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Resumen de ponencia
Apropriação cultural da estética negra no cenário brasileiro: entre práticas racistas e lutas de representação

*Talita Brasil E Silva



Este artigo investiga o debate sobre apropriação cultural da estética negra e sua relação com a manifestação de práticas racistas no cenário brasileiro a partir de matérias publicadas na Internet por Geledés – Instituto da Mulher negra, e que tratam diretamente da temática em questão. As considerações aqui apresentadas orientam-se pela tentativa de compreender a noção de apropriação cultural empregada em tais matérias, identificar os agentes que operam tais práticas de apropriação, e por fim, apresentar os possíveis elementos constitutivos do debate em questão. Geledés foi criado na cidade de São Paulo em 30 de abril de 1988, tendo como missão institucional a luta contra o racismo e o sexismo, a valorização das mulheres negras e da comunidade negra em geral. Atuando como uma organização não governamental, o Instituto desenvolve uma série de ações que visam discutir a problemática da mulher negra como aspecto fundamental na discussão de gênero no contexto social brasileiro, e a questão racial em suas amplas dimensões. Geledés alcançou reconhecimento internacional, tendo recebido vários prêmios, dentre eles, o Prêmio Direitos Humanos do Ministério da Justiça em 1996, Diploma de Reconhecimento Direitos Humanos do Governo do Estado de São Paulo em1997, o Prêmio de Direitos Humanos do Governo da França, em 1998, o XVI PRÊMIO FRANZ DE CASTRO HOLZWARTH de Direitos Humanos da OAB/SP em 1999, sendo também Vencedor do Desafio de Impacto Social Google I Brasil – 2014. O referido Instituto orienta suas ações trabalhando de forma interseccional gênero, raça e classe social, somando à agenda feminista o combate ao racismo e às desigualdades, desenvolvendo diversos estudos de modo a subsidiar a implementação de políticas públicas em diferentes instâncias, colocando-se também como espaço de celebração de culturas africanas e afrodescendentes. Sobre as estratégias metodológicas mobilizadas para alcançar os objetivos deste artigo, estas constituíram-se fundamentalmente pelo levantamento e análise de dezessete matérias veiculadas por Geledés em seus espaços virtuais, a saber, seu portal na Internet e sua página na rede social Facebook. Ainda visando aos intentos teóricos-metodológicos deste trabalho, adotou-se a abordagem discursiva tal como propõe Hall (2016). Esta abordagem tomou sentido, representação e cultura como elementos centrais. À vista disto, pode-se afirmar que as matérias analisadas permitiram decodificar através da linguagem nelas empregada os modos pelos quais os sujeitos que as escreveram constroem suas representações em torno da ideia de apropriação cultural da estética negra. Em geral, o conteúdo das matérias faz menção a alguns acontecimentos específicos relacionados ao universo da moda e sua relação com práticas de apropriação cultural e manifestação de racismo. Como exemplo de tais acontecimentos, observou-se em 2013/2014 a adesão ao uso das chamadas estampas étnicas – desenhos coloridos em formatos geométricos, grafismos, imagens de animais, enfim; elementos que no imaginário de quem os produz, remetem principalmente às matrizes culturais africanas. Ainda como extensão da moda étnica, intensificou-se o uso do turbante – vestimenta que em alguns lugares do mundo é um símbolo que, para além dos significados sagrados, representa ainda o empoderamento da mulher negra. Algumas situações especificas do contexto brasileiro também repercutiram nas discussões em torno da ideia de apropriação cultural. O debate se fez presente mais uma vez quando a loja Farm também em 2014 lançou a foto de uma modelo branca para representar Iemanjá no dia comemorativo do Orixá. Ainda no universo da moda em 2014, a grife Tufi Duek, apresentou sua coleção outono/inverno atribuindo a inspiração de suas criações a elementos tribais africanos. Todavia, após a apresentação da referida coleção no evento de moda São Paulo Fashion Week (SPFW) ainda no mesmo ano, diversas críticas foram levantadas sobre a intenção da grife em fazer referência a elementos culturais africanos, uma vez que naquele desfile não houve a presença de modelos negras representando as criações exibidas. Tomando tais acontecimentos, as matérias aqui analisadas problematizam certas práticas de apropriação, que neste contexto, implicariam no uso descomprometido de bens culturais afro-brasileiros, esvaziando seus significados, não obstante relacionados às estratégias de resistência de um grupo étnico. O ato de apropriar-se envolve em tal discussão, uma relação de privilégios entre sujeitos apropriadores e aqueles cujos elementos culturais são apropriados. Os primeiros estariam na ótica de quem os avalia, estariam fazendo uso indevido de certos produtos culturais construídos no processo de afirmação identitária de um grupo, fazendo valer-se apenas de seus traços estéticos, sem contanto romper a dominação racial inerente à estrutura social em que se insere. As investigações aqui conduzidas, apoiadas no recorte empírico e teórico adotado, permitem apresentar como elementos constitutivos do debate em questão a ideia de que as práticas de apropriação cultural da estética negra se associam ao esvaziamento dos significados em torno de bens culturais de matriz africana, à banalização destes ao serem transformados em mercadorias exóticas, à reivindicação de representatividade, visibilidade e protagonismo por parte dos movimentos negros, denúncias frente ao branqueamento de determinadas manifestações culturais como desdobramento da ideia de miscigenação cultural predominante no imaginário nacional e na ocultação de práticas racistas e tentativas de dominação. O debate ora investigado evidencia ainda que ideia de apropriação cultural da estética negra nos coloca diante da relação entre raça e a composição de uma identidade nacional, situando-a como uma das questões fundantes do pensamento social brasileiro. Neste contexto, a temática da mestiçagem enquanto ideologia forjada por intelectuais e amparada pelo Estado bem como sua anunciação como marca distintiva de nossa nacionalidade assumiu contornos nitidamente racistas. Em resposta a esta ideologia e seus desdobramentos, pautaram-se a emergência e a afirmação das identidades afro-brasileiras, especialmente em oposição aos distintos projetos de branqueamento e a forma como estes fundamentaram a conversão de símbolos étnicos em símbolos nacionais, sobretudo pela ação do Estado, com vistas à ideia de brasilidade e democracia racial. Ainda como resultado das matérias analisadas, entende-se que o esvaziamento de significados decorrente de tais práticas de apropriação cultural se processam pela ação de três agentes: o Estado, mediante a construção de uma identidade nacional amparada pela promoção de símbolos populares capazes de suscitar um sentimento de pertença e relativa unidade; neste contexto, observamos a transformação de símbolos étnicos, inicialmente restritos a determinado grupo, em símbolos de nacionalidade. O segundo agente seria o mercado, que ao expandir sua atuação por meio da ideia de diversidade global, captura os seguimentos e suas particularidades, mercantilizando o “étnico”, e por fim, pela ação dos próprios sujeitos, que mediante distintas formas de recepção, reelaboram os significados iniciais atribuídos a tais bens e manifestações culturais. Este estudo nos levou a concluir, portanto, que o debate ao qual investigamos nos põe diante de disputas travadas em torno da legitimidade dos sentidos atribuídos às manifestações culturais afro-brasileiras, configurando assim, lutas de representações entre os movimentos negros e os agentes que operam tais práticas de apropriação. Entende-se ainda que a repercussão da temática explorada neste artigo se insere em um contexto global de intensificação crescente do uso da Internet e do lugar central que esta tem assumido na difusão de informações e na configuração de espaços virtuais que possibilitam distintas práticas de sociabilidade, bem como formas gerais de ativismo e politização.









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* Brasil E Silva
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