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Resumen de ponencia
Novos atores e formas de mobilização e ativismo nas favelas cariocas

*Mario Brum



O presente artigo analisa os vieses pedagógicos presentes na ação de jovens ativistas de favelas e periferias da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que acabam por se constituírem como uma terceira geração de militantes comunitários, com formas e eixos de mobilização distintos das gerações anteriores.
As formas extrapolam as antigas organizações comunitárias, como associações de moradores, podendo ser desde aplicativos de celular até movimentos organizados por vítimas da violência estatal; enquanto que os eixos de mobilização não têm mais o Estado como alvo por excelência de suas reivindicações para conquista de benesses, mas em sentido oposto, creem que é preciso uma mobilização comunitária para se oporem ao Estado e se imporem à sociedade. É nesse sentido que constroem uma ação didática voltada aos seus semelhantes (incluindo nisso questões de gênero e étnico-raciais) como parte de um processo de auto-afirmação na sociedade para construção de uma cidadania efetiva que, na visão desses jovens ativistas, ainda não foi alcançada pelos moradores de favelas e periferias e não o será se não for feito em processos protagonizados por eles próprios.
Propomos aqui compreender processos pedagógicos que ocorram em outras ambientes da sociedade que não o escolar, seguindo conceitos de Freire (1968), Libâneo (2001) e Gohn (2011), além das nações de hegemonia e contra-hegemonia de Gramsci.
A pesquisa foi realizada a partir de entrevistas realizadas com 10 jovens lideranças, entre novembro de 2017 e abril de 2018, que versaram sobre a história de vida e sobre suas atuações, traçamos um panorama dessas novas dinâmicas presentes no campo político do Rio de Janeiro durante a preparação para os Grandes Eventos, bem como o quadro posterior de profunda crise econômica, política e institucional pós-2016, com reflexos mais dramáticos no Rio de Janeiro, incluindo, quando possível, fatos como a Intervenção Federal no Estado, em fevereiro de 2018, e o assassinato da vereadora Marielle Franco, no mês seguinte.
. Nessas entrevistas buscamos compreender suas trajetórias, o que os tornou ativistas, suas vivências nos locais onde moram e seus circuitos na cidade, e como vêem as relações entre a sociedade, estado e favelas/periferias e quais são os sentidos e objetivos de suas ações.
A partir desses relatos, e mais a análise de diversos materiais e registros produzidos por eles ou com eles, obtivemos um panorama de um novo momento do movimento comunitário das favelas cariocas, menos focado em organizações locais ou em demandas pontuais, como se caracterizam, em sua maioria, as gerações anteriores. A compreensão que essas lideranças têm do status segregado que a favela possui, implica numa visão de que a alteração desse status se dará somente por uma transformação na sociedade, retomando um espírito de mobilização comunitária ligado mais à ideia de diálogo com a comunidade e enfrentamento ao Estado do que à mediação com ele.
Nas primeiras décadas do século XXI, num processo ainda em curso no ano de 2018, enquanto esse artigo é escrito, o Rio de Janeiro se tornou uma espécie de laboratório de diversas políticas públicas, destinadas principalmente às favelas e periferias e aos seus moradores mais jovens. A ‘preparação’ da cidade para os Grandes Eventos foi um dos maiores impulsionadores dessas políticas, mas que não teve início nem chega a termo com as Olimpíadas de 2016.
A população jovem foi, por excelência, o principal ‘alvo’ dessas políticas públicas. Tanto nos discursos das autoridades quanto às oportunidades e benefícios que teriam quanto na prática das políticas não declaradas, mas tornadas reais e cotidianas, de genocídio da população negra, jovem e masculina moradora de favelas e periferia. Permeando ambas, a noção desses jovens como perigosos ou ‘em situação de risco’. Que devem estar sob vigilância ou controle do estado de forma a garantir a paz social.
É nesse contexto que ouvimos cerca de 10 jovens militantes moradores de favelas ou periferias. Partimos da premissa que esses jovens militantes fazem parte de um novo momento do movimento comunitário de favelas, em que suas formas de mobilização e seus eixos de luta se diferem da gerações anteriores em vários aspectos.
