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Resumen de ponencia
Glocalização da Religião: o caso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)

*Marina Helena Rodrigues Maia



Este estudo tem como intuito observar a globalização desde a perspectiva religiosa. Para isso, é preciso entender aqui a globalização não como um movimento homogeneizador, mas interconectivo e transnacional, uma vez que os Estado-nação já não comportam mais a expansão econômica e as discussões políticas atuais (TURNER e KHONDKER, 2010). Dessa forma, o entendimento neste estudo é o de que a pluralidade faz parte da própria globalização, pois ela implica a tudo e a todos, assim como é implicada por tudo e por todos ao mesmo tempo. Ela é um produto do global com o local, e não uma luta destes.
A ideia é observar a religião dentro desse processo de globalização: como ela é afetada pelos lugares em que se insere e como afeta a esses lugares? Uma vez que não é viável observar como se dá esse processo em todas as religiões, delimitaremos o objeto do presente estudo à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), já que esta é uma entidade em grande expansão, estando presente nos cinco continentes desde os anos 1980 (RODRIGUES e SILVA, 2014; SOUSA e RODRIGUES, 2014). A ideia é mostrar como, assim como qualquer outro produto que segue uma lógica mercadológica a IURD compete pela hegemonia da liderança global dentro de um aspecto do aumento da adesão do número de fiéis (como uma marca contabiliza o aumento de consumidores), pois este aumento representa também uma movimentação em sua própria economia. O dinheiro que entra para essas entidades religiosas não pode ser controlado pelo Estado, o que rompe com modelos simples de organização. Dessa forma, surgem como objetivos deste estudo alcançar a compreensão de algumas questões, tais como: como é possível a busca por ser um líder internacional entendendo que o local também atuará sobre essa entidade e a mudará? É possível manter a estrutura original da Igreja? De mecanismos a IURD se utiliza para isso?
Existe ainda outro aspecto que fomenta a globalização e que afeta diretamente a IURD em sua expansão e seus processos adaptativos em cada local de chegada: os processos migratórios. A imigração tem diversas facetas: ela pode acontecer como uma fuga, como refúgio de uma guerra, pode até mesmo ser temporária com o objetivo econômico, ou ainda permanente. A grande questão da imigração é que ela deixou de ser um movimento livre e natural e passou a ser controlada a partir do surgimento dos Estado-nação, ou seja, com o surgimento das fronteiras. A partir dessa mudança, surgem então dois tipos de imigrantes: aqueles a quem é permitido e desejável que se movam, ou seja, os turistas; e aqueles que são altamente controlados, geralmente os refugiados e trabalhadores estrangeiros, os vagabundos (BAUMANN, 1999). O processo de migração é um processo de interação cultural, que muitas vezes faz as pessoas se sentirem perdidas aonde chegam. A religião atua aqui como um estabilizador, principalmente para o segundo grupo, é um organismo que acolhe, pois não está à mercê da nação, a transcende.
O estudo trás ainda como objetivo a reflexão acerca do mercado da fé, na medida em que se pergunta ao que estão aderindo os indivíduos quando decidem consumir determinada religião. Quando buscamos comprar algo, estamos na verdade comprando o que formará parte da nossa identidade, que determinará a nossa inclusão social: roupas e calçados com muita frequência, mas normas de conduta e estilos de vida não se vestem e se despem com tanta facilidade. O que significa dizer que um indivíduo consome determinada religião? Estariam as religiões à venda no mercado? O que venderiam elas? Algumas organizações religiosas vendem exatamente isso: um estilo de vida que transpõe para os outros as normas sociais em que o indivíduo se baseia.
Acontece que como esse produto não faz parte do reino material, pois não é essencialmente mercadoria física, dá a sensação de que não se está realizando nenhuma troca efetiva com o dinheiro que se entrega. Por isso, apesar de ser muito procurado, ele é um mercado pouco (re)conhecido. É importante reparar que essa é uma adaptação das organizações religiosas às leis do mercado, e dentro deste, elas souberam desenvolver o seu próprio produto. Uma segunda pergunta que deve ser realizada é o que as pessoas realmente querem ao comprar esse produto. No caso da IURD, qual estilo de vida que está sendo posto a venda? Como tantos outros produtos, aquilo que se vende no mercado da fé muitas vezes perdeu seu objetivo principal: nem todos que compram roupas estão buscando se aquecer ou se cobrir.
Para busca do entendimento destas questões colocadas foi realizado um estudo explanatório através de uma ampla pesquisa bibliográfica centrada principalmente em artigos internacionais que dissessem como a IURD foi capaz de se introduzir em seus países, e de uma pesquisa bibliográfica em artigos brasileiros que demonstravam como esta atuava em seu país de origem. Dessa forma foi possível comparar a atuação da entidade e entender de que forma esta se globalizou, que aspectos manteve e que aspectos modificou. Para além de artigos nacionais e internacionais a respeito da IURD, tais, também se utilizou para a realização deste estudo de uma ampla gama de livros recentes a respeito da globalização. Foi a partir então de uma integração de resultados que se chegou a diversas conclusões a respeito da globalização da IURD, algumas das quais apresento aqui.
