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Resumen de ponencia
A angústia do pensamento decolonial no filme "Zama",

*Pedro Rhuan Piauilino Lima



Esta palestra individual propõe explorar a relação ente o filme argentino “Zama” de Lucrécia Martel e os estudos decoloniais desenvolvidos por pensadores como Walter Mignolo, Aníbal Quijano e Santiago Castro-Gomez.
Conforme nos ensina Edgar Morin, o Cinema é estruturado com uma visão subjetiva que o leva a derivar ao sabor dos alísios do imaginário. Partindo deste pressuposto, podemos observar que uma obra de ficção têm a capacidade de explorar aquilo que se encontra internalizado no espirito do espectador.
No caso em tela, trago como objeto de observação o filme argentino “Zama”, dirigido pela cineasta Lucrécia Martel. O filme conta a história de Dom Diego de Zama, um burocrata espanhol do século XVI, enviado pela Coroa Espanhola aos confins do território que viria a se tornar a Argentina para tratar de interesses do rei. Contudo, Dom Diego já está há muito tempo naquele local, desejando retornar ao seu país imediatamente, algo que não consegue pelas vias oficiais.
Dom Diego é, assim, um homem encerrado no sistema de que ele mesmo faz parte. Um colonizador sofrendo os terríveis efeitos da colônia — onde, curiosamente, os colonizados se mostram livres (literalmente), enquanto ele, não. Dentro disso, o protagonista se aloja entre os nativos para, de certa forma, se libertar daquilo que considera um aprisionamento.
Trazendo em si a dimensão fronteiriça da narrativa, o filme “Zama”, explora as contradições e miscigenações do continente latino-americano, com foco na identidade fragmentada de seu protagonista. Ao centralizar-se em um homem que não consegue sair do ambiente “árido” em que se encontra, o filme argentino nos leva a uma reflexão sobre marginalidade latino-americana e os pensamentos libertários que surgem à margem do sistema colonizador.
Nesse aspecto, a obra fílmica supracitada se relaciona frontalmente com a perspectiva decolonial.
Para pensadores como Walter Mignolo e Aníbal Quijano, os sujeitos coloniais que estão nas fronteiras - físicas e imaginárias - da modernidade não eram e não são seres passivos. Eles podem tanto se integrar ao desenho global das histórias locais que estão sendo forjadas como podem rejeitá-las, pois, é nessas fronteiras, marcadas pela diferença colonial, que atua a colonialidade do poder, bem como é dessas fronteiras que pode emergir o pensamento de fronteira como é a perspectiva decolonial.
Esse pensamento de fronteira não possui caracteristicas fundamentalistas ou essencialistas em relação àqueles que estão à margem ou na fronteira da modernidade. Justamente por estar na fronteira, esse pensamento está em diálogo com a modernidade, porém a partir das perspectivas subalternas. Em outras palavras, o pensamento de fronteira é a resposta epistêmica dos subalternos ao projeto eurocêntrico da modernidade.
Na perspectiva do projeto decolonial, as fronteiras não são somente este espaço onde as diferenças são reinventadas, são também os focos enunciativos de onde são formulados conhecimentos a partir das perspectivas, cosmovisões ou experiências dos sujeitos subalternos. O que está implícito nessa afirmação é uma conexão entre o lugar e o pensamento.
Como aponta Castro-Gomez, é necessário desenvolver uma teoria critica da sociedade na América Latina que tornem visíveis os novos mecanismos de produções trazidos pelos tempos de globalização. Os modelos teóricos atuais não seria suficientes para conceitualizar as novas configurações de poder.
É nesse sentido que o cinema de Lucrécia Martel emerge a perspectiva decolonial. Desenvolvendo um filme com atmosfera febril e uma constante sensação de “areia movediça”, Martel discute a dominação e dependência cultural das culturas situadas abaixo da linha do Equador em contraposição às epistemologias das meta-narrativas eurocêntricas.
Há em “Zama”, a angústia do pensamento decolonial que pulsa no desenrolar narrativo desenvolvendo a proposta de conhecer a própria história, tomar consciência da colonização e transformar tudo isso em uma realidade reconhecida em seus diversos aspectos de modo a discutí-la por meio do cinema.
Ao realizar uma produção que une atores dos mais variados países da América do Sul, Lucrécia Martel busca ultrapassar as fronteiras culturais, brincando com idiomas e características locais, apontando o surgimento de uma forma de pensar e agir própria daqueles que fazem parte deste continente, e uma forma de desenvolver-se na fronteira, mesmo com a influência contaminadora do colonizador.




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* Piauilino Lima
Universidade Federal do Piauí UFPI. Teresina, Brasil