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Resumen de ponencia
Boaventura de Sousa Santos e as Epistemologias do Sul nos trabalhos de Pós-Graduação no Brasil

*Luana Hanae Gabriel Homma



No Brasil, o status de colônia é findado com a independência, no século XIX. No entanto, é possível verificar resquícios de colonialismo operando nas estruturas econômicas, políticas, sociais e epistemológicas. Na América Latina a relação colonial institui linhas abissais entre metrópole e colônia, no século XV, onde no lado da colônia opera-se a partir da dicotomia apropriação/violência, com constantes invisibilizações (SANTOS, 2002).
Santos (2007) identifica duas áreas nas quais as linhas abissais são mais visíveis: no direito e no conhecimento modernos. Enquanto nas metrópoles o direito moderno se institui com base na dicotomia entre o legal e o ilegal de acordo com o direito do Estado ou internacional, a zona colonial se caracteriza como o território sem lei, fora da lei, ou ainda do legal e do ilegal de acordo com o direito não reconhecido oficialmente.
Em relação à questão epistêmica, a linha abissal divide os conhecimentos modernos (ciência, filosofia e teologia) dos “não-conhecimentos”. Estes, dos grupos subalternizados, como por exemplo dos povos nativos das Américas, Ásia e África. A zona colonial é composta, então, não de conhecimentos, mas de compreensões subjetivas ou intuitivas, que não chegam à academia exceto como objeto de pesquisa científica (SANTOS, 2007).
Desta forma, esta divisão abissal produz não-existências, apagando os saberes, racionalidades e pessoas do lado colonial da linha abissal. Esta comunicação se centra no apagamento epistêmico, tendo como objeto a universidade, instituição com papel de destaque na afirmação do pensamento abissal, que classifica o saber científico moderno como o único válido (SANTOS; MENESES, 2009).
O conceito de Epistemologias do Sul carrega esta ideia de que a dominação colonial foi também epistêmica, levando à valorização de uma forma de saber em detrimento de tantas outras dos povos colonizados, que passaram a ser desconsideradas (SANTOS; MENESES, 2009). Neste sentido, Santos e Meneses afirmam que a epistemologia dominante, “assenta numa dupla diferença: a diferença cultural do mundo moderno cristão ocidental e a diferença política do colonialismo e capitalismo” (SANTOS; MENESES, 2009, p.10).
O conhecimento científico moderno se institui por meio do que Santos chama de localismo globalizado: apesar de ser contextual, local, tal epistemologia se pretende e se coloca como universal, inclusive fazendo uso da força. Esta epistemologia é tão “profunda que descredibilizou e, sempre que necessário, suprimiu todas as práticas sociais de conhecimento que contrariassem os interesses que ela servia. Nisso consistiu o epistemicídio, ou seja, a supressão dos conhecimentos locais perpetrada por um conhecimento alienígena” (SANTOS, MENESES, 2009, p.10). Por este motivo o pensamento moderno se constitui na mais poderosa forma de produção de não-existência, uma monocultura do saber.
A formulação de Epistemologias do Sul, de Boaventura de Sousa Santos, se mostra “uma epistemologia geral da impossibilidade de uma epistemologia geral” (NUNES, 2008, p.13). Em contraposição à visão homogeneizante moderna colonial, “As epistemologias do Sul são o conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam essa supressão, valorizam os saberes que resistiram com êxito e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos” (SANTOS; MENESES, 2009, p.13), havendo um reconhecimento de todos esses saberes de acordo com sua validade, que se define por meio das condições de sua produção e apropriação (NUNES, 2009). Segundo Meneses “as epistemologias do Sul, como Boaventura de Sousa Santos propõe, reclamam o recuperar máximo das experiências de conhecimentos do mundo, alargando o espaço de produção de conhecimentos e de modos de pensar, instaurando a própria possibilidade de falar com - em vez de falar sobre - outros mundos e saberes” (2009, p. 208), assentando, nas palavras de Santos, em “três orientações: aprender que existe o Sul; aprender a ir para o Sul; aprender a partir do Sul e com o Sul” (1995, apud SANTOS; MENESES, 2009, p. 9).
Buscando compreender como tem-se buscando superar esta invisibilização de conhecimentos na universidade brasileira, a partir da análise de teses e dissertações que tratam do pensamento pós-colonial/decolonial, e têm como referencial teórico o autor português. Esta comunicação tem como cerne um mapeamento de teses e dissertações, realizado de Outubro a Dezembro de 2017, no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, no contexto da dissertação de mestrado intitulado “O pensamento de Boaventura de Sousa Santos e suas contribuições para a universidade brasileira”. O mapeamento se dá no âmbito da pesquisa, compreendendo a importância deste pilar entre os outros dois (ensino e extensão), na universidade. A pesquisa é por vezes desconsiderada, uma vez que historicamente a universidade, passa a se centrar no treinamento dos estudantes para profissões liberais ou ainda a reprodução de conhecimentos gerados no exterior, como coloca Florestan Fernandes:
Como sucedeu em toda a América Latina, a ênfase no profissionalismo divorciou a universidade de suas missões mais produtivas, restringindo-a a um ensino alienado da realidade, altamente verbalizado e retórico, pouco ou nada criador – pois valorizava os exames e os títulos, negligenciando a aprendizagem e a pesquisa inventiva – e prático apenas no sentido técnico-profissional, já que predispunha o letrado para uma permanente disponibilidade intelectual (FERNANDES, 1975, p.248).
Neste mapeamento, realizado no final do ano de 2017, o termo “Epistemologias do Sul” retornou 39 resultados, entre teses e dissertações, datados de 2010 (1 trabalho) a 2016 (14 teses e dissertações). Os trabalhos passam a ser defendidos neste período provavelmente pelo fato de que, apesar de o termo Epistemologias do Sul ter sido cunhado por Boaventura de Sousa Santos em 1995, este tem grande destaque com a edição do livro organizado pelo autor e por Maria Paula Meneses, em 2009, intitulado Epistemologias do Sul. O ano de 2017 não foi considerado uma vez que o mapeamento foi realizado ao fim deste ano, e, portanto, não constavam ainda nos registros todos os trabalhos defendidos no período.
A partir deste mapeamento, a comunicação traz uma análise das teses e dissertações mapeadas, acerca dos Programas de Pós-Graduação, Universidades, Estados e Regiões onde foram produzidos, bem como das áreas de concentração dos programas e as temáticas abordadas, buscando compreender como o termo tem repercutido na Universidade brasileira.

REFERÊNCIAS
FERNANDES, Florestan. Universidade Brasileira: Reforma ou Revolução. 2ª Ed. Vol. 3. São Paulo: Alfa-Omega,1975, 272 p.
NUNES, João Arriscado. O Resgate da Epistemologia. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. (Orgs.) Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina. 2009. pp.9-20.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Revista Crítica de Ciências Sociais, 2002. pp. 237-280
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do Pensamento Abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes. Revista Crítica de Ciências Sociais, 78, 2007. pp.3-46
SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. Introdução. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. (Orgs.) Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina. 2009. pp.9-20.




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* Gabriel Homma
Universidade Federal do ABC UFABC. São Bernardo do Campo, Brasil