O primeiro aspecto é que esses jovens cresceram, em sua maioria, com quadrilhas de traficantes exercendo o domínio territorial sobre as favelas em que moram (ou moraram). Nos interessa mais as consequências disso na imagem das favelas em que o estigma sobre elas foi ressignificado, recaindo sobre seus moradores a acusação de serem os maiores responsáveis pelo tripé violência urbana-tráfico-criminalidade que assola as grandes cidades do Brasi (Silva XXXX)l, e o Rio de Janeiro, em particular (ao menos quanto à responsabilização das favelas pela convivência ‘morro-asfalto’ mais próxima). Essa sociabilidade mais tensa em relação às favelas, principalmente pelo fato de nos anos 1980 e 1990 os projetos de remoção terem sido abandonados, o que levou ao discurso de maior necessidade de vigilância sobre as favelas, foi um elemento com o qual esses jovens se depararam na infância, nos estudos, no trânsito pela cidade nas atividades mais comuns.
O segundo aspecto é o discurso no qual as favelas deveriam ser incluídas na agenda pública de forma ‘positiva’, através de políticas que considerassem a promoção da cidadania dos moradores como principal objetivo. Assim, as UPPs, quando apresentadas, seriam, acima de tudo, a libertação dos moradores de favela do domínio do tráfico e do impedimento que os traficantes exerciam sobre diversos direitos civis e políticos.
No mesmo sentido, durante os mandatos do PT na presidência do Brasil, prevaleceu o discurso da inclusão dos segmentos mais pobres da população, reforçado em diversos discursos e programas, por Lula e Dilma. Entre o discurso e a realidade, se nossos entrevistados contaram, em sua maioria, com maior oportunidade de acesso ao ensino superior (todos são a primeira geração da família na universidade), ainda vivenciaram, inclusive na passagem pela universidade, com barreiras simbólicas iguais ou piores que as gerações anteriores de moradores de favelas experimentaram… geralmente ligadas a um discurso que eles ‘estavam num local que não deviam’.
Assim, entre os discursos e ações de inclusão e exclusão, esses jovens, homens e mulheres, negros e negras em sua maioria, tornaram-se vozes ativas e presentes na política da cidade, de modo contra-hegemônico, seguindo o conceito gramsciniano, ligando-se às diversas organizações, como boletins comunitários, movimentos religiosos, páginas em redes sociais, organizações de luta por moradia, bibliotecas comunitárias, pequenos empreendimentos… Numa mediação didática que, em sua maioria, envolve dois movimentos: num lado, fazem uma releitura do que foi a luta das gerações anteriores, sem desvalorizá-las, mas buscando compreendê-las num contexto de ‘ausências’ ou de ameaças de remoção. Tendo o Estado como principal interlocutor, foram gerações que lutaram para que a favela resistisse e fosse reconhecida como parte da cidade, e por isso, beneficiada por ações e programas. Se valorizam essas lutas e seus agentes, eles identificam limites nelas que precisam ser superados.
Do outro, se dirigem diretamente aos seus ‘semelhantes’ (a construção disso em si faz parte do eixo de mobilização) de forma que os limites não superados nas lutas anteriores finalmente o sejam. Nesse sentido, acreditam que é a ação dos moradores de favelas, sem intermediários, que pode transformar definitivamente o seu status na cidade, tanto como uma forma de aprendizado político, no que mobilizam várias estratégias didáticas para falar diretamente com os moradores, bem como, um desdobramento dessa didática é uma ação pedagógica para o conjunto da sociedade de que a favela quer ser respeitada, quer viver, quer ter direitos e que ter voz própria, como aponta Gizele Martins, uma das nossas entrevistadas:: “Favela não é criminosa, ela é criminalizada! Ela não é violenta, ela é historicamente violentada! Vamos lutar juntos, vamos unir forças, vamos lutar contra todas as opressões! Favela, nós Venceremos! Venceremos, Venceremos!!!".”




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* Brum
Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ. Rio de Janeiro, Brasil