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Resumen de ponencia
As máscaras de Guy Fawkes nos protestos de junho de 2013: trajetórias textuais e sentidos em disputa

*Fernanda Lazaro



O uso de gestos popularizados por indústrias midiáticas tem se tornado comum na composição de revoltas sociais deste decênio. Dentre estas influências, a graphic novel “V de Vingança” (MOORE & LLOYD, 2005) desponta como uma das maiores inspirações dos movimentos sociais da atualidade. Nos protestos de junho de 2013, no Brasil, a máscara de Guy Fawkes emergiu como um dos adereços mais utilizados entre os manifestantes e foi dialogizada por sujeitos dos mais distintos matizes ideológicos. Sujeitos com demandas anarquistas, socialistas, conservadoras, nacionalistas, vestiram o mesmo adereço de sorriso irônico e bigode icônico. Ele foi visto desde a primeira fase das manifestações, quando as demandas ainda priorizavam os transportes públicos (Gohn, 2016), até a última fase, com pautas bem mais generalistas que pediam o fim da corrupção, o fim da PEC-37 e desejos por melhoria na saúde, educação e segurança. Além do caso brasileiro, este mesmo sorriso também se difundiu nas multidões das insurreições árabes, das ocupações de Wall Street, do Million Mask March, dentre outros. A disseminação das máscaras de Guy Fawkes em momentos tão singulares, evidencia o desenrolar de um jogo complexo e dinâmico da comunicação discursiva. Cada uso das máscaras, cada interpretação e enunciado sobre sua definição, concorda ou discorda, rejeita ou polemiza, aceita ou ironiza, enunciados que foram produzidos por outras vozes discursivas. Estes contextos não estão apenas justapostos, eles estão em estado de atrito constante, em tenso combate dialógico (FARACO, 2009). No fluxo da comunicação responsiva descrita pelo Círculo de Bakhtin (VOLOCHINOV, 2017; BAKHTIN, 2016), o ambiente de um enunciado é a heteroglossia dialogizada (FARACO, 2009), onde vozes sociais vão se entrecruzando ineditamente e formando novas vozes sociais. Este processo de entrecruzamento de vozes, por sua vez, pode ser vislumbrado a partir da noção de trajetórias textuais (BLOOMAERT & MARINS, 2003), onde textos são centrados e descentrados, produzindo percursos multidirecionais. Neste movimento, os textos vão desenhando padrões de modificação e transferência de partes de discursos, produzindo constantemente repetição sem reprodução. Os muitos manifestantes que vestiram a máscara movimentaram estas trajetórias porque certamente não compartilham uma interpretação e uma representação estática e fundacional desta personagem. Cada momento em que as máscaras são usadas ou convocadas representaria um novo momento da sua trajetória textual. A fim de produzir discernimento sobre os múltiplos significados produzidos nos protestos de junho de 2013, esta comunicação propõe um diálogo entre as noções de trajetória textual (BLOOMMAERT & MARINS, 2003) e heteroglossia (FARACO, 2009, a partir dos escritos do círculo de Bakhtin). Assumindo que o ambiente da comunicação afeta necessariamente as relações de poder (Castells, 2013), compreender os significados em disputa sobre um dos adereços mais utilizados nas revoltas sociais do início deste século, é fundamental para refletirmos a respeito dos novos sentidos produzidos para as lutas sociais. Neste sentido, esta comunicação se dividirá em duas seções de análise. A primeira traçará brevemente uma trajetória textual imaginada com momentos-chaves das máscaras de Guy Fawkes: na graphic novel “V for Vendetta” (MOORE & LLOYD, 2005), no filme “V de Vingança” (MCTEIGUE, 2006), e nos atos de junho de 2013 no Brasil. Na segunda seção, apresentarei resultados de pesquisa com dados retirados de um quadro de comentários produzido em uma notícia do portal G1. Esta notícia tratava do aumento das vendas dos quadrinhos, do filme e das máscaras devido aos protestos e recebeu cerca de 130 comentários em formato sequencial e não linear. Neste gênero discursivo, os participantes responderam, opinaram, reagiram ao tema da notícia e desenvolveram, principalmente, tentativas de produção de sentidos estáveis para as máscaras de Guy Fawkes. Nesta análise, buscarei compreender diferentes modos de leituras deste signo, principalmente aqueles que entraram em disputa na interação. Admitindo que as palavras estão em constante reverberação pelo atrito com a palavra alheia (BAKHTIN, 2016), este trabalho chamará atenção para os momentos em que alguns participantes tentaram tornar a máscara de Guy Fawkes um signo monovalente, estático e autocentrado.




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* Lazaro
Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil