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Resumen de ponencia
OS USOS DA LITERATURA DE YAA GYASI PARA PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO EM FUNÇÃO DO ENSINO DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS.

*Emílio Ranieri Migliorini



Esta comunicação tem por objetivo apresentar o trabalho que tem sido desenvolvido a partir da ação de extensão “Diversidade Étnica e formação para a democracia”, vinculado ao programa de extensão “Histórias Africanas e Indígenas: olhares e práticas na educação” (2017), do Laboratório de Estudos Pós-Coloniais e Decoloniais - AYA, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Este trabalho está em conformidade com a Lei Federal número 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação no Brasil. Esta legislação é resultado da luta e resistência dos movimentos negros e sociais, que toma corpo no início do século XX, visando a estruturação de uma sociedade menos desigual, e destina-se a contribuir para o desenvolvimento de ações que visam auxiliar na implementação das Diretrizes Nacionais de Educação para as Relações Étnico-Raciais e História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na educação básica (2004). A elaboração do material didático visa contribuir para a implementação da lei, na medida em que será disponibilizado para professores e professoras das redes de ensino através da Biblioteca Digital do Laboratório AYA (www.ayalaboratorio.com). A falta de inserção da temática nos livros didáticos providos pelas instituições de ensino, ou mesmo a incorporação, sem o devido cuidado, de conteúdos específicos e referentes às temáticas sobre as Áfricas e dos sujeitos provenientes da diáspora, aliada a uma formação dos professores pautada no eurocentrismo em decorrência de antigos currículos pode vir a influenciar na manutenção de certos estereótipos e essencialismos do continente africano que muitas vezes são difundidos e mantidos, até mesmo pela mídia. Partimos do pressuposto de que durante muito tempo houve uma historiografia construída a partir do olhar do colonizador na qual se desconsidera as formas de ser, ver e viver no mundo, invisibilizando saberes, conhecimentos e práticas culturais de outros povos não europeus. Utilizando-se da violência, como o tráfico atlântico de pessoas escravizadas e revestida de um ideal civilizador, muitas nações europeias invadiram e imporão as sociedades recém “descobertas” uma outra lógica de ser, ver e viver com o propósito de transformar a forma como essas populações se estruturam, visando a primeiro momento o lucro advindo do comércio escravista e, posteriormente, a conquista desses territórios com um caráter expansionista, transpondo então muitas de suas instituições à moda ocidental - tal como escola, igreja, sistema de justiça baseado no direito romano - para estas regiões. Em consequência disto entendemos a necessidade do deslocamento destes olhares acerca das populações que foram subalternizadas pelo processo colonizador construindo a possibilidade de afinar nossos olhares para as histórias em que os próprios sujeitos, que passaram pela experiência violenta da colonização e do tráfico atlântico, têm a dizer a respeito de suas próprias histórias e experiências de vida. Esse é o esforço vital para deslocar o lugar a partir do qual alguns paradigmas são pensados, em especial aqueles vinculados a visões hierarquizadas sobre a produção do conhecimento científico institucionalizado academicamente no Ocidente. Nesse sentido, pretendemos ampliar a reflexão acerca do conhecimento e compreensão acadêmicas nos quais podem e devem estar fundamentadas pelo “aprender com” aqueles que vivem e refletem a partir de legados coloniais, pós-coloniais e as experiências na diáspora. Sendo as nossas reflexões pautadas pelos estudos pós-coloniais e decoloniais consideramos que toda narrativa deve ser compreendida a partir do lócus de enunciação, que está marcado pela trajetória e experiências dos sujeitos históricos. Desta forma, entendemos que a literatura nos permite acessar evidências nas quais o olhar da escritora aflora em suas personagens acerca das histórias de sua ancestralidade e, principalmente, sua perspectiva sobre as relações influenciadas pelo tráfico atlântico às populações da costa oeste africana, local conhecido também como Golfo da Guiné, em particular dos grupos fanti e ashanti. Além disso, a autora também discorre como os sujeitos africanos e afro-descendentes são tratados ao longo de todo o processo histórico e diaspórico em razão do racismo e como ele se instala de diferentes modos. Partimos do pressuposto de que essas evidências, sendo devidamente problematizadas e analisadas criticamente, estão permeadas de indícios históricos e de conhecimentos pertinentes à produção de conhecimento sobre, com e a partir das populações descendentes de homens e mulheres forçados à diáspora pelo tráfico atlântico de pessoas no início da modernidade. A partir da leitura da obra procuramos extrair certas potencialidades em cada capítulo sobre os aspectos que a autora evidencia ao trabalhar com suas personagens trazendo aquele recorte específico de sua vida. Na construção do material didático almejamos parafraseá-la. Procurando perceber a narrativa literária de Yaa Gyasi e, a partir dela, em pesquisas historiográficas sobre a diáspora africana em terras no sul do Brasil, reconstruímos as identidade das personagens e suas trajetórias, visando então construir um material didático que evidencie as lutas, resiliências, experiências e sobrevivências de homens e mulheres de origem africana, inseridos no contexto violento da escravidão, para construírem suas vidas. A obra de Gyasi se trata de um romance, porém ela se utiliza de pequenas biografias para dividir os capítulos, ficando cada um com uma personagem, ao mesmo tempo que entrecruza as histórias de vida utilizando a ancestralidade. As biografias históricas não tratam apenas de um certo período da vida da personagem biografada, procuram englobar a vida inteira, evidentemente com ênfases diversas, contextualizando toda a existência dentro de uma espacialidade e temporalidade determinada. A literatura está isenta de uma metodologia e teoria científica ao narrar um determinado período ou acontecimento, mesmo quando se trata da vida de alguém, enquanto forma de expressão artística. De maneira contrária, a História está fadada a estes processos em sua produção, sendo possível trabalhar com ambas as narrativas, histórica e literária, destacando prováveis intencionalidades para a produção de materiais didáticos. Em vista disso, esta produção de material didático é centrada na perspectiva dos novos estudos africanos e objetivam especificamente a utilização no ensino fundamental e médio nas diversas instituições de ensino no Brasil. A violência do tráfico atlântico e as implicações para a sociedade estadunidense na qual a autora está inserida, bem como para a sociedade brasileira, vão ter o racismo como um de seus principais mecanismo estruturadores, servindo como uma espécie de “coluna vertebral” para a sua literatura. A própria autora destaca em uma entrevista que “Há diversas maneiras de ser negro e todos elas estão certas”.




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* Migliorini
Universidade do Estado de Santa Catarina. Florianopolis, Brasil