O presente trabalho relata experiências de ações extensionistas desenvolvidas pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), com grupos e empreendimentos de economia solidária. As ações extensionistas, ainda em curso, contam com a participação de docentes e discentes dos cursos oferecidos pela UEMG de Barbacena, na Região do Campo das Vertentes, em Minas Gerais, Brasil. O estudo feito aponta o protagonismo das mulheres nos empreendimentos, em sua maioria mulheres negras, mães e/ou avós chefes de família, que no trabalho coletivo conciliam o cuidado da casa e dos filhos e/ou netos, constroem novas sociabilidades, resgatam vínculos sociais rompidos e se integram em processos organizativos e sociopolíticos. Neste protagonismo foi possível visualizar também dilemas e desafios em suas lutas por trabalho, cidadania e direitos. O trabalho de pesquisa-ação, ainda em curso, tem impactado positivamente os envolvidos neste Projeto e possibilitado a relação dialógica entre a Universidade e a Comunidade participante, possibilitando, assim, numa perspectiva interdisciplinar, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
A pesquisa-ação, além de ser uma forma de conhecer para transformar a realidade social (BRANDÃO; STRECK, 2015; FALS BORDA, 2015; THIOLLENT, 2011), organizacional (THIOLLENT, 2009) ou as práticas do cotidiano profissional (TRIPP, 2005), está implicada em um modelo e foco específico dentre os arquétipos históricos do papel da Universidade: napoleônica, preparação ao mercado de trabalho; humboldtiana, no ensino e na pesquisa; newmaniana, desenvolvimento pessoal dos estudantes e deweyaniana, a promoção da cidadania e o envolvimento com a sociedade (LIMA; MENEZES; CARREGÃ, 2010). É uma forma de reconstrução dos vínculos da Universidade com a sociedade por meio de ações extensionistas, ou redefinição da pesquisa social em projetos que visam a emancipação dos grupos pesquisados/participantes (GREENWOOD; LEVIN, 2010).
A Extensão Universitária é um processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre a Universidade e a Sociedade. Nesse sentido, fomentar e desenvolver ações conjuntas com setores da Sociedade Civil, que sejam marcadas pelo diálogo, a troca de saberes, a interdisciplinaridade e interinstitucionalidade norteia as práticas extensionistas do grupo de docentes envolvido nesse Projeto.
Nas últimas décadas, importantes transformações têm ocorrido no mundo do trabalho, impactando parcelas crescentes da classe trabalhadora. Tais mudanças possibilitaram a emergência do trabalho cooperado e associativo e o aumento de trabalhadores desempregados, que excluídos do mercado formal de trabalho, recorrem a atividades informais como alternativas de trabalho e renda. No Brasil, as iniciativas de economia solidária, organizadas sob os princípios da solidariedade e autogestão, têm encontrado um vasto e fértil campo de ação, no qual desigualdades de gênero e de raça/cor se fazem cada vez mais presentes. Nas iniciativas de economia solidária, os trabalhadores e trabalhadoras buscam no trabalho coletivo e cooperado, novas alternativas de geração de renda, pautados por um conjunto de princípios e valores, dentre os quais podemos destacar: a posse coletiva dos meios de produção e distribuição, a gestão democrática, a cooperação e autogestão, a valorização do trabalhado e dos trabalhadores.
A Economia Solidária é um modo de produção de bens ou prestação de serviços, de comercialização e de consumo, cujo trabalho é pautado nos princípios da autogestão, cooperação e sustentabilidade. Nessas iniciativas se faz presente uma diversidade de práticas econômicas e sociais, que oportunizam a democratização das relações sociais e consideram o ser humano em sua integralidade, como sujeito e como finalidade da atividade econômica. As iniciativas de economia solidária são organizadas sob a forma de grupos produtivos, cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, produção de bens, prestação de serviços, finanças e/ou solidárias, comércio justo e consumo solidário. O trabalho é movido por uma forte consciência socioambiental em busca de um modelo de desenvolvimento sustentável e os resultados deste trabalho são compartilhados entre todos, sem distinção de gênero, raça ou faixa etária.
