A artigo tem por objetivo exibir os resultados da pesquisa de mestrado em que procurei ressaltar a gênese da Pastoral Afro-brasileira (PAB) e sua importância na articulação contra o racismo. Tendo como propósito central do estudo, analisar o surgimento e a criação da PAB, para que assim possa compreender seu papel em prol da igualdade racial e toda a sua reflexão social.
Apresentando como objetivo geral, a compreensão da gênese da Pastoral Afro-brasileira e sua ação na questão racial, assim como, identificar como se constituem as ações norteadoras da PAB no campo racial. Salientando também qual a representação que a identidade afro-brasileira tem para seus membros e principais protagonistas.
Visto que, a sociedade vive o mito da democracia racial, conforme analisado por Octavio Ianni (2004), que é proveniente da ideologia do branqueamento, que determina através da cor da pele do indivíduo quem é digno de oportunidades. Capaz de instaurar socialmente a intolerância étnica, o preconceito racial, a discriminação racial e principalmente o racismo.
Tendo em vista que essa é uma dinâmica entranhada na sociedade desde o período em que negros eram escravizados, explorados e estigmatizados, torna-se fundamental que haja ações que dinamizem a igualdade racial. E essa ação é desenvolvida por Grupos organizados, Movimentos Sociais, Movimento Negro e Pastoral Social da Igreja Católica, como a Pastoral (Pastoral: é toda a ação da Igreja e sua missão neste mundo. A Igreja não existe para si mesma, mas em função da sua missão de anunciar Jesus Cristo e fazer acontecer o Reino de Deus) Afro-brasileira, que é o objeto central da pesquisa.
A Pastoral Afro-brasileira busca a valorização do negro, com base nas demandas relacionadas a essa população, como por exemplo, evidenciar sua identidade, cultura e ancestralidade, com o intuito de intervir na desigualdade racial. Essas causas são também, provenientes dos resquícios deixados pela prática de exploração que o negro foi exposto durante décadas que foi a escravidão, mas, também de atuais práticas racistas, que assolam a população negra na contemporaneidade .
Antes da consumação da Pastoral Afro-brasileira, tiveram marcos históricos na Igreja Católica, que permitiram que fosse pensado mais nas demandas sociais, como a Conferência de Medellín (1968). Mas, o surgimento da Pastoral Afro-brasileira foi inspirado na Conferência de Puebla (1979), que voltou o olhar da Igreja Católica para a questão racial, falando abertamente sobre as demandas do negro.
A militância dos cristãos negros foi essencial para a criação da Pastoral Afro-brasileira, pois, foi através dos grupos organizados, a partir da Linha 2 da CNBB (Intitula-se: Linha2 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) o grupo criado em setembro de 1978 em Brasília por estudiosos, que estavam preocupados com a evangelização dos negros, afim de elaborar estudos sobre o culto afro para que os Bispos levassem para a Conferência de Puebla) que o tema sobre a questão racial foi levado para a Conferência de Puebla e teve espaço dentro da Igreja Católica. Decorrente da Conferência, os grupos se fortificaram e concluíram que deveria ser criada uma Pastoral que olhasse especificamente para as demandas advindas da população negra.
Esse novo olhar da Igreja Católica, foi influenciado pelas reivindicações dos cristãos negros ativistas que se organizaram em grupos para discutir a questão racial que se fortaleceram após a Conferência de Puebla. Com isso, iniciaram a reivindicação para que a Campanha da Fraternidade (CF) da Igreja Católica de 1988, falasse sobre o negro.
Através do posicionamento dos negros militantes cristãos, surgiram Grupos de estudos sobre a temática racial dentro da Igreja, que não se importavam apenas com o racismo da instituição, mas se preocupavam em conscientizar a comunidade local, sobre a importância de evidenciar a cultura afro em todos os âmbitos sociais. E essa militância, fez com que surgissem o Grupo de Agentes de Pastoral Negros (APN), que articulou e reivindicou que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) dedicasse a Campanha da Fraternidade de 1988 aos negros, em virtude da comemoração aos 100 Anos da Abolição da Escravatura.
O objetivo foi alcançado pelos negros militantes inseridos na Igreja Católica e assim foi consumado a Campanha da Fraternidade (CF) de 1988 com o tema “Fraternidade e o Negro”, com o lema — “Ouvi o clamor deste povo”. E após a CF de 88, como é conhecida entre os Católicos, foi criada a Pastoral Afro-brasileira, que exprimiu os anseios e demandas que assolam os negros até os tempos atuais, em virtude dos resquícios da escravidão e do estrutura social excludente.