O estudo nos permite concluir que ao aderir a uma religião, se adere também aos valores e crenças que aquela religião carrega, o que seria um aspecto secundário de seu produto principal. No caso especifico do mercado da fé, o principal produto é a salvação espiritual, para a IURD, a teologia da prosperidade (RODRIGUES e SILVA, 2014). A IURD promete curar doentes, tanto física como psicologicamente, tornar ricos aqueles que se encontram na pobreza, felizes aqueles que se encontram no sofrimento, exorcizar aqueles que carregam males espirituais, entre outras coisas. Mas qual é o preço de tudo isso? Afinal, tudo que está no mercado, tem um preço. Dez por cento do que o individuo ganha deverá ir para a IURD: é o dízimo que te fará um fiel de verdade (SILVA, MEDEIROS e RODRIGUES, 2013).
É interessante pensar que para imigrantes, ser visto como uma pessoa honesta é algo extremamente importante, não apenas para se inserir no mercado de trabalho e conhecer pessoas, como também para se desvincular de uma identidade nacional que seja conhecida como corrupta. Dessa forma, a religião se mostra não apenas como um conjunto cultural de crenças e práticas, mas também como uma formadora de relações sociais, relações essas que geram uma confiança entre atores que acaba se estendendo para além da comunidade religiosa, se tornando uma vantagem para os negócios (MARTES, 2004). Isso nos leva a crer que o interesse de se filiar a uma religião pode estar associado também aos benefícios que ela proporciona.
Também este estudo nos pode fazer perceber as partes da estrutura da IURD que se adaptam e as partes de sua estrutura que não se alteram, assim como um produto que permanece com a sua essência, mas muda sua embalagem. As características gerais das IURD que serão adaptadas ao contexto em que chegarem são: uso de meios de comunicação em massa como TV, jornal e rádio; nome da entidade; uso de grandes locais físicos; e os cultos diários com temáticas variáveis. As características que permanecem sem alteração são aquelas que caracterizam a essência da IURD: exorcismo de pessoas possuídas pelo mal, fortes líderes carismáticos, e a cobrança do dízimo para se tornar de fato um fiel.
Acredito que a maior contribuição desse estudo é uma reflexão que aparece a partir de todos esses resultados: apesar de se globalizar para outros países, a IURD enquanto religião não chega efetivamente na população desses outros países, pois ela é recebida majoritariamente por estrangeiros na maioria dos países em que se instala (RODRIGUES e SILVA, 2014; RODRIGUES e SILVA, 2012; MEDEIROS, SILVA e RODRIGUES, 2013). É interessante pensar nisso por que ao invés de, como um produto que se globaliza, ser consumido por toda a população, local e estrangeira, a IURD precisa se adaptar a cada país simplesmente para poder adentrar e se instalar nele, e então ser consumida por aqueles que, em sua maioria, não partilham essencialmente da cultura daquele país, mas estão a cada dia se adaptando a ela. Esses indivíduos são majoritariamente os imigrantes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
BAUMAN. Z. Globalização: as consequências humanas. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 1999.
TURNER, Bryan; KHONDKER, Habibul Haque. Globalization: East and West. Londres: SAGE Publications, 2010.
SOUSA, Marco Túlio, & RODRIGUES, Donizete. (2015). O Sexto Sentido e a sexta-feira 13: narrativas da Igreja Universal em um programa televisivo da Rede Record em Portugal. Palabra Clave, 18(2), 563-587
RODRIGUES, Donizete e SILVA, Marcos de Araújo. « Gesù Cristo è il Signore: a Igreja Universal do Reino de Deus em Itália ». Etnográfica [Online], vol. 16 (2) | 2012, Online desde 26 Junho 2012, consultado em 01 Fevereiro 2018.
RODRIGUES, Donizete e SILVA, Marcos de Araújo.« Imigração e pentecostalismo brasileiro na Europa: o caso da Igreja Universal do Reino de Deus », Revista Angolana de Sociologia [Online], 13 | 2014, posto online no dia 04 Junho 2016, consultado no dia 01 Fevereiro 2018. URL : http://journals.openedition.org/ras/1001 ; DOI : 10.4000/ras.1001
SILVA, Marcos de Araújo; MEDEIROS, Bartolomeu Tito Figueirôa de, & RODRIGUES, Donizete. (2013). A IURD e suas estratégias litúrgicas na Europa: reflexões a partir de Roma, Madri e Barcelona. Religião & Sociedade, 33(1), 145-166. https://dx.doi.org/10.1590/S0100-85872013000100008. Visualizado em 16/01/2018
MARTES, A. C. B. Afiliação Religiosa e Empreendorismo Étnico: O Caso dos Brasileiros nos Estados Unidos. Revista de Administração Contemporânea - RAC, Rio de Janeiro, v. 8, p. 117-141, 2004.




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* Rodrigues Maia
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia da UnB. Universidade de Brasilia - PGSOL/UnB. Brasilia/ DF, Brasil