Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Eugenia, Racismo e Ficção Científica: O “Presidente Negro” e a permanência da desigualdade na cidadania brasileira.

*Gabriel Maia De Oliveira



Este trabalho tem por objetivo realizar a análise do romance de ficção científica “O Presidente Negro” de Monteiro Lobato, publicado inicialmente em 1926, tendo o foco na relação entre desigualdade e cidadania no Brasil. Trata-se, portanto, de um exercício de reflexão sobre literatura e sociedade, e de perceber estruturas sociais como estruturas textuais ou o social no texto que não se prende exclusivamente ao conteúdo (MACHERY 1971)-. Privilegia-se neste caso, a observação da desigualdade como estrutura social (TELLES 1993) no que diz respeito à cidadania no caso brasileiro e os sintomas desta na literatura do final da primeira república e no mecanismo de projeção ao futuro que caracteriza a ficção científica (JAMESON 2005).
O texto em questão apresenta-se, por suas descrições do futuro de 2228, enquanto um trabalho de “futurismo”. Lobato “prevê” (assim clamam alguns resenhistas) desde 1926 um futuro onde, por exemplo, mulheres conquistam um lugar na política e escrevem-se jornais desde casa, através de aprimoramentos na tecnologia do rádio – que se espalha e modifica as condições de trabalho para todos. Apesar de escrever longe do fim das Leis de Jim Crow que instituíam o apartheid norte-americano, “O presidente negro” como afirma no título, também descreve um futuro onde a raça negra também possui lugar “avançado” na política. Mas também indica, mais de uma década antes da Segunda Guerra Mundial, que processos de eugenia estatizados “servem à humanidade livrando-a de seus parasitas”:
“os surdos-mudos, os aleijados, os loucos, os morféticos, os histéricos, os criminosos natos, os fanáticos, os gramáticos, os misticos, os retóricos, os vigaristas, os corruptores de donzelas, as prostitutas, a legião inteira de malformados no físico e no moral, causadores de todas as perturbações da sociedade humana.” (LOBATO, Monteiro. 1926, posição 1039 [ebook Kindle]).

Monteiro Lobato é ainda hoje um dos maiores nomes da literatura de fantasia infantil brasileira. Contudo, na perspectiva de sua estadia nos Estados Unidos entre 1927 e 1931, o autor produz e publica em três semanas o texto de ficção científica (primeiro texto do gênero para o autor) com a intenção de lá publicá-lo. Projeto que não vai para a frente, provavelmente dado ao conteúdo “sensível” do texto. Busca-se mostrar que o conteúdo eugenista do autor não é “particular” seu, mas fruto das configurações sociais do início da formação política da cidadania no país. Tal exercício é essencial para a realização de uma sociologia da literatura ou da Cultura (JAMESON, 1985).
A análise dos elementos estético-literários do livro – focada em especial naqueles elementos “futuristas” e na trama política que se desenrola na obra é acompanhada pela discussão sobre os elementos formadores das sociedades capitalistas contemporâneas e alguns valores que a acompanham(eficiência e utilitarismo, por exemplo), de forma a relacionar os elementos percebidos como estruturas sociais na obra com o tempo e as sociedades presentes.
O texto polêmico de Lobato apresenta um caráter abertamente panfletário da eugenia racial, e portanto relacionar cidadania e ficção na discussão se prova mais um desafio que de fato uma facilidade. Entretanto, para realizar esta tarefa de forma sucinta resumimos a análise de “O presidente Negro” em três pontos principais: i) A caracterização inicial da obra e seus elementos futuristas, elementos que permitem a ilusão de ação no futuro e de justificativas tecnológicas para as ações das personagens; ii) A denúncia dos elementos de eugenia e racismo declarados que a avaliação de sua centralidade para o desenvolvimento da trama, e a discussão sobre estes elementos enquanto sintomas da sociais; e iii) A análise do sentido que leva os elementos denunciados no texto a serem necessariamente projetados num futuro e a relação deste “impulso para o futuro” com a questão das estruturas de desigualdade e cidadania brasileira. Portanto, nos baseamos no texto de Theodor Adorno “Aldous Huxley e a Utopia” como fonte de referência para o presente ensaio.




......................

* Maia De Oliveira
Programa de Pós Graduação em Sociologia do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba PPGS/ CCHLA / UFPB. João Pessoa, Brasil