É amplamente conhecida e apontada na literatura sobre a constituição dos trabalhadores modernos, na cidade ou no campo, a presença do anarquismo como visão de mundo e prática social dos primeiros movimentos sociais organizados contra o capitalismo (Anderson, 2015; Colombo et al, 2004; Falcon, 1984). Infelizmente, parte da literatura ainda reifica uma posição promovida pela tradição intelectual dominante na esquerda que localiza o anarquismo como “pré-história” do movimento dos trabalhadores e ante-sala do marxismo (junto com o chamado “socialismo utópico”) (Hobsbawn, 1981).
Segundo trabalhos mais recentes (Correa, 2015; Ibanez, 2014; Scott, 2012, Schmidt & Walt, 2009), os principais estudos de referência sobre o anarquismo podem ser compreendidos basicamente a partir de duas leituras: de um lado, há os trabalhos de tipo “genealógico”, que buscam associar o desenvolvimento de movimentos anarquistas com sua filiação a correntes ancoradas em grandes militantes ou teóricos (na esmagadora maioria das vezes, teóricos-militantes); de outro, há uma vertente que entende o classismo internacionalista como a principal fonte do anarquismo, e vincula seu nascimento como movimento político e social aos desdobramentos da existência e atuação da Associação Internacional de Trabalhadores (AIT), classificando-o em duas grandes tendências – o anarquismo de massas e o anarquismo insurrecional.
Em Cuba, como em boa parte do mundo, o anarquismo deita raízes entre o final do século XIX e início do século XX. Sua história na ilha remonta à participação de militantes anônimos e proeminentes nas lutas pela abolição da escravidão em 1886 e na guerra de independência em 1895. Da formação de clubes culturais, grêmios, associações de artesãos e sindicatos à confluência de muitos libertários na organização do M-26 de Julho, que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista no final dos anos 1950, os anarquistas tiveram relevante papel na constituição do campo político popular do país (Fernadez, 2000). Apesar do breve período de indefinição quanto ao futuro institucional e ideológico do novo governo revolucionário, que permitiu curiosas e inusitadas aproximações entre a fração mais ativa dos guerrilheiros no poder e os outros campos do espectro ideológico que se engajaram e apoiaram a insurreição (como o inusitado o convite de uma figura como Agustin Souchy, anarquista judeu internacionalmente conhecido, por parte do novo governo, para realizar um diagnóstico em 1961 sobre as possibilidades de estimular a formação de cooperativas de trabalho e produção no campo cubano, a exemplo da experiência dos kibutz), a participação e existência política dos anarquistas cubanos se encerrou com a afirmação do regime socialista de tipo estatal-autoritário, alinhado à URSS, imposto por Fidel Castro e seus colaboradores mais próximos, culminando obviamente na eliminação física ou exílio dos militantes libertários, no espectro dos chamados “dissidentes políticos e contrarrevolucionários”.
A presente investigação está ancorada em levantamento e análise documental de fontes primárias sobreviventes e localizadas fora do país, relativas aos grupos anarquistas organizados em Cuba entre as décadas de 1940 e 1950, em especial os jornais Solidaridad Gastrónica (pertencente ao extinto Sindicato Gastronómico) e El Libertario (da extinta Asociación Libertaria de Cuba). Com base nesse material, e em diálogo com atuais releituras sobre a gestação e consolidação do processo insurrecional de 1959, pretende-se apresentar uma modesta reflexão sobre a participação dos anarquistas no fenômeno histórico conhecido como Revolução Cubana, assinalando o escopo e o espaço social de inserção destes militantes, bem como as posições por eles assumidas frente a formação do regime político de intenção socialista. Desse modo, espera-se contribuir com o esforço de recuperação da memória histórica de outros lutadores sociais invisibilizados e que igualmente compuseram a atmosfera revolucionária da época, permitindo visualizar a complexidade dos debates político-ideológicos da esquerda no contexto da revolução cubana reconectando suas linhagens não marxistas.