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Resumen de ponencia
As mediações da espacialidade e da temporalidade no uso de TICs por jovens rurais do sul do Brasil

*Aline Bianchini
*Ana Carolina Escosteguy
*Ângela Cristina Felippi



O propósito deste trabalho é explorar o Terceiro Mapa das Mediações (MARTÍN-BARBERO, 2009) como chave analítica em uma pesquisa interdisciplinar sobre usos e apropriações de tecnologias de informação e comunicação (TICs) entre famílias rurais do sul do Brasil, focando apenas nos jovens. Esse subconjunto totaliza dez sujeitos (dois do sexo feminino e oito do masculino), de idades entre 14 e 25 anos, filhos/filhas de agricultores familiares, com posse e acesso a algumas TICs .
O grupo investigado pertence a sete famílias agricultoras residentes de Vale do Sol (RS, Brasil), município com 11.077 habitantes, 88,72% moradores do campo (IBGE, 2010), a maioria produtores de tabaco e descendentes de imigrantes germânicos que colonizaram o sul do país no século XIX. No momento da realização da pesquisa empírica, tais indivíduos viviam a chegada e/ou expansão de tecnologias digitais, como a internet, o computador e o celular, e a sua incorporação no âmbito doméstico, coexistindo com as demais TICs pré-existentes – em especial, rádio e televisão.
O município pesquisado faz parte do chamado território do tabaco, que se expande por três estado do Sul do país, marcado especialmente pela produção e beneficiamento da folha do tabaco, produto que o Brasil é o maior exportador mundial e segundo maior produtor. Os espaços rurais deste território são ocupados predominantemente por agricultores, que cultivam com a mão de obra familiar o fumo em pequenas áreas, com contratos pré-firmados com transnacionais do setor. As famílias em estudo, portanto, se situam nas camadas populares, e marcam o território com seus modos de vida.
Tendo em vista que a mídia tradicional – TV, rádio e jornal – e a nova mídia – principalmente, telefone celular, computador e internet – estão ocasionando transformações na vida cotidiana do grupo estudado e que as incorporações de tais artefatos tecnológicos são sempre produzidas no espaço cotidiano, considera-se que este contexto exerce determinações relevantes sobre como as tecnologias são percebidas, adotadas e utilizadas pelas pessoas (MORLEY, 2008). Há capacidade dessas tecnologias tanto de intensificarem a sociabilidade, quanto aprofundarem o isolamento. As funções que esses meios exercerão dependem de fatores, dentre outros, como geração e gênero (LIVINGSTONE, 1996), fato evidenciado e corroborado pelos dados obtidos em campo.
O Terceiro Mapa das Mediações Comunicativas da Cultura vincula os anteriores à investigação das mutações culturais contemporâneas, abarcando as novas dimensões temporalidade, espacialidade, mobilidade e fluxos. Aqui, as mediações passam a ser “transformação do tempo e transformação do espaço a partir de dois grandes eixos, ou seja, migrações e fluxos de imagens. De um lado, grandes migrações de população, como jamais visto. De outro, os fluxos virtuais. Temos que pensá-los conjuntamente” (MARTÍN-BARBERO, 2009, s/p).
Além de pensar os fluxos e as migrações, para dar conta da questão da compressão do tempo e do espaço, o autor retoma duas dimensões as quais considera fundamentais nesse esforço reflexivo, e que já estavam presentes em seu mapa: ritualidade e tecnicidade, tendo esta última, relação muito próxima à questão da identidade. Neste modelo, a identidade é colocada entre a mobilidade e a temporalidade e desaparecem as mediações culturais “tradicionais” – a institucionalidade e a socialidade – a fim de dar conta das transformações ocorridas no mundo contemporâneo.
Para este artigo, tomam-se duas mediações pelas quais as práticas com as TICs são perpassadas: espacialidade e temporalidade. Tem-se a temporalidade contemporânea como configuradora de uma crise da experiência moderna do tempo, que se manifesta na “transformação profunda da estrutura da temporalidade, no culto ao presente, no debilitamento da relação histórica com o passado e na confusão dos tempos que nos prende à simultaneidade do atual” (LOPES, 2014). Já a espacialidade está relacionada a múltiplos espaços: o geográfico, feito de proximidade e pertencimento; o comunicacional, o qual as redes eletrônicas tecem e propiciam; o espaço imaginado da nação e de sua identidade; o espaço da cidade e a subjetividade que emerge a partir das novas relações com a cidade e dos modos como é apropriada.
No Brasil, a juventude rural representa um contingente de 8,5 milhões de pessoas (IBGE, 2010), distribuídos num espaço de grande diversidade. O grupo de jovens estudado compõe esta diversidade e entre si, apresenta certa homogeneidade, dado os recortes da pesquisa. Com origem germânica, trabalham ou auxiliam os adultos na agricultura e sua escolaridade supera a dos pais, sendo a escola uma instituição importante na vida do grupo. Dos dez jovens, apenas dois encerraram os estudos no ensino fundamental.
Todos os jovens têm acesso às mídias tradicionais, assim como posse de celular, computador e internet, mesmo que parte do grupo não tenha no lar sinal de celular, nem de internet. Conectam-se na casa de parentes, em espaços públicos ou na escola, especialmente pelo celular. Para a maioria, o celular é o meio de comunicação preferido, justificado pela posse e uso individualizado, embora parte do grupo ainda prefira a televisão.
O espaço de circunscrição da pesquisa é caracterizado econômica e socialmente pela agricultura familiar, que é mais do que uma forma de produção. Essa realidade revela, entre outras, uma característica singular a ser resguardada: a fusão das relações entre o espaço do trabalho e o doméstico, estabelecida pela prática da agricultura familiar. A mediação da espacialidade, neste caso, é condição que diferencia esse universo de pesquisa daqueles que mantêm esses dois mundos em separado, em especial no contexto urbano. Outra característica do grupo é o fluxo que mantém com a cidade. Vale do Sol fica a 36 quilômetros de um centro regional, cidade de porte médio com concentração de serviços. Parte dos jovens se desloca para este centro para serviços de saúde e de ensino. Esse trânsito entre a propriedade rural e o centro urbano, diária ou semanalmente, caracteriza uma mobilidade pendular, rompendo com a tradicional fixidez das populações rurais. Os fluxos provocados pela mobilidade física e pela virtual, das TICs, provoca um alargamento do universo simbólico, altera identidades, gera conflitos e novas acomodações, como evidenciou a pesquisa. No que tange à temporalidade, a assistência coletiva da TV no espaço doméstico, bem como a audição de rádio no galpão, demarcam respectivamente uma ordem temporal na rotina doméstica e no ciclo produtivo do tabaco. Já o uso do celular e do computador com acesso à internet rompe essas barreiras e propicia ao jovem relacionar o ritmo de sua localidade com a dinâmica global do mundo. Tanto seu tempo de lazer como o do trabalho são afetados por essa nova condição. Embora sua relação com o global decorra, também, de sua integração às indústrias do tabaco que estão organizadas em oligopólios transnacionais que operam em redes.
Enfim, entende-se que o rural contemporâneo é uma construção social dos distintos atores que compartilham esse espaço e atribuem sentidos a determinados comportamentos e atividades que estão configurando novas territorialidades. Portanto, é percebido como “um fenômeno cultural historicamente forjado” (CARNEIRO, 2012, p. 34) que, hoje, vivencia um momento particular de esmaecimento de fronteiras rígidas que anteriormente o separavam do meio urbano.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Maria José. Do rural como categoria de pensamento e como categoria analítica. In: CARNEIRO, Maria José. Ruralidades Contemporâneas: modos de viver e pensar o rural na sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Mauad X/Faperj, 2012

IBGE-INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (2010). Censo demográfico, 2010. Tabela 202. Disponível em: . Acesso em: 08 fev. 2015.
LIVINGSTONE, S. (1996) El significado de las tecnologías domésticas. Un análisis del constructo personal de las relaciones familiares respecto del gênero. In: SILVERSTONE, Roger; HIRSCH, Eric (Eds.). Los efectos de la nueva comunicación. El consumo de la moderna tecnología en el hogar y en la família. Barcelona: Bosch, 1996, pp. 169-192.

LOPES, Maria Immacolata Vassallo de. MATRIZes, São Paulo, v. 8, n. 1 jan./jun. 2014, pp. 65-80.
MARTÍN-BARBERO, J. As formas mestiças da mídia. Pesquisa Fapesp, São Paulo, n. 163, set. 2009, pp. 10-15.

____________________. De los medios a las mediaciones. Barcelona: Anthropos, Universidad Autónoma Metropolitana de México, 2010.

MORLEY, D. Medios, modernidad y tecnología. La geografía de lo nuevo. Barcelona: Gedisa, 2008.






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* Bianchini
Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (CNPQ). Porto Alegre, Brasil

* Escosteguy
Universidad Federal de Santa Maria - UFSM. Rio Grande del Sur, Brasil

* Felippi
Universidad de Santa Cruz do Sul (UNISC). Santa Cruz do Sul, Brasil