Este ensaio resulta de uma reflexão particular em torno: i) do inventário da estratégia democrático-popular – inventário realizado de forma coletiva e militante –; ii) da controvérsia da dependência – resgatando em particular a teoria marxista da dependência –; e iii) do papel da ideologia do desenvolvimento na história do pensamento econômico brasileiro – elemento que procura articular as duas questões anteriores.
A ideia central aqui defendida é que as possíveis e variadas respostas àquelas perguntas, embora possam trazer – nos casos mais logrados – elementos importantes de descrição ou de “aparência objetiva” da realidade brasileira enquanto parte do sistema interestatal capitalista, são intrinsecamente limitadas como explicação desta mesma realidade e acabam cumprindo uma função de ideologia, na medida em tendem a desistoricizar o “desenvolvimento” – por mais “histórico-estruturais” que sejam muitas análises – e, com isso, naturalizam as relações de dominação e exploração vigentes mediante um sistema de ideias que apresenta determinados processos históricos particulares como passíveis de universalização e determinados projetos políticos particulares como sendo universais. Aqueles tipos de questões informam, pois, a ideologia do desenvolvimento, cujos traços específicos fundamentais são: i) a presença do desenvolvimento como horizonte utópico; e ii) o enquadramento intelectual e político na questão motora (explícita ou implícita) de “como desenvolver o país?”. Em sua formulação completa, essa ideia central está conformada por sete hipóteses, todas girando em torno da ideologia do desenvolvimento. Tratam de sua presença atual, origem, enraizamento, desdobramento, hegemonia, tendência ao economicismo e, finalmente, possíveis formas de superação.
Tendo em vista a limitação deste ensaio, o foco aqui se concentrará em apontar algumas notas sobre a primeira hipótese, que demarca as demais. A intenção é apresentar em linhas gerais o que se considera aqui como ideologia e como ideologia do desenvolvimento, destacando seu enraizamento e presença hegemônica no Brasil (seções II e III), para então deixar indicações sobre a relação desta ideologia específica com o marxismo, com a controvérsia da dependência e em particular com a teoria marxista da dependência, e finalmente abordar, de modo apenas tentativo – como conclusões “em desenvolvimento” –, seus desdobramentos em termos estratégicos dentro do campo da esquerda (seção IV).
O ponto mais relevante e também mais tentativo do texto certamente é este último. A partir das considerações prévias sobre a teoria marxista da dependência e a crítica da ideologia do desenvolvimento, ali apontamos para a percepção de que a estratégia predominante no último período histórico - a estratégia democrática e popular - se esgotou. Em síntese, tal estratégia se pauta nos processos de alargamento da democracia (burguesa), desenvolvimento (capitalista) e fortalecimento da economia nacional; tais processos gerariam uma ampliação progressiva de um conjunto de direitos e de participação política, através da pressão dos movimentos sociais e da ocupação dos espaços institucionais no Estado, que se chocariam contra os interesses de nossa classe dominante e do caráter autocrático do Estado; e desse choque emergiria a possibilidade do socialismo e mesmo a necessidade do socialismo para cumprir as tarefas em atraso que a burguesia é incapaz de cumprir.
A meu ver, e em contraste e diálogo camarada com parte da esquerda, esta estratégia não foi traída ou abandonada, mas sim realizada – e atualmente se mostra esgotada, derrotada na luta de classes, mesmo no sentido mínimo da disputa de hegemonia. E é por isso que precisamos superá-la. Essa superação – numa síntese que ainda está por vir, e pode não ocorrer –, por sua vez, tem de passar, entre tantas outras coisas, por fazer um inventário das análises unitárias e coerentes sobre a realidade brasileira e latino-americana que informaram aquela estratégia. Um ‘inventário’ no sentido apontado por Gramsci, quando diz que “o início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um ‘conhece-te a ti mesmo’ como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise”. E em tal análise ou inventário é preciso tentar compreender, de forma militante e coletiva, qual é a parte que lhe cabe desta estratégia à controvérsia da dependência em geral e à TMD em particular, seja em seus elementos que apontam para uma superação estratégica, sejam nos pontos que informam e (re)afirmam aquela estratégia. Eis uma tarefa “em desenvolvimento”, dentre tantas outras no limitadíssimo porém necessário campo da batalha das ideias, com vistas não apenas a superar “a dependência”, mas sim a derrocar os pilares do capitalismo dependente latino-americano, com o horizonte da construção do socialismo em Nuestra América.