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Resumen de ponencia
Novas dinâmicas entre ativismo e arte: projeções digitais em protestos no Brasil pós-2013.

*Augusto Neftali Corte De Oliveira
*Marina Bortoluz Polidoro



Ainda que toda proposição artística evoque dimensões políticas, notadamente as que ocupam o espaço público da rua, interessam a esta comunicação as propostas que se posicionam no âmbito da arte e do ativismo. A arte realizada no espaço urbano, portanto fora dos ambientes institucionais das galerias, faz uma declaração política. A ocupação crítica e poética do espaço público revela um desejo social: intensificar a presença do artista na realidade coletiva, com o estabelecimento de relação direta com a realidade, sem intermediários. Ao dispensar o lugar tradicional das instituições de arte e muitas vezes recusar-se a produzir um objeto que se ofereça como mercadoria, esses trabalhos correm o risco de, fora da proteção da moldura institucional, confundir-se com a vida. Correm o risco, como o risco do desenho: projetam, pretendem, surgem na medida em que confundem-se com a vida.
As intervenções artísticas no espaço urbano, do ponto de vista da arte, podem englobar desde trabalhos de escala monumental até frágeis interferências ou ações e proposições efêmeras que não deixam rastros. Nosso foco no entanto coloca-se no cenário das manifestações políticas de rua que ocorrem no Brasil desde as jornadas de 2013, mais precisamente sobre trabalhos que estão entre a arte e o ativismo e que envolvem projeções digitais no espaço público durante o desenrolar da manifestação. O grupo que destacou-se nessa estratégia de trabalho, e vem continuamente trabalhando dessa forma até hoje, é o Coletivo Projetação do Rio de Janeiro, mas outros também realizaram experiências, como o grupo coordenado por Suzete Venturelli (UnB) que realizou intervenções com projeção mapeada. Propomos uma reflexão crítica acerca do potencial poético, crítico e político desse tipo de trabalho em construir significado no contexto específico da manifestação.
O uso crítico das tecnologias digitais de informação e comunicação foi notável nesses eventos, como também em outros movimentos desde o início do século XXI. Desde a conexão com o ciberativismo, com manifestações organizadas pelas redes sociais e que tiveram seus desdobramentos divulgados também por esses meios, com destaque às mídias livres que tiveram papel significativo nesse processo. Em grande parte possibilitadas pela maior acessibilidade às tecnologias digitais da informação e comunicação, especialmente com os dispositivos móveis e equipamentos sem-fio. Dá-se destaque à convergência digital que facilita a produção e difusão de informações não-hierarquizadas como nos processos tradicionais - notadamente os smartphones, que permitem a filmagem e sua pronta divulgação nas redes (ver, a esse respeito, a “Revolta da Antena” em Santa Catarina).
Nota-se um impacto importante da convergência digital sobre o aspecto organizacional dos ciclos de protesto atuais. Se os protestos no passado recente pressupunham a atuação de organizações sociais estruturadas, como partidos políticos, sindicatos ou igrejas, atualmente a estrutura de contaminação da mobilização recorre às mídias sociais digitais (Tatagiba, 2014). Como resultado dessa estratégia de mobilização, os sentidos das manifestações políticas deixam de ser construídos previamente pelos atores institucionalizados em organizações sociais. Embora eles possam existir, a capacidade de dar os contornos discursivos da mobilização é esvaziada pela diversidade de significados trazidos, inclusive individualmente, pelos engajamento construído sobre redes não-hierarquizadas.
Nelson Brissac Peixoto (2004, p. 13) já apresentou as cidades como as possíveis paisagens contemporâneas, onde a saturação de imagens e a aproximação com o muro apagam os contornos e excluem a perspectiva, o olhar em profundidade: “o olhar hoje é um embate com uma superfície que não se deixa perpassar". É essa paisagem-muro que se apresenta como tela de projeção para os trabalhos aqui analisados. Porém, longe de ser uma tela em branco no espaço controlado (e idealizado) do cinema, ou o cubo branco da galeria de arte, essa tela é feita da sobreposição de camadas materiais, uma acumulação efêmera, competitiva e muitas vezes confusa de impressos, cartazes de entretenimento, mensagens políticas. A cidade já é uma colagem saturada e a projeção feita sobre a cidade incorpora todas essas camadas. Pode-se dizer que a cidade (e porque não a manifestação) ela mesma passa a ser material para arte, a obra muda o lugar e o evento que nele se desdobra e vice-versa.
Assim como nas demais esferas da vida, portanto, a questão da efemeridade é latente nas intervenções urbanas, que estão à mercê dos passantes, das intempéries, de outras intervenções. A cidade abriga atividades rotineiras, ritmadas, é o espaço público por excelência: “a arte então deve ser transitória, também acompanhar as passagens e derivas urbanas, moldar-se na dinâmica dos espaços que modificam sem parar a cidade viva, submeter-se a uma transformação perpétua” (Ardenne, 2004, p. 103). Se isso vale para tantas formas de intervenções urbanas, no caso das projeções digitais há uma diferença a se considerar já que a intervenção não vai se desgastar no embate com o tempo e o cotidiano. A efemeridade é de outra ordem, da virtualidade: ao projetar-se sobre os prédios, muros, monumentos, ela incorpora a textura urbana, mas a imagem projetada deixa de existir como tal assim que o projetor é desligado.
Mais complexo no caso das projeções mapeadas, mas também facilitada pela linguagem sintética em geral utilizada nas projeções analisadas, elas podem ser produzidas/alteradas durante a performance, ao vivo e em tempo real, modificando-se como a própria manifestação. O uso de imagem e texto nas projeções analisadas informam para o observador o conteúdo da manifestação. São capazes de significar a reunião de pessoas da mesma forma como instrumentos tradicionais da mobilização política: cartazes, bandeiras, faixas. A interação das pessoas mobilizadas com a projeção, por outro lado, revela a dupla conotação da experiência artística e política: ao articular seu gestual com a imagem, o público/participante da experiência age como o esperado em outras experiências artísticas. Para além, a incorporação da projeção na narrativa e na construção de significado da manifestação aparece como validação, por parte do público/participante, do conteúdo político da experiência estética. A validade de criação de significado político da projeção, em relação à manifestação, depende, portanto, do engajamento ao experimento por parte das pessoas que compõem a manifestação.
O trabalho (a projeção) em seu ambiente de contaminação (a cidade, a manifestação), possui a persistência gerada pelo registro. Ele próprio digital, é capaz de transpor a experiência para o ambiente virtual em pronta divulgação e operar como significador dos eventos no qual incidem para observadores de fora. A utilização desses registros, fotos e filmes, é nova apropriação de contexto político. Os agentes dessa apropriação podem ser os próprios coletivos de artistas, outros integrantes da manifestação, pessoas que acompanham os eventos desde os relatos no ambiente virtual, etc. De onde, como as próprias manifestações, o esforço de construção de narrativa é limitado e presta-se à reinterpretação dos observadores externos.
A aproximação entre arte e ativismo não é uma novidade do século XXI, porém nele emergem implicações a serem discutidas tanto pelas configurações assumidas pelas manifestações, quanto pelas possibilidades de criação e difusão das tecnologias digitais.




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* Oliveira
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Porto Alegre, Brasil

* Bortoluz Polidoro
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Porto Alegre, Brasil