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Resumen de ponencia
Tensões epistemológicas e saídas dialéticas: a categoria “indivíduo” na sociologia latino-americana

*Fernando Neves



A pesquisa em andamento busca identificar e compreender os empregos e concepções da categoria “indivíduo” na sociologia latino-americana, no período que envolve o fim das ditaduras militares implementadas em vários países até as formulações mais recentes, com ênfase nas variações teóricas e metodológicas e nos vínculos diretos e indiretos entre a produção desses conhecimentos e os momentos em que foram efetuados. Destacam-se, assim, as abordagens acerca da relação indivíduo-sociedade, ou seja, as feições em que se opera teoricamente a conexão entre “parte” e “todo”, o que coloca em perspectiva os processos de desenvolvimento da disciplina até aqui. Tais processos defrontam-se, em geral, com a persistência de múltiplos problemas sociais e econômicos que impactam de modos distintos as populações do continente. Trata-se, portanto, de entrever os mecanismos sociais que os engendram e os mantêm ao longo do tempo e de ponderar seus efeitos na vida cotidiana, com vistas a descortinar as repercussões desse contexto nos estudos sociológicos. Os sociólogos, por sua vez, têm buscado sistematizar essas constatações mais gerais por meio da consideração de objetos de pesquisa que unam a reflexão teórica à proposição de novas rotas para o corpo social, para além, portanto, da formalização do conhecimento.
Em conjunturas restritivas ou em momentos de elaboração de novos pactos sociais, o trato com as pesquisas correspondem à intensificação ou abrandamento dos conflitos sociais mais prementes, repercutindo nos resultados dos diversos domínios de reflexão sociológica. No que concerne às modalidades e variações da categoria “indivíduo”, porém, ainda não foram bem esclarecidas essas variáveis, ainda que tenham acompanhado esses mesmos marcos. Como se sabe, a história das teorias sociológicas está permeada por outras elementos que correspondem a esta problematização, os quais sempre aportaram na América Latina por vias diversas e com fins variados, configurando recepções que exigem uma avaliação mais abrangente e cautelosa, com a qual a pesquisa em andamento pretende contribuir. Nesse sentido, categorias como “indivíduo” e “sociedade”, “comunidade” e “sociedade”, “estrutura” e “ação”, “macro” e “micro-sociologia” permeiam um conjunto de temas e problemas de pesquisa que ganham formas e conteúdos específicos, distintos e devedores ao mesmo tempo das contribuições europeias e norte-americanas. Mas se a presença da categoria “indivíduo” caracterizou estas contribuições desde as suas origens, por que aqui não se constituiu objeto de reflexão mais geral e abrangente? Ocorre que, em face das bases sólidas da hierarquia social latino-americana, as noções de “indivíduo” ou de “sujeito” pouco corresponderiam àquelas, o que, por assim dizer, acabaria por frustrar todo o projeto “pós-moderno” de exaltação das unidades sociais frente às práticas autoritárias que as anulam e subjugam. Ao contrário, o contraponto mais ordinário por aqui corresponde à não efetivação das garantias formais, ou à perpetuação da questão social, que impede a realização das seguidas promessas de emancipação humana e dificulta a adequação das novidades teóricas às realidades que se busca refletir. Assim, na esteira das críticas a certas interpretações e discursos da “modernidade”, tenho argumentado que há inúmeras dificuldades em aderir à “guinada biográfica” na disciplina sem a devida ponderação a respeito da estratificação social. Esta, contudo, tem sido justamente uma das maiores preocupações da sociologia aqui praticada, ainda que em vias de reformulações diversas nas últimas décadas: o senso de realidade, o sentido forte dos acontecimentos peculiares, tem sobrepujado as vagas teóricas a cada momento, como que a enfrentar a toda hora a força de teorias estranhas, não meramente para refutá-las a todo custo, mas para expor seus limites e inadequações.
Dessa forma, a incorporação de teorias produzidas alhures não se dá de forma unívoca, compõe-se largamente de mediações próprias aos sistemas políticos, em consonância com a inserção progressiva dos países na divisão internacional do trabalho. Tendo em vista, por outro lado, o trânsito internacional de ideias e a contínua expansão capitalista mundial, há também muitas linhas de permanência em relação ao que se passou nos demais continentes, embora se sobressaiam tentativas frutíferas de matizar essa gênese face a seu caráter social e histórico. Essa aparente aporia, conduziu-nos às seguintes hipóteses que têm balizado a pesquisa: I) o problema da recepção de conceitos e categorias produzidos em outros contextos socioculturais permanece como uma fonte de controvérsias para a sociologia latino-americana, ainda mais quando se trata da categoria “indivíduo” em países que relutam em garantir os direitos básicos de cidadania; II) por outro lado, pode haver uma relação entre o aprofundamento das experiências democráticas na América Latina e a intensificação mais recente das pesquisas que envolvem a categoria “indivíduo” ou “sujeito” pelos sociólogos; III) porém, muito mais do que a consideração do “indivíduo” por diferentes modos, é a forma do tratamento metodológico que indica uma postura “acrítica” ou “colonizada” do pesquisador, ou seja, os cuidados com a contextualização e a historicização são mais decisivos para o conhecimento sociológico do que a construção do objeto de pesquisa stricto senso; IV) e isso porque, em se tratando de sociedades extremamente verticalizadas, a adesão ao paradigma “individualista” na disciplina sem a devida ponderação a respeito da estratificação social implica inconsistências diversas no momento da explicação ou compreensão dos dados recolhidos; V) logo, a julgar pela tradição sociológica latino-americana, a tematização do “indivíduo” aumenta com o decorrer do tempo, e seus melhores resultados confirmam a adoção da interdependência entre “parte” e “todo” como parâmetro de análise, conformando uma forma de micro-sociologia mais dialética, que tende a refutar qualquer aprisionamento aos “fenômenos” do presente alheados de seu desenvolvimento interno e externo.
De modo geral, a sociologia latino-americana tem consistido principalmente num movimento de regresso ao pensamento crítico e uma emergente tendência em relacionar particularidades com a totalidade social, embora não se trate de uma orientação exclusiva, havendo também percepções do mundo social como realidades fragmentadas e desconexas, além do ecletismo teórico em forte ascensão. Ademais, há a retomada da crítica ao “atraso” latino-americano e à “modernidade” a ele subjacente, no horizonte da mundialização do capital, ou seja, da globalização como nova forma de organização da economia, da cultura e dos conhecimentos produzidos em diversos centros e compartilhados por novos meios tecnológicos, o que tem permitido maior difusão e integração das pesquisas, que eram bem mais dispersas e isoladas anteriormente. As reformas do Estado na América Latina, ainda em andamento, são uma modalidade bem visível dessas transformações, com implicações não negligenciáveis para a forma e o conteúdo das produções sociológicas. A partir dessas novidades, e do referido processo de desenvolvimento da disciplina, a pesquisa identificou até aqui três padrões de tratamento teórico da categoria “indivíduo”, os quais não pretendem erigir uma classificação arbitrária, mas apenas indicar uma síntese provisória do trabalho: a) o “indivíduo”, ou o “sujeito”, se destaca pela valorização de suas particularidades e das ações sociais que emergem a partir de um contexto cultural comum, numa relação de negatividade e conflito com seu exterior; também a exaltação de modelos alternativos de interpretação e de cosmovisões consoantes às especificidades históricas e culturais em que estão inseridos, dado que sempre foram obscurecidos e violentados pelos acontecimentos da “modernidade europeia”, é outra forma de entender o mesmo processo (os diversos estudos culturalistas, e a vertente latino-americana dos estudos pós-coloniais); b) os “indivíduos” são definidos e considerados a partir de sua posição no sistema de produção, ou seja, de seu pertencimento a determinada classe social, como meio de estabelecer objetivamente suas variações subjetivas, sempre a partir das relações recíprocas que desenvolvem entre si, sem isolá-los no momento da análise e interpretação (a tradição marxista); c) as singularidades subjetivas dos “indivíduos” ou dos “atores sociais” são defendidas com veemência, posto que estariam reféns de uma sociologia pautada em modelos teóricos incorporados mecanicamente e que se baseiam em planos ou projetos de sociedade pré-definidos, oriundos ora do marxismo vulgar, ora do estrutural-funcionalismo, a partir de sistemas de ideias institucionalizados nas relações econômicas e políticas de poder, destacando-se a questão da “multiplicidade dos atores sociais” e suas motivações pessoais para a ação, bem como suas visões de mundo particulares, seus afetos e idiossincrasias (de modo geral, autores que partem de princípios e conceitos da teoria weberiana).




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* Neves
Universidade de São Paulo - Departamento de Sociologia USP - DS. São Paulo, Brasil