“A Pastoral Afro-brasileira procurou que os seus Agentes de Pastoral, num contexto teológico, onde se valoriza as experiências das comunidades e o compromisso com os mais pobres, e assim, desenvolvesse um processo de formação onde confronta a fé com as injustiças feitas aos pobres. Essa teologia é a partir de um novo lugar social e daí surgem alguns sinais que revelam uma espiritualidade”. (ARAÚJO, 2015, p. 01)
A referida Campanha da Fraternidade de 88, é considerado um dos marcos histórico da Igreja Católica que antecedeu e inspirou a criação da Pastoral Afro-brasileira. E mesmo tendo enfrentado grande resistência e divergência, essa Campanha obteve sucesso e ressaltou as demandas que assolavam a população negra dentro do espaço da Igreja Católica.
O texto base da Campanha da Fraternidade de 88 abordou diversos temas, que sinalizavam a extrema situação de desigualdade que o negro vive socialmente. O Manual como também é referido, retratou tópicos como o percentual populacional no Brasil, com base em pesquisas do IBGE, que a população negra é superior à população branca. Apontou também sobre o trabalho escravo e a discrepante diferença salarial entre negros e brancos.
A questão da religiosidade do negro também foi um tema evidenciado no Texto Base da CF de 88, atentando sobre as religiões de Matriz Africana. Ele sinalizou o quão importante era para os negros escravizados o papel dos chefes dessas religiões, que procuravam aglutinar os negros em condição de escravos, para transmitir os rituais e crenças religiosas através da fundamentação e celebrações clandestinas, já que eram proibidos até de expor sua religiosidade.
“É interessante ressaltar que a CF coloca em evidência, no manual, a luta do povo negro por melhorias sociais, fala sobre o preconceito, a discriminação e a negação de sua identidade e cultura. Quando se refere à religiosidade, afirma ser o povo negro profundamente religioso: “em quase toda a casa, há altarzinho, em lugar reservado com imagens, entre as quais a de Nossa Senhora do Rosário e a do Preto Velho” – segue a explicação – “(...) Nossa Senhora é a grande mãe. O Preto Velho tematiza os antepassados e a mãe – África” (CNBB, 1988, 53)”. (OLIVEIRA, 2011, p.65)
Através da Campanha da Fraternidade de 88, a Igreja Católica visava chamar a atenção para as demandas em que os negros estavam expostos socialmente, assim como, agir nas suas vulnerabilidades, como a desigualdade racial, racismo, preconceito e discriminação. Com o intuito de contribuir para o melhor entendimento do cristão leigo sobre a questão racial e a identidade do negro, através das ações concretas realizadas pela Pastoral Afro-brasileira, por meio da sua reflexão social.
A reflexão social da Pastoral Afro-brasileira consiste em realizar atividades que buscam conscientizar o negro sobre sua negritude, sua ancestralidade e sua riqueza cultural. A CNBB aponta em seus estudos sobre a Pastoral Afro-brasileira, a importância de contribuir para a superação dos obstáculos que impede a população negra de viver em situação digna. Assumindo o compromisso de revelar que a Igreja Católica nas diferentes regiões do Brasil, compreende seu papel diante da situação de desigualdade que vive o negro.
Porém, não há como dissociar totalmente a fé do trabalho social desenvolvido pela Pastoral Afro-brasileira, até mesmo por ser um grupo de origem religiosa e essa não é a intenção dos membros articuladores e tão pouco dos líderes religiosos envolvidos com a PAB. Pelo contrário, o propósito da Pastoral é confrontar a fé com as injustiças, fruto das desigualdades advindas do sistema capitalistas, conforme analisa o assessor nacional da PAB, Jurandyr (2016).
É importante esclarecer que o trabalho social da Pastoral Afro-brasileira tem o propósito de se tornar visíveis nos cenários em que os negros estão presentes, com o intuito de serem notados pela população e para que ocorra também, o fortalecimento da atuação e da conscientização sobre a questão racial. Sem esquecer de salientar, para que esse feito ocorra, a PAB precisa dispor de incentivo, compromisso e participação dos líderes religiosos, da comunidade e principalmente dos agentes pastorais.
O compromisso com os mais pobres, assim como a valorização das experiências apresentadas pelas comunidades, compõem a reflexão social da Pastoral Afro-brasileira, conquistando um espaço de fala no âmbito social, que permite evidenciar sinais que revelam a espiritualidade da PAB. Esses sinais que entrelaçam a espiritualidade com a luta social são evidenciados através de direcionamentos que a Igreja Católica aponta como uma postura cristã, que é o acolhimento e prática solidária aos desprezados e pequenos socialmente falando.
Pelas considerações mencionadas em relação a Pastoral Afro-brasileira e sua articulação em prol da igualdade racial, em todos os âmbitos sociais, como no seio da Igreja Católica, com a população local e com os movimentos sociais, constei que é de suma importância que existam mais estudos que debrucem seu olhar para a PAB. Em virtude da sua reflexão que remete as questões mais latentes da sociedade, como o racismo, que causa diretamente danos na vida dos negros e que alimenta ainda mais a exclusão que é estrutural dessa população.