Essa comunicação pretende discutir objetivo de compreender os significados atribuídos às dores corpóreas resultantes da intensidade dos treinos da modalidade esportiva CrossFit e como tais sentidos são expostos nas narrativas dos praticantes em suas interações cotidianas com o intuito de fortalecer ou ressaltar o sentimento de pertencimento e vinculação à comunidade “crossfiter” globalizada. A pesquisa de campo pretende abarcar o universo de relações off-line e online dos praticantes, ou seja, tem a intenção de observar e participar de grupos de praticantes nos “boxes” (locais em que ocorrem os treinos) e nas redes sociais virtuais.
Iniciado em 1996, nos EUA, pelo ex-competidor de ginástica olímpica Greg Glassman, o CrossFit, aclamado popularmente e na mídia especializada como o maior fenômeno contemporâneo do universo da atividade física, pode ser definido como um modo de treinamento não convencional (ao contrário de atividades físicas e métodos de treinamento “fitness” convencionais como a musculação com aparelhos e máquinas, por exemplo) composto por movimentos funcionais e atléticos, executados em alta intensidade e de forma intervalada (HIIT ou High-intensity Interval Training) em treinos elaborados extremamente variáveis e distribuídos em ciclos e periodizações intercalando alto desgaste e recuperação muscular. Movimentos funcionais são exercícios multiarticulares, executados de maneira não isolada usando o peso do próprio corpo ou equipamentos genéricos e multifuncionais.
Além do programa de treinamentos, o CrossFit propõe uma dieta alimentar baseada no alto consumo de proteínas de origem animal e vegetal, frutas e legumes frescos e com a exclusão de produtos industrializados e processados, como farinha de trigo, açúcar, etc. Tal dieta é conhecida como “Paleo”, por procurar aproximar-se ao máximo da rotina alimentar do homem paleolítico. A dieta Paleo surgiu da pressuposição de que a alimentação rica em carboidratos advindos de alimentos processados aliada ao sedentarismo provocado pelo estilo de vida contemporâneo forma a base do problema de saúde pública que se tornou a obesidade.
As experiências alvo de discussão nessa pesquisa remetem aos estudos sobre juventudes no mundo contemporâneo, pois, se por um lado tais experiências são distintas, individuais e localizadas temporal-espacialmente, por outro se tornam referências de uma temporalidade compartilhada mundialmente. Parte-se aqui das indicações de Feixa, para quem “nosso interesse centra na construção social da identidade, nos jovens como atores sociais criativos, no consumo cultural e nos movimentos sociais, em definitiva, no caráter distintivo das culturas juvenis locais em um mundo globalizado” (Feixa, 2014). Trata-se da experiência de uma determinada geração com disciplina rigorosa em torno do tempo de treino e repouso, bem como da ingestão de alimentos. Geração que usa intensamente as redes sociais virtuais, seja para divulgação dos resultados dos treinos em um aplicativo para celular utilizado por todos os praticantes de CrossFit do mundo ou para exposição das marcas físicas através de fotos e vídeos em redes de compartilhamento com amigos e conhecidos. E uma geração que tanto participa “online” de competições mundiais como também nos eventos de integração e competição locais. Propõe-se então, tal como afirma Marcon, que “o interessante é entender como estes processos sociais de significação se constituem, são manifestos, são praticados e como o fenômeno é ao mesmo tempo globalizado e localizado, homogêneo e plural” (Marcon 2016).
A pesquisa vem sendo desenvolvida com foco em práticas cotidianas e narrativas tendo o corpo como matriz da identidade, elemento de análise central para a compreensão das dinâmicas de identificação, pertença e exclusão social de determinados grupos sociais (LE BRETON, 2007). A sensibilidade individual dos sujeitos, a economia emocional corporificada, é a categoria analítica fundamental, por possibilitar compreender as práticas e noções de corpo próprias aos indivíduos e grupos sociais em um determinado recorte tempo-espaço e as relações estabelecidas nas configurações e dinâmicas da sociedade. Tendo o corpo como terreno dos sentidos articulados e intercambiados no contexto socialmente vivido, a relação fundante do mundo intersubjetivo, do eu em relação aos outros, é revelada nos termos das experiências narradas da vivência cotidiana.
Na medida então em que é dimensão do nosso próprio ser, é no e pelo corpo que se efetivam e se inscrevem as experiências e os projetos, que se pode pensar em modalidade particular de ser no mundo. A dor e a experiência de vida dos sujeitos encontram-se, assim, intimamente imbricadas. Nessa perspectiva, a dor não pode ser vista como uma resposta fisiológica a um estímulo externo, ou pelo menos não apenas isso. A dor depende fundamentalmente da relação simbólica que o sujeito estabelece entre o fenômeno fisiológico e o seu significado afetivo (Le Breton, 2013). As proposições de Le Breton direcionam o olhar para as significações e apreensões simbólicas da dor efetivadas pelos sujeitos. Para Le Breton, para entender a dor é necessário que se compreenda as complexas relações entre o indivíduo, sua história pessoal e o contexto social em que se vincula através do seu corpo.
Essas apropriações pessoais e coletivas pelas experiências e práticas cotidianas dos sujeitos revelam diversas atribuições de significado ao espaço e, assim, o torna elemento fundamental nos processos de identidade pessoal e grupal.
A noção de pertença, então, é o fundamento da percepção dos sujeitos da sua autoimagem e do seu lugar no mundo. A pertença é a raiz fundamental a partir da qual o sujeito se pensa como individualidade em relação, percebe a si e os outros como entidades em interdependência e conflito no mundo de sentidos compartilhados (KOURY, 2001). As tensões e conflitos, bem como as possibilidades de rearranjo e reordenamento, são elementos próprios das figurações sociais nas mais diversas escalas em que sujeitos e grupos se inter-relacionam.
Tais apreensões pessoais são abordadas via análise das composições narrativas. O sujeito que narra é agente, se faz no presente da narração, se localiza socialmente. A identidade agenciada, acionada na narrativa, é fruto do que Paul Ricoeur (1994) chama do ato configurante do relato, a potencialidade da narrativa de inscrever o indivíduo no mundo. A discussão gira em torno da tessitura das experiências, entendida como atribuição de sentidos aos acontecimentos passados em que o personagem, o “si-mesmo” do narrador, está enredado (RICOEUR, 1991, 1994). Como ação marcadora de um lugar do sujeito no mundo, de configuração de um espaço próprio, a narração é pensada via corpo do agente em relação com o mundo. O corpo é elemento fundamental na compreensão, na expressão e na própria consciência da “existência insubstituível” (RICOEUR, 1994) dos sujeitos. O narrador traz suas experiências, se pensa na interação como um si-mesmo e organiza seu discurso como uma identificação em processo.
A pesquisa tem se voltado ao material fotográfico, videográfico e textual produzido por praticantes de CrossFit disponibilizado na rede mundial de computadores. Simultaneamente à busca pelos conteúdos produzidos diariamente, tem havido a observação participante sistemática em um dos locais onde se pratica CrossFit em Aracaju, Sergipe, nordeste do Brasil, com o intuito de possibilitar o acompanhamento das rotinas cotidianas e das impressões dos sujeitos sobre a prática esportiva.
A documentação visual e sonora das diversas performances e das técnicas do corpo são meios de extrema potencialidade para a compreensão dos sentidos atribuídos aos processos vivenciados devido à intensidade dos treinos a que os praticantes da modalidade são submetidos. Além disso, o uso de imagens e sons na pesquisa etnográfica tem como elemento de marcada importância estimular a criação de outros espaços de diálogo e interação em campo. Os sujeitos estruturam suas narrativas imagéticas balizadas pelas referências afetivas e simbólicas das suas experiências. As distinções e semelhanças, pertenças, interdições e exclusões expostas em fotos e vídeos são captadas com a intenção de revelar aspectos das formas de sociabilidade e de como os sujeitos se percebem intersubjetivamente. Assim, torna-se possível discutir as ideias de engajamentos e articulações possíveis em um espaço urbano, bem como no "espaço online", a partir de seus ritmos e das práticas cotidianas a eles relacionadas.
Referências
CROCKETT, M. Chasing Rx: A Spatial Ethnography of the CrossFit Gym. Master's Theses. San Jose State University, 2015.
FEIXA, Carles. De la generación @ a la # generación: la juventud en la era digital. Barcelona, NED, 2014.
KALIN, F. E. "Primeros pasos en el estudio del Crossfit. Representaciones, identidades y prácticas relacionadas al mundo del entrenamiento corporal". XI Jornadas de Sociología. Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, 2015.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Enraizamento, pertença e ação cultural. In: Cronos. Natal, 2001, 131-137.
KUHN, S. The Culture of CrossFit: A Lifestyle Prescription for Optimal Health and Fitness. Senior Theses - Anthropology. Illinois State University, 2013.
LE BRETON, David. El sabor del mundo – una antropología de los sentidos. Buenos Aires: Nueva Visión, 2007.
MARCON, F. Juventude e geração na era digital. Política e Sociedade, Vol. 15 - Nº 32. Florianópolis, Jan./Abr. de 2016.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
RABELO, Miriam Cristina & ALVES, Paulo César. Experiência de doença e narrativa. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1999.
RICOEUR, Paul. O si mesmo como um outro. Campinas: Papirus, 1991.
____________. Tempo e narrativa. 3 vols. Campinas: Papirus, 1994.
STEIL, Carlos Alberto. "Religião e natureza no horizonte de uma antropologia a paisagem". XIV Jornadas sobre Alternativas religiosas da América Latina. 2007