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Resumen de ponencia
Participação em grupos de jovens católicos na modernidade: motivações, crenças e atitudes

*Carla Cardoso



As questões relacionadas com a participação dos jovens têm adquirido um papel central nas agendas políticas e de investigação nos últimos anos. Este interesse deve-se, em muito, ao facto de a participação dos jovens nos momentos formais de participação, como as eleições, ter vindo a diminuir, mas não só, pois dados da União Europeia (UE), referem que a disponibilidade dos jovens para participar em organizações não-governamentais tem vindo a diminuir (UE, 2015). Assim, numa era de secularização, em que a relação com a religião enquanto narrativa organizadora não parece ser significativa, o que leva milhares de jovens a envolverem-se e a participarem em grupos católicos? Que culturas juvenis e formas de participação são produzidas nesses contextos? Que processos de formação neles ocorrem? Como são interpretadas, apropriadas e integradas na formação destes jovens as suas vivências nestes grupos? Qual o papel desempenhado pelos animadores/responsáveis dos grupos? São estas (e outras) questões que nos permitiram conformar este projeto de investigação sobre os jovens católicos.
Sendo este projeto de investigação sobre jovens, consideramos pertinente entender o conceito de “juventude(s)” que é relativamente recente, tendo surgido nos anos 50 do séc. XX, com o objetivo de definir uma fase da vida, entre a infância e a vida adulta, “marcada por uma certa instabilidade associada a determinados «problemas sociais»” (Pais, 1993, p. 24), sendo uma categoria de contornos pouco precisos (Sáez, Fernández, & Gonçalves, 2006). Atualmente, “a juventude é, então, entendida como o tempo de se tornar alguma coisa” (S. M. Silva, 2011, p. 35). A sociologia da juventude tem evidenciado a heterogeneidade que existe entre os/as jovens, demostrando a existência de diferentes culturas juvenis em função de diferentes pertenças de classe, situações económicas, interesses ou oportunidades ocupacionais, o que permite percecionar a juventude “não apenas na sua aparente unidade mas também na sua diversidade” (Pais, 1993, p. 37).
No que diz respeito à investigação científica realizada neste campo, Sofia Marques Silva refere que “a sociologia da educação tem tratado as juventudes predominantemente do ponto de vista do seu lugar no sistema formal de ensino. É deste modo, sobretudo enquanto alunos/as e estudantes, que os/as jovens têm sido dados/as a conhecer” (S. M. Silva, 2010, p. 82), no entanto, dado que consideramos que existe uma “constelação de sítios de socialização e educação juvenis” (Palhares, 2008, p. 113), torna-se pertinente olhar a juventude a partir de ângulos de análise menos evidenciados, incidindo em objetos de investigação menos comuns, como é o da pertença a grupos de jovens católicos e o papel que tem a participação nestes grupos nos seus processos de formação. Parte-se do pressuposto que “os valores cristão ainda têm algum valor” (Collins-Mayo & Dandelion, 2010, p. 3) (tradução livre), sendo importante refletir sobre o que leva os jovens a participar nestes grupos, até porque “não há dados sérios, consolidados e credíveis sobre a pastoral juvenil que se faz em Portugal” (Alberto, 2012, p. 81). Apesar da falta de dados sobre os jovens e os seus modos de organização existe uma organização bem estabelecida e fortemente hierárquica da Igreja Católica que sobre estes influi.
A organização e participação dos jovens em grupos é entendida, pela Igreja Católica, como pastoral juvenil e corresponde à “…ação da Igreja com os jovens, na evangelização e na educação cristã…” . Os próprios jovens estão no centro desta ação, desenvolvida por iniciativa e desejo pessoal ou por falta de outra alternativa de expressão e vivência da sua fé. O envolvimento de muitos pode mesmo ser equacionado enquanto participação, na perspetiva apresentada por Berger, uma vez que têm voz ativa “tanto na conceção como na elaboração e na realização e, como é evidente, também na avaliação e na reorientação das diferentes atividades” (Berger, 2004, p. 18). Os grupos de jovens católicos, representando importantes contextos de socialização e de vivência partilhada de experiências, constituem-se, assim, como espaços e tempos com um elevado potencial educativo, entendendo-se o educativo como um “processo de socialização” (Dominicé, 1988a, p. 60), que ocorre ao longo da vida, nos mais diversos contextos em que o individuo está inserido (Canário, 2006, pp. 159-160). A multiplicidade de experiências suscetíveis de ser vivenciadas nestes grupos, potenciam a realização de inúmeras aprendizagens, que importa conhecer de forma aprofundada, explicitando de que forma são integradas pelos jovens “em termos de capacidade, de saber-fazer, de saber pensar e de saber situar-se” (Josso, 2002, p. 178), ou seja, em termos de competências pessoais e sociais.
Este projeto de investigação tem como finalidade de produzir conhecimento sobre culturas juvenis e organizacionais na sua relação com as experiências educativas nos grupos da pastoral. Tendo presente esta finalidade, nesta comunicação pretende-se apresentar e discutir os resultados preliminares de um inquérito administrado aos participantes de grupos de jovens católicos do norte de Portugal pertencentes às dioceses de Aveiro, Braga, Bragança-Miranda e Porto.
Apesar de se tratar de uma pesquisa ainda em curso, uma análise preliminar do referido inquérito permite identificar algumas tendências que passamos a enumerar e que serão objeto de discussão: 1) os jovens consideram que a participação nestes grupos os diferencia de outros jovens, especificamente em dimensões da ajuda aos outros, do perdão e da honestidade; 2) em muitos aspetos, as suas crenças estão em consonância com a ortodoxia da Igreja Católica; no entanto, existem dúvidas no que diz respeito à morte e à vida depois desta (aspeto central na ortodoxia católica); 3) há uma elevada socialização católica (com a participação na catequese e nos sacramentos desde a infância) e são várias as pessoas que desempenham um papel enquanto motivadores à participação nestes grupos; neste âmbito, a internet e as redes sociais têm pouca influência; 4) a experiência de participação nestes grupos é muito significativa, sendo fonte de diversas reflexões e discussões que são importantes na formação destes jovens.
Os resultados aqui objeto de análise enquadram-se num estudo mais vasto em curso, realizado no Norte de Portugal, no âmbito do projeto de doutoramento “Culturas juvenis e participação em grupos de jovens católicos: vivências, trajetórias e processos de formação” (bolsa PD/PB/114284/2016 da Fundação para a Ciência e Tecnologia), sob orientação das Professoras Doutoras Teresa Medina e Sofia Marques da Silva.




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* Cardoso
Centro de Investigação e Intervenção Educativas. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. Universidade do Porto - CIIE. Porto , Portugal