Com a extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool – IAA (1991) para afastar o controle estatal do setor sucroalcooleiro e a produção de veículos com motores capazes de rodar com gasolina ou etanol, em 2003, houve uma reestruturação, expansão territorial, internacionalização e oligopolização do setor sucroalcooleiro no Brasil, consolidando a macrorregião canavieira do Centro-Sul do Brasil (SAMPAIO, 2015). Tal movimento ganha mais força no final da primeira década do século XXI com as políticas federais de incentivos fiscais para aquisição de veículos novos (Redução do IPI - Imposto Sobre Produtos Industrializados) que resultaram no aumento do número de veículos particulares e utilitários.
Em 2006, foi lançado e implementado o Plano Nacional de Agroenergia (MAPA, 2005), que favoreceu o aumento do cultivo de cana-de-açúcar no estado de Goiás, portanto, através da criação e da aplicação de políticas públicas, se tornou mais receptivo ao setor sucroalcooleiro. Assim, várias usinas canavieiras se instalaram em Goiás e a área de cultivo de cana-de-açúcar aumentou cerca de quatro vezes até o ano de 2009, indo de 139 mil hectares para 524 mil hectares (SILVA; PEIXINHO, 2012).
Goiás apresenta diversos fatores que facilitaram os investimentos no agronegócio canavieiro e a atração de uma grande quantidade de agroindústrias. Dentre eles podem-se enumerar: a) disponibilidade de terras férteis para arrendamento/aquisição; b) preço de terras relativamente baixo; c) disponibilidade hídrica; d) localização geográfica que facilita o escoamento da produção; e) fatores edafoclimáticos propícios para o plantio da cultura; f) abundância de terras com topografia planas, o que facilita a colheita mecanizada; g) disponibilidade de mão de obra para grandes colheitas manuais; h) e disponibilidade de incentivos fiscais propiciados pelo governo estadual para implantação de novas plantas industriais, especialmente com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste - FCO e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES.
Diante deste fato, este trabalho busca compreender os impactos na natureza gerados por esta expansão do setor canavieiro no estado de Goiás/Brasil, como o impacto na distribuição da água, na intoxicação dos agrotóxicos e na dispersão de vinhaça no campo.
A expansão do setor canavieiro tem aumentado o cultivo da cana-de-açúcar em solos ácidos, de baixa fertilidade natural e com teores elevados de alumínio tóxico, bem como em regiões com precipitações pluviais irregulares e inferiores à necessidade da cultura, o que inibe o crescimento radicular e a absorção de água (ZHENG; YANG, 2005). O consumo anual de água pela cana-de-açúcar varia de 1500 a 2500mm (DOORENBOS; KASSAM, 1994), no entanto, a distribuição irregular e a redução dos volumes de chuvas durante o crescimento vegetativo da cultura causam prejuízos, com queda na produção e mortalidade das soqueiras, o que força a renovação precoce do canavial (DANTAS NETO et al., 2006).
Segundo Marcuzzo et al., (2012) a média anual de precipitação do estado de Goiás fica entre 1200 e 1800mm. Ao contrário da temperatura, a precipitação média mensal apresenta uma grande estacionalidade, concentrando-se nos meses de primavera e verão (outubro a março), havendo curtos períodos de seca, chamados de veranicos que podem ocorrer em meio a esta estação, criando sérios problemas para a agricultura. No período de maio a setembro os índices pluviométricos mensais reduzem-se bastante, podendo chegar a zero.
Assim, devido às características térmicas da região de Cerrado apresentadas, pode-se compreender que o uso da irrigação na cultura agrícola e, neste caso da cana-de-açúcar pode viabilizar a expansão do período de plantio aos meses de maio a agosto, trazendo grandes benefícios operacionais e econômicos para as unidades produtoras.
Já quanto a utilização massiva de agrotóxicos por parte deste setor canavieiro foi realizado coleta de dados sobre intoxicações por meio de visitas técnicas à Biblioteca do Centro de Informação Toxicológica – CIT/GO. Foram sistematizados dados, do período de 2005 a 2015, das fichas de notificação de intoxicação por agente tóxico/agrotóxico agrícola que o CIT/GO armazena, lotado na Superintendência de Vigilância Sanitária e Ambiental - SUVISA de Goiás.
A sistematização de informações sobre mês da intoxicação, idade, sexo, município onde a intoxicação ocorreu, nome do agrotóxico, princípio ativo, finalidade do agrotóxico e circunstância da intoxicação permitiu observar que os municípios que possuem as maiores áreas plantadas com monocultivos (cana, soja e milho) também apresentam elevados índices de contaminação por agrotóxicos agrícolas. Isso confirma a tese de que os municípios que possuem maiores áreas com agronegócio são aqueles que enfrentam maiores problemas em relação à contaminação do ambiente, mas, principalmente, os maiores índices de intoxicação humana.
A concentração dos casos de intoxicação por agrotóxicos ocorre nas áreas mais densamente ocupadas pelo agronegócio, como as regiões Sudeste, Sudoeste e Centro-Norte do Estado, além da região do entorno do Distrito Federal. É possível, portanto, estabelecer a relação entre agronegócio e contaminação por agrotóxicos de uso agrícola, o que se dá devido à quantidade desses produtos empregada nas grandes lavouras de commodities.