A economia popular solidária recobre uma realidade marcada pela heterogeneidade e diversidade (ARAÚJO; LOMBARDI, 2013; GAIGER, 2004; LAVILLE; FRANÇA FILHO, 2004; NEVES, 2012; SINGER, 2002). Nessas iniciativas populares subsiste uma tensão fundamental entre o possível e o desejável, uma vez que essas iniciativas carregam consigo a dupla tarefa de superar os limites colocados pela ordem econômica vigente e avançar na construção de novos parâmetros de organização e articulação. O público dos empreendimentos econômicos solidários geralmente é composto por mulheres pobres com baixa qualificação, mães chefes de família com idades bem variadas e com filhos e\ou netos ainda pequenos. Trata-se de uma parcela significativa da população historicamente excluída do mercado formal de trabalho.
Essas mulheres sempre foram excluídas do mercado de trabalho, pois no nascedouro da nova ordem econômica e social, se viram entregues à própria sorte (SILVA, 2014). A reprodução da pobreza é mediada pela reprodução do modo urbano das condições de vida, através da dinâmica do mercado de trabalho, da natureza do sistema de proteção social e do pacto de coesão social que é o que estrutura o conjunto de relações e interações entre o Estado, o Mercado e a Sociedade Civil (SOUZA, 2003). Nesta lógica, é possível compreender as razões pelas quais, aos excluídos do mercado de trabalho, pobreza e marginalidade social são legados que lhes cabem como herança histórica, reafirmada no abandono tanto por parte dos antigos senhores de engenhos e de escravos, como também das instituições sociais e políticas.
As ações extensionistas têm sido direcionadas no campo da gestão, em vistas do fortalecimento de redes de produção, e comercialização, a emancipação socioeconômica desses grupos e construção de novos valores relacionados ao trabalho, geração de renda, desenvolvimento local e cidadania.
A presença e a participação nas reuniões e eventos promovidos pelos empreendimentos de economia solidária e pelo Fórum Regional do Campo das Vertentes de Economia Solidária têm possibilitado a observação direta e participante, bem como a construção de uma agenda positiva para o desenvolvimento dos empreendimentos econômicos solidários. Vale destacar aqui, que os fóruns são espaços de formação, organização e articulação, e neles participam lideranças dos empreendimentos solidários, organizações não governamentais, gestores públicos e universidades. É importante salientar também que nestes espaços são deliberadas as demandas e proposições que subsidiarão as ações do Conselho Estadual de Economia Popular Solidária.
ARAÚJO, Ângela Maria Carneiro; LOMBARDI, Maria Rosa. Trabalho informal, gênero e raça no Brasil do início do século XXI. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 43, n. 149, p.452-477, ago. 2013. Disponível em: . Acesso em: 10 dez. 2014.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues; STRECK, Danilo Romeu. Pesquisa participante: o saber compartilhado. São Paulo: Ideias & Letras, 2015.
FALS BORDA, Orlando. Cómo investigar la realidad para transformarla. In: ___. Una sociología sentipensante para América Latina. Ciudad de México, DF: Siglo XXI Editores; Buenos Aires: CLACSO, 2015a, pp. 253-301.
GAIGER, Luiz Inácio. Sentidos e experiências da Economia Solidária no Brasil. Porto Alegre: UFRGS, 2004.
GREENWOOD, Davydd J.; LEVIN, Morten. Reconstruindo as relações entre as universidades e a sociedade por meio da pesquisa-ação. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2010, pp. 91-114.
LAVILLE, Jean-Louis; FRANÇA FILHO, Genauto de Carvalho. A economia solidária: uma abordagem internacional. Porto Alegre: UFRGS. 2004.
LIMA, Maria Luísa; MENEZES, Isabel; CARREGÃ, Lara. O ensino superior como um espaço de formação multifacetado. In: GARRIDO, Margarida Vaz; PRADA, Marília. Competências académicas: da adaptação à universidade à excelência académica. Lisboa: Edições Sílabo, 2016, pp. 69-89.
NEVES, Magda de Almeida. Dilemas dos empreendimentos solidários: entre a precarização e a inserção social. In: LEITE, Márcia de Paula, GEORGES, Isabel P. H. Novas configurações do trabalho e economia solidária. São Paulo: Annablume; FAPESP, 2012, pp. 323-349.
SILVA. Trabalho, cidadania e reconhecimento: a Rede CATAUNIDOS e o protagonismo sociopolítico de Catadores de Recicláveis na RMBH. 2014. 395f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte.
SINGER, Paul. Introdução à economia solidária. São Paulo: Perseu Abramo. 2002.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 2011.
THIOLLENT, Michel. Pesquisa-ação nas organizações. São Paulo: Atlas, 2009.
TRIPP, David. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p.443-466, dez. 2005. Disponível em: . Acesso em: 13 maio 2015.