Nas últimas décadas, placas com a informação “Sorria, você está sendo filmado!” se tornaram comuns nos variados locais das cidades brasileiras: bancos, shoppings, ruas, praças, condomínios fechados, hospitais. Com a expansão dos aparatos de vigilância, questões surgem, tais como: a câmera está ligada? Estão me vigiando agora? E se meu comportamento não for adequado, o que farão comigo? As imagens ficarão armazenadas? Os questionamentos sobre a vigilância, ampliada no espaço cotidiano, se voltam aqui para um espaço específico: a escola. E para além dos questionamentos anteriores, colocam-se outros: o que é a vigilância na escola? Quando as câmeras fazem parte do espaço escolar? Há um controle sobre os sujeitos da comunidade escolar a partir das câmeras? A quem ou a o quê servem as imagens?
As escolas estão inseridas dentro de uma sociedade em que a questão da segurança está em evidência a todo o momento, onde controlar “risco” torna-se cada vez mais a prática cotidiana dos cidadãos e das instituições governamentais. Para o sociólogo Ulrich Beck (2010) a sociedade de risco corresponde a uma fase da moderna sociedade industrial em que a dinâmica de mudança e incerteza é tal que as instituições de “controle e proteção” não conseguem dar conta da produção de riscos de todo tipo – políticos, ecológicos, individuais.
O termo sociedade de risco é utilizado para caracterizar nosso tempo, visto que a grande preocupação com o fato de “correr riscos” e as medidas preventivas aplicadas para reduzi-los tornam-se prioridade nos investimentos e discursos públicos (Haesbaert, 2012). Para aprofundar a ideia de como a sociedade de risco está estruturada, buscamos o conceito de “sociedade de segurança” ou “biopolítica”, proveniente da análise proposta por Foucault (1988), para quem na sociedade contemporânea estaria ocorrendo o declínio da “sociedade disciplinar” e do “poder soberano”.
Dentre as diversas perspectivas que podemos compreender a escola, e seus mecanismos de vigilância, partiremos da abordagem realizada por Foucault, em sua obra clássica “Vigiar e Punir”. A escola é caracterizada como uma instituição disciplinar estruturada por mecanismos de vigilância e controle do espaço com o objetivo do controle dos corpos utilizando a disciplina como formas de dominação principalmente a partir dos séculos XVII e XVIII (Foucault, 1987, p. 118).
Quando se trata de câmeras na escola, um espaço extremamente hierarquizado, vigiado e controlado, tais questões apresentam ainda mais notoriedade e tensionamentos entre os sujeitos e desdobramentos na dinâmica escolar. No contexto de aumento da vigilância e monitoramento das unidades de ensino, as câmeras são mais um recurso utilizado dentro de uma diversidade de dispositivos de controle.
Nota-se o crescimento de instalações de câmeras dentro das unidades escolares estaduais nos últimos anos, tal fato surpreende, já que, normalmente, a instalação desses equipamentos requer alto investimento financeiro enquanto, no cotidiano das escolas, é nítida a precarização das infraestruturas básicas influenciando diretamente no processo de ensino-aprendizagem.
O presente trabalho, fruto das pesquisas iniciais do mestrado em curso no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense – UFF, tem como objetivo apresentar qual o papel do monitoramento por câmeras na escola, onde as câmeras intensificam a dinâmica da vigilância, identificando quais os sujeitos envolvidos no processo de controle territorial na escola e apresentar o mapeamento das câmeras instaladas, tendo como objeto de análise a escola selecionada para realização do estudo de caso que pertence à Rede Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, localiza-se na cidade de São Gonçalo, onde as câmeras foram instaladas em Julho de 2017.
Reconhecendo que a instalação de câmeras tem desdobramentos nas relações de poder dentro da escola, e também, no sentido de ampliarmos o debate sobre o controle e vigilância neste espaço, perguntamos: Qual é a relação entre o monitoramento por câmeras e a vigilância nas escolas? Quais os sujeitos envolvidos no controle territorial escolar a partir da instalação desse novo dispositivo de controle?