Pode-se também observar também que de 2005 a 2015 há um aumento no número de notificações de intoxicação por herbicidas e, consequentemente, deve ter ocorrido uma maior utilização deste tipo de agrotóxico. De acordo com pesquisas disponíveis no “Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” (CARNEIRO et al., 2015), a introdução de transgênicos tolerantes a herbicidas nas lavouras brasileiras, que alcançam cerca de 50% dos 74 milhões de hectares cultivados no Brasil (IBGE, 2010), provocou um aumento do uso deste agrotóxico.
Segundo o mesmo Dossiê ABRASCO (CARNEIRO et al., 2015), 93% da área cultivada com milho, soja e algodão são de sementes transgênicas; a cana-de-açúcar não possuía variedades transgênicas até 2016, porém, foi aprovado em junho pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança - CTNBio o plantio de cana-de-açúcar transgênica. Dessa forma, a utilização e a consequente intoxicação por herbicida tende a aumentar, necessitando de monitoramento e pesquisas mais aprofundadas.
Outro malefício do setor canavieiro na natureza é a utilização da vinhaça na fertirrigação, tanto para “nutrir” o solo para a próxima safra, pois apresenta concentrações de nitrato, potássio e matéria orgânica; sua utilização pode alterar as características do solo promovendo modificações em suas propriedades químicas, favorecendo o aumento da disponibilidade de alguns elementos para as plantas, quanto na tentativa de manter a umidade do solo.
A vinhaça é um efluente proveniente da indústria sucroalcooleira gerado em grandes volumes. Esse apresenta elevadas concentrações de materiais orgânicos e inorgânicos. Concomitante, sua corrosividade, pH baixo (ácido) e elevadas Demanda Bioquímica de Oxigênio - DBO e Demanda Química de Oxigênio - DQO garantem a esse resíduo um grande potencial de danos a fauna e flora, bem como ao solo e lençóis freáticos, causando desoxigenação dos rios comprometendo assim a vida aquática.
Alguns autores vem pesquisando os efeitos da aplicação da vinhaça na natureza, como Hassuda (1989) que aponta a contaminação das águas subterrâneas pela disposição da vinhaça em áreas de sacrifício, em estudo no Aqüífero Bauru, encontrando valores de nitrogênio amoniacal, magnésio, alumínio, ferro, manganês e cloreto acima dos padrões vigentes; e detecta a pluma do contaminante, que se descarregava no córrego poluindo as águas superficiais; afirma ainda a salinização na zona não saturada. Cunha et al. (1987) apresentam resultados de experimentos que resultaram em baixo potencial de risco de elementos, devido a alta absorção de nutrientes que minimizam a lixiviação desses elementos; Gloeden et al. (1991) estudaram a mobilidade dos elementos químicos que compõem a vinhaça na zona não saturada e saturada no Aqüífero Guarani, objetivando determinar a taxa ideal para irrigação da vinhaça preservando a qualidade da água subterrânea.
Referências
CARNEIRO, Fernando Ferreira; RIGOTTO, Raquel Maria; AUGUSTO, Lia Giraldo da Silva; FRIEDRICH, Karen; BÚRIGO, André Campos (Orgs.). Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/FIOCRUZ; São Paulo: Expressão Popular, 2015.
CUNHA, R.C.A., COSTA, A.C.S., MASET FILHO, B., CASARINI, D.C.P. Effects of irrigation with vinasse and the dynamics of its constituents in the soil: I – physical and chemical aspects. Wat.Sci.Tech. vol.10, n°8, 1987, p. 155-165.
DANTAS NETO, J.; FIGUEREDO J.L. da C.; FARIAS, C.H. de A.; AZEVEDO, H.M.; AZEVEDO, C.A.V. de. Resposta da cana-de-açúcar, primeira soca, a níveis de irrigação e adubação de cobertura. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v.10, p.283-288, 2006.
DOORENBOS, J.; KASSAM, A.K. Efeito da água no rendimento das culturas. Campina Grande: Universidade Federal da Paraíba, 1994.
GLOEDEN, E.; CUNHA, R.C.A.; FRACCAROLLI, M.J.B. & CLEARY, R.W. The behaviour of vinasse constituents in the unsaturated and saturated zones in the Botucatu Aquifer recharge área. Wat. Sci. Tech. vol. 24, nº 11, 1991. pp. 147-157.
HASSUDA, S. Impactos da infiltração da vinhaça de cana no Aqüífero Bauru. 1989. 92 fl. (Dissertação de Mestrado). São Paulo: IG/USP; 1989.
IBGE. Censo Agropecuário 2006. Brasília/Rio de Janeiro: IBGE, 2010.
MAPA. Plano Nacional de Agroenergia (2006-2011). Brasília, MAPA, 2005.
MARCUZZO, Francisco; FARIA, Thiago Guimarães; PINTO FILHO, Ricardo de Faria. Chuvas no estado de Goiás: análise histórica e tendência futura. ACTA Geográfica, Boa Vista, v.6, n.12, p.125-137, mai./ago. de 2012.