mulheres. A dominação econômica e política do patriarcado capitalista ocidental se exerce em sinergia com o racismo, o etnocentrismo e o sistema de exploração do trabalho – sendo engrenagens do mesmo sistema de dominação – e portanto, para minar esse domínio é necessário enfrentá-lo em todas suas dimensões de poder.

Alguns dos resultados alcançados
A partir da sistematização da pesquisa e da seleção consensual de um recorte temático, observamos e refletimos quanto as intersecções de opressões, destacando assim as relações de desigualdades dentro desta categoria diversa do que é ser mulher, contrapondo a ideia de que somos todas iguais. Tornando sensível ainda o fato de que mulheres exploram mulheres(5). Na seleção dos temas abordados e dos personagens selecionados fomos aprofundando o questionamento ao fato de mulheres em condições sociais e materiais mais favoráveis usarem outras mulheres para manutenção de seus privilégios, seja de forma subjetiva, como é o caso da relação patroa e trabalhadora doméstica, tema abordado em duas produções da Observatori@, “Guia de Direito das Trabalhadoras Domésticas” (dezembro/2016) e o boletim “Trabalhadoras Domésticas – 125 anos de luta” (abril/2018).
Como na questão sistêmica e estrutural como abordado no boletim “Mulheres nas Universidades, Impacto da Violência de Gênero nas Estudantes” (novembro/2017)”, que mostrou como a violência institucional atinge com mais intensidade as estudantes não brancas e de situação socioeconômica mais vulnerável, que são os grupos historicamente excluídos das universidades e que mais dependem de políticas de permanência. Ao negar as necessidades específicas de permanência desses grupos fica mais evidente o elitismo e a marcação das diferenças sociais nas universidades. Além disso foi verificada desigualdades entre docentes homens e mulheres, sendo ainda mais latente a pouca presença de docentes não brancas nas universidades brasileiras, o que reforça a exclusão sistemática desse grupo do ambiente universitário e consequentemente da produção de conhecimento formal e institucional.
Assim, os caminhos analíticos trilhados pelo grupo, como já bem deixamos definidos, partiram do reconhecimento e dessecamento das camadas de opressões envoltos nos temas eleitos. Nesse sentido, desde 2017 a Observatóri@ vem constatando em seus trabalhos que a interseccionalidade enquanto um método de análise está sendo utilizado de maneira a aprofundar objetos de estudos e demarcação de identidades, e não como instrumento para questionar a branquitude e todas as camadas de privilégios que esses grupos sociais acumularam historicamente. Entendendo a pesquisa como uma atividade em movimento, e que, portanto, não cristaliza conceitos, o olhar que estamos direcionando na atual conjuntura é captar essas apropriações dos debates e discussões a respeito da interseccionalidade e decifrar como estes podem reatualizar os pactos hegemônicos dentro do movimento feminista, sobretudo, na dissipação das formas de opressões.

Notas de rodapé
(1) A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. (CRENSHAW, 2002: 177)
(2) Em julho de 2017 reunimos os principais conteúdos trabalhados pelo grupo na exposição “Um olhar interseccional”, foram organizados 10 painéis com informações, dados, expressões artísticas e sociais nesta perspectiva de gênero, raça e classe e personagens mulheres que se destacam nestas frentes. Até o momento nossa exposição já circulou por Bibliotecas Municipais localizadas em região periférica de São Paulo (Perus, Taípas e Pirituba) e feiras literárias, como a Feira Literária da Zona Sul de São Paulo (FELIZ), feira independente que acontece numa praça pública no bairro do Campo Limpo, periferia da Zona Sul de São Paulo.
(3) BELL HOOKS, El feminismo es para todo el mundo, Editora: Traficantes de Sueños, 2017
(4) https://observatoriadcm.tumblr.com/
(5) “É contra essa tentação de igualdade que se insurgem as mulheres negras no interior do movimento feminista. Ao acentuarem que há uma multiplicidade de identidades femininas, e de ações políticas a elas vinculadas, as mulheres negras chamam a atenção, sobretudo, ao fato de que, ao proporem uma unidade entre as mulheres contra a opressão do modelo patriarcal da sociedade ocidental, as mulheres brancas “se esquecem” de que elas próprias oprimem outras mulheres, ou seja, ao mesmo tempo em que são subordinadas numa dada situação social pelos homens, também oprimem mulheres negras e de estratos sociais inferiores. Isso fica evidente na crítica que militantes negras fizeram ao fato de que a emancipação econômica e educacional vivida pelas mulheres de classe média a partir dos anos 1960 se deveu, em grande medida, à exploração do trabalho doméstico de mulheres negras e pobres (GONZALEZ, 1982, BAIRROS, 1991, BENTO, 1995, LIMA, 1995)” ROGRIGUES, 2013. Atualidade do conceito de interseccionalidade para a pesquisa e prática feminista no Brasil. Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X.




......................

* Mercuri
Observatori@ de Direito e Cidadania da Mulher Observatori@ DCM. São Paulo, Brasil

* Chrif De Almeida
Observatori@ de Direito e Cidadania da Mulher Observatori@ DCM. São Paulo, Brasil

* Fideles
Observatori@ de Direito e Cidadania da Mulher Observatori@ DCM. São Paulo, Brasil