A presente pesquisa objetiva perceber como operam, nos casos estudados até esse momento, representações de gênero. Esta questão será tratada buscando-se perceber como se dá (ou não se dá) o lugar social de determinados sujeitos, em especial mulheres e indivíduos LGBT (sigla em uso desde os anos 1990 abarcando de forma mais completa as diversidades sexuais e de gênero, incluindo lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros), de como estes são representados e se representam nas manifestações culturais aqui estudadas (nas rimas e nas performances).
A Roda Cultural (que passarei a denominar RC) é uma manifestação coletiva que promove encontros de artistas de várias expressões, como: poetas, cantores, fotógrafos, grafiteiros, pichadores, MCs, artistas performáticos entre outros. Manifestação essa que proporciona um verdadeiro “mix” cultural. Dentro desse mix, destacamos a roda de rima e a “batalha de rima” na qual os MCs fazem “freestyle” (estilo livre) em pequenas rodas rimando entre amigos ou disputando em duplas. Destaca-se, aqui, a batalha de conhecimento, uma vez que o tema é escolhido previamente para que as duplas possam elaborar as rimas de acordo com o contexto, possibilitando assim uma narrativa de conhecimentos gerais, próprios e de cunho sócio-político. O público escolhe, através de aplausos e gritos, aquela/aquele que melhor desenvolveu o tema; caso haja empate, outro tema é escolhido aleatoriamente pelo público presente até que seja elencado o “vencedor”. Existem as eliminatórias e a grande final, respeitando as etapas acima citadas. Existem também as “batalhas de sangue” - embora não seja a proposta base para nosso entendimento nessa pesquisa -, o sistema é o mesmo, porém os temas são livres e o vencedor é escolhido de acordo com a comunicação estabelecida com o público, ou seja a empatia que se dá com as rimas em concordância com a apreciação das pessoas presentes na RC. Não há nesse momento regra nenhuma que situe o andamento da disputa, raras as exceções, que não permitem algumas agressões verbais (ofensas à família de um modo geral), no entanto as narrativas são provocadoras e quase sempre ofensivas.
Uma das questões que envolvem “gênero” nas batalhas de MCs junto às RCs é a relação binária (homem/mulher), e qual o lugar das mulheres enquanto participantes nas batalhas. Podemos apontar tensões que envolvem a discussão de gênero e as representações sociais, assim como a manutenção do poder sexista junto às manifestações culturais de jovens de periferia, embora haja pouco estudo sobre o assunto aqui no Brasil, especificamente nas Rodas de alguns subúrbios cariocas (RJ).
O movimento Hip Hop busca tornar visíveis “as falas” dos jovens, abarcando temas como: reconhecimento, discriminação racial e social, direitos iguais, poder, política, identidade, entre outros. Contudo, observa-se que o discurso que envolve os temas a serem apresentados dentro das batalhas excluem as mulheres (assim como os sujeitos LGBT), “invisibilizando-as”, ou transformando-as em replicadoras do discurso machista, discriminatório e excludente, no qual a mulher ocupa um espaço de menor importância e credibilidade. Segundo Herschmