O incremento do capitalismo global e o foco midiático exclusivo sobre os deslocamentos humanos transfronteiriços impede um olhar mais atento a migrações que ocorrem dentro de um mesmo Estado nação. Os fluxos migratórios internos, entretanto, são de fundamental importância para a compreensão da conformação demográfica e espacial de nossas cidades e nossas culturas, não podendo ser eclipsados pelos eventos de cunho internacional. A formulação das políticas públicas, por sua vez, deve estar atenta também às migrações internas ou nacionais, considerando os grupos que se deslocam entre estados da mesma federação em busca de melhores condições de vida ou oportunidades.
Atento a estes fluxos, especificamente o que gera deslocamento de pessoas oriundas de cidades dos estados da região nordeste para o município do Rio de Janeiro, é que busco compreender formas de resistência do migrante nordestino na capital carioca. O caminho escolhido para análise dessa resistência é a manifestação da cultura da cidade ou estado de origem, materializadas, para fins do presente estudo, na Feira de São Cristóvão, ou Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas.
O Rio de Janeiro é um conhecido destino dos migrantes no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em seu censo demográfico de 2010 , o Rio de Janeiro ocupa o segundo lugar entre as cidades brasileiras como o destino mais procurado por imigrantes internacionais, ficando atrás apenas da cidade de São Paulo.
O perfil migratório delineado por recentes pesquisas, com base nos censos e dados demográficos fornecidos pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), busca compreender a composição dos fluxos de migrantes na década 2000-2010. Ao analisarmos o perfil para a cidade do Rio de Janeiro, percebemos que, entre as dez cidades brasileiras com maior fluxo de pessoas emigradas em direção à capital carioca, seis delas são de estados do Nordeste (Fundação João Pinheiro – Plataforma Migrações no Brasil).
A discussão que proponho, portanto, na investigação sobre a vivência do migrante nordestino na cidade do Rio de Janeiro perpassa, essencialmente, a questão da cultura. Pretendo compreender expressões culturais tipicamente nordestinas na cidade do Rio como forma de resistência cultural do migrante na capital carioca. Com fito em recorte temático, optei pelo estudo da expressão cultural mais materialmente palpável e publicamente conhecida da cultura nordestina no Rio de Janeiro: a Feira de São Cristóvão.
Oficialmente nomeada como Centro Municipal de Tradições Nordestinas Luiz Gonzaga (CTNLG), a Feira de São Cristóvão, como chamaremos neste trabalho, fazendo jus à maneira como é chamada e conhecida pelos próprios feirantes, (uma vez que a nomeação oficial foi dada pela prefeitura apenas em 2003), é uma conhecida feira na zona norte do Rio de Janeiro, originada pela chegada de migrantes nordestinos ao Campo de São Cristóvao.
No desenvolvimento deste estudo, portanto, me preocupo com duas questões que considero essenciais para precaução e análise: lugar de fala e mecanismo de colonialidade (interna). Ao analisar a Feira de São Cristóvão enquanto expressão cultural nordestina como forma de resistência do migrante oriundo do nordeste no Rio de Janeiro, pretendo realizar pesquisa de campo, escutando as vozes e narrativas destes migrantes no processo de elaboração do trabalho. O objetivo primordial desta escuta é compreender como eles enxergam a Feira de São Cristóvão e se a veem como um caminho de resistência cultural na capital carioca.
Questionar quanto à colonialidade é necessário, pois acreditamos existir um poder estrutural (sistema de poder), impulsionando a lógica capitalista (QUIJANO, 2009), que inviabiliza e deslegitima saberes produzidos por grupos subalternizados (RIBEIRO, 2017). Neste sentido, este saber e esta cultura podem ser vistos como resistência. A própria (auto)crítica quanto à colonialidade neste trabalho se interliga com a vigilância necessária para o lugar de fala: os sistemas de poder coloniais instituíram pessoas tradicionalmente autorizadas a falar, produzindo discursos hegemônicos e silenciamentos (RIBERIRO, 2017).
As abordagens acadêmicas acerca dos fenômenos sociais podem ser desenvolvidas sob a utilização de diversos métodos. Este estudo, por entender-se crítico e procurar uma abordagem crítica quanto aos direitos humanos, optou pela utilização do Diamante Ético como metodologia de trabalho. A Metologia Relacional do Diamante Ético, é proposta por Joaquín Herrera Flores em seu livro “A re-invenção dos direitos humanos”.
Esta idealização metodológica compreende a necessidade de analisar uma situação social a partir não apenas de uma concepção relacional, mas também materialista, dos Direitos Humanos (HERRERA, 2009). Isso implica dizer, em meu entendimento, que esta metodologia vincula a pesquisa ao estudo e proposição de alternativas e viabilidades a problemas sociais diretamente ligados a formas de satisfação das necessidades humanas e da dignidade das pessoas.
Para o desenvolvimento de um estudo que se proponha à identificação, análise, discussão, debate e visibilização de uma situação social diretamente ligada à questão de direitos humanos, é conveniente que alguns elementos do diamante ético sejam utilizados e explorados. Para fins deste trabalho, optei por analisar, incialmente, cincos destes elementos. Três deles pertencem ao eixo vertical, teórico e, portanto traduzem-se no âmbito da semântica dos direitos humanos. Dois deles, portanto, inserem-se no eixo horizontal ou material, correspondendo a elementos da pragmática dos Direitos Humanos.
Acredito que os pontos de análise escolhidos podem auxiliar na compreensão do fenômeno social que analiso, me auxiliando a compreender a manifestação cultural presente na feira de São Cristóvão como a constituição de um espaço de resistência do imigrante nordestino na cidade Rio de Janeiro. Descrevo, a seguir, as implicações metodológicas do uso de cada um destes termos.
Eixo vertical ou conceitual – os elementos constitutivos de uma semântica dos direitos humanos.
Posição: Considerando os movimentos migratórios nordestinos no Brasil (MORENO; MOREIRA; QUEIROZ, 2016), em especial em direção à cidade do Rio de Janeiro, poderei compreender e descrever a posição que ocupam estes imigrantes na capital carioca. A chegada de um número massivo de retirantes na década de 40 que buscaram se instalar no Campo de São Cristóvão, na Zona Norte da cidade (REZENDE, 2001). O objetivo é compreender o processo de instalação em zonas economicamente periféricas da cidade destes migrantes oriundos de região economicamente periférica do país.
Narrações: Este é a representação máxima do espaço da escuta, a qual deverá estar presente no desenvolvimento de todo o projeto e ser o eixo gravitacional deste estudo. O silenciamento é uma grande arma colonizatória (RIBEIRO, 2017). Ocupo um espaço de privilégio, um espaço ocupado por quem histórica e socialmente sempre foi autorizado a falar, neste contexto. Esta é, portanto, a mais importante de todas as categorias do diamante deste estudo. É através dela que a investigação poderá ocorrer. O estudo sobre a Feira de São Cristóvão como espaço de resistência cultural de grupos de migrantes nordestinos no Rio de Janeiro será elaborado e informado a partir das narrativas destes mesmos migrantes. O caminho até agora pensado para o desenvolvimento destas narrações é a forma de entrevista com feirantes e imigrantes que se disponham a contar sua vivência enquanto nordestinos no Rio de Janeiro e o que a Feira de São Cristóvão representa para eles.
Espaço: A adoção desta categoria é imprescindível. A Feira de São Cristóvão, ou o Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, como descrito anteriormente, circunscreve-se especificamente a uma determinada espacialidade. A conformação física do lugar, com mais de 700 pontos e barracas de feirantes , a localização no bairro de São Cristóvão, longe das zonas prestigiadas da cidade do Rio de Janeiro e o contrato de gestão realizado pela prefeitura do Rio de Janeiro para o gerenciamento daquela espacialidade ser executado pela Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro são fatores de análise impreterível no estudo.
Eixo horizontal ou material – os elementos constitutivos de uma pragmática dos direitos humanos
Disposições: As disposições são categorias de análise essenciais no trabalho. A análise e descrição das disposições poderão ser construídas, no presente estudo, em cotejamento com o que for desenvolvido na categoria “posições” e a partir do que for coletado na categoria “narrações”. Esta é apenas uma corroboração da interdependência e interrelação entre as camadas do diamante ético. A disposição será capaz de sistematizar e informar, a partir das narrativas dos migrantes e feirantes, a maneira como se sentem enquanto nordestinos no Rio de Janeiro, e de que maneira (se houver) a Feira de São Cristóvão e toda a manifestação cultural que ela materializa os fortalece na resistência da difícil experiência migrante em um país xenófobo e conolonialista.
Práticas sociais: A análise das práticas sociais como um segundo elemento do eixo material interliga com o “espaço” e a “posição” no eixo conceitual. Este elemento de análise seria capaz de traduzir no plano discursivo a investigação sobre as formas de organização dos migrantes e feirantes na Feira de São Cristóvão.
A proposta, da apresentação do trabalho na 8ª conferência Latino Americana e Caribenha de Ciencias Sociais, é integrar-se aos estudos da mobilidade humana como ferramenta da participação e justiça social, apresentando o material coletado nas entrevistas com migrantes.