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Resumen de ponencia
Atuação profissional em Cuidados Paliativos na América Latina: estudos de caso no Brasil e no México

*Ângelo Miranda



A presente proposta de trabalho tem como princípio debater a prática profissional dos Cuidados Paliativos a partir de uma perspectiva sociológica. Os Cuidados Paliativos (CP) são conceituados pela Organização Mundial da Saúde como uma perspectiva integral e holística de atenção à saúde, buscando observar e tratar os pacientes a partir de suas existências biológicas, psicológicas, sociais e espirituais (WHO, 2002). O tratamento paliativo é recomendado quando o paciente com alguma enfermidade perde a possibilidade de cura médica. Logo, as prerrogativas do movimento, bem como suas práticas e escolhas filosóficas se colocam na proximidade com o tema da morte e do morrer, demandando dos profissionais formas específicas de cuidado.
A prática dos Cuidados Paliativos está sendo institucionalizada e aplicada desde a década de 1960, se tornando mais conhecida através da divulgação de trabalhos de profissionais da saúde como Cicely Saunders e Elisabeth Kübler-Ross. Ambas as iniciativas, de Saunders e Kübler-Ross, se deram com o intuito de oferecer acompanhamento e cuidado aos pacientes em estado terminal. Além desse objetivo, ambas as autoras tiveram papel importantíssimo na disseminação das experiências de Cuidados Paliativos através de seus livros, tornando esse um tema mais próximo das populações dos países onde viviam, respectivamente a Inglaterra e os EUA.
Com a disseminação dessas inciativas as práticas de CP se propagaram por diversos países em todo o mundo. As primeiras experiências institucionalizadas na América Latina são datadas como existentes a partir dos anos de 1990 (IGNACIA y PALMA, 2007). Porém, creio ser pertinente observar que os cuidados integrais com pessoas em estado terminal não foram criados, bem como não são monopólio, do movimento de Cuidados Paliativos. O atendimento e cuidado com respeito e dignidade a pacientes em situação terminal existe e existia em diversas configurações em todo o mundo, sendo os Cuidados Paliativos apenas uma reelaboração dessa atenção à saúde em cenários de tratamento hospitalares no ocidente moderno.
No plano da análise social e histórica o tema da morte e do morrer também já era abordado na segunda metade do Séc. XX. Sociólogos e historiadores como Norbert Elias (2001) e Philippe Ariès (1977) já apontavam para o cenário sobre o qual se debruça o movimento dos Cuidados Paliativos. Na sociedade moderna, em oposição a séculos anteriores no contexto europeu, a morte e o morrer seriam recalcados da experiência social da maioria das pessoas. Dessa forma o contato com a morte e os mortos seria mais asséptico, extremamente vinculado ao ambiente hospitalar, também sendo afastado do domicílio e do cuidado familiar. Portanto, partindo de uma postura crítica à relação com a morte e o morrer presente nas sociedades modernizadas do pós-segunda guerra, condizente com a perspectiva dos autores citados, que os Cuidados Paliativos se fundam em sua especificidade como programa de atenção à saúde de pacientes terminais.
Portanto, a partir desse contexto pode-se vislumbrar um grande e diverso escopo para análise sociológica. Envolvidos na prática dos Cuidados Paliativos estão diferentes temas de pesquisa, como a organização social de atenção a pessoas em estados terminais, o direito à escolha de tratamento por parte dos pacientes dentro de hospitais, bem como as especificidades na realização profissional dos Cuidados Paliativos e as dinâmicas de prazer/sofrimento nesse exercício profissional, por exemplo. Logo, buscando realizar recortes dentro desse campo, a escolha do presente trabalho se deu em relação a abordar os Cuidados Paliativos a partir das perspectivas dos profissionais que atuam nessa prática, utilizando assim o marco teórico da sociologia do trabalho.
Logo, dentro desse intuito foi realizada pesquisa de campo junto a profissionais de Cuidados Paliativos buscando compreender a prática de CP na saúde pública de Brasília, Brasil, e na Cidade do México, México. É de interesse do trabalho aqui exposto, portanto, apresentar os dados e a metodologia da pesquisa em questão, dialogando sobre a inserção de novas perspectivas de cuidado e atenção a pessoas em estado terminal na realidade latino-americana.
A pesquisa em questão foi realizada no primeiro semestre de 2017, contando com um período no México, entre janeiro e março, e um período no Brasil, entre abril e julho do mesmo ano. Foram realizadas, portanto, entrevistas em profundidade, semi-estruturadas, com profissionais de Cuidados Paliativos buscando debater diversas questões. Dentre essas se destacam as trajetórias profissionais e de vida relacionadas ao trabalho com CP, a inserção dos CP nas instituições hospitalares onde atuavam essas profissionais, bem como a inserção dos CP no cenário nacional de saúde em cada país. Ao total foram realizadas cinco entrevistas, contando com uma presença marcadamente feminina na amostra, já que foram quatro participantes mulheres e apenas um homem. Essa maior presença feminina nos espaços de Cuidados Paliativos foi algo marcante na pesquisa, se tornando assim uma questão sobre a qual pretendo analisar mais cuidadosamente em trabalhos e entrevistas futuras.
Portanto, baseado na referida pesquisa, esta proposta de trabalho terá como cerne utilizar as perspectivas das interlocutoras da pesquisa para debater a prática profissional e a inserção das técnicas dos Cuidados Paliativos na América Latina, mais especificamente no Brasil e no México.
Referencias Bibliográficas
ARIÈS, P., 1977. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
ELIAS, Norbert. A Solidão dos Moribundos. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. 107 p.
IGNACIA DEL RÍO, M. y PALMA, A. Cuidados Paliativos: Historia y Desarollo. Boletim de la Escuela de Medicina, Volumen 31 Núm. 2, año 2007. Universidad Católica de Chile. Disponível em http://cuidadospaliativos.org/uploads/2013/10/historia%20de%20CP.pdf, acesso em 06/11/2017.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). National cancer control programmes : policies and managerial guidelines. – 2nd ed. Geneva. 2002. Disponível em http://www.who.int/cancer/media/en/408.pdf, acesso em 29/11/2017.




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* Miranda
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia da UnB. Universidade de Brasilia - PGSOL/UnB. Brasilia/ DF, Brasil