Esse trabalho é uma descrição etnográfica da entrega do presente dos pescadores para Iemanjá que ocorre anualmente na Vila de Matarandiba, localizada na Ilha de Itaparica na Bahia. Segundo censo não oficial, realizado em 2008, a vila tem em média 600 habitantes e a maioria da sua população é afro-brasileira. O presente dos pescadores, como o próprio nome indica, é um agradecimento à dona das águas , uma categoria nativa para a divindade africana, Iemanjá. O presente é uma retribuição através de uma oferenda ao que foi retirado do mar (o peixe e o marisco). Ao mesmo tempo, também permite que durante o ano possam ser encontrados peixes e mariscos em abundância. A prática do presente está intimamente ligada às religiões afro-brasileiras, o que inclui não só o candomblé e suas diferentes nações (Jeje, Ketu, Angola, Bogum), mas também a Umbanda.
Para a festa são preparados grandes balaios com os alimentos que Iemanjá come (peixe assado com camarão, arroz e feijão branco), presentes (espelho, sabonetes, perfumes), além de bebidas alcóolicas. Depois do preparo dos balaios, é realizado o xirê (música, dança/transe) até o momento da entrega do presente. As cantigas que embalam a festa tem como tema a rainha do mar. Os atabaques sagrados puxam as cantigas entoadas pelas mulheres que dançam seguidamente em roda. Durante o xirê algumas mulheres que tem Iemanjá como orixá incorporam (entram em transe). À medida que essas mulheres incorporam as lideranças femininas tentam fazer com que o orixá desincorpore.
Ao fim do Xirê, seguimos em cortejo até a praia. Três mulheres quase que sincronicamente caminham com os balaios sobre a cabeça. As embarcações que vão levar as pessoas e os balaios já estão ancoradas a nossa espera. Subimos no barco e seguimos em direção ao local exato da entrega do presente, conhecido como o Canto do Limão. Outros barcos nos seguem em cortejo. A mãe de santo (sacerdotisa) do terreiro de candomblé começa a colocar os balaios no mar. Segundo essa liderança, o balaio é aceito por Iemanjá quando ele afunda, ou seja, quando não afunda significa que a dona das águas devolveu o presente. Depois de colocar todos os balaios é a vez das bebidas serem despejadas na água. Assim que finalizou a entrega dos presentes o barco começa a navegar em círculos, como uma dança. As mulheres voltam a incorporar dentro do barco ao som dos atabaques e as cantigas se misturam aos gritos do transe.
Essa pequena descrição é o fio condutor para a compreensão do lugar destinado ao culto das divindades africanas na comunidade de Matarandiba. Nos últimos 30 anos a comunidade vem passando por um processo de evangelização frequente através das Igrejas Pentecostais e Neo Pentecostais. Nesse sentido, o presente dos pescadores se conformou enquanto processo de luta e resistência.
É importante ressaltar que as principais atividades produtivas da vila são a pesca e a mariscagem. A Mariscagem, na comunidade, é uma atividade predominantemente feminina e a pesca, masculina. As construções de gênero influem diretamente nas atividades produtivas e repercutem nas políticas de enfrentamento de riscos, as políticas sociais e de seguridade social (MANESCHY; SIQUEIRA; ÁLVARES, 2012). Nesse sentido, é possível identificar uma invisibilidade das mulheres no mundo da pesca. Sendo que em Matarandiba elas têm exercido atividades de coleta de marisco, pesca de camarão, preparação e defumagem do pescado. O que as autoras enfatizam é a invisibilidade das mulheres no mundo da pesca, não só do ponto de vista das políticas sociais, mas também na tentativa de conformação de uma totalidade cultural, ou seja, um todo coerente e homogêneo em que as falas masculinas têm sido dominantes na busca por direitos e garantias das comunidades tradicionais pesqueiras, quilombolas, indígenas, fundos de pastos, dentre outras.
Nesse contexto, o presente dos pescadores também se conforma enquanto luta e resistência frente à invisibilidade das mulheres no mundo da pesca. O ritual tem a predominância das mulheres na sua preparação e realização. Sendo assim, o objetivo desse trabalho é discutir, através dos elementos e desdobramentos do ritual de entrega do presente, o lugar destinado às práticas da religiosidade afro-brasileira em um contexto de continuidades e evitações dentro de uma estrutura mais ampla que é patriarcal e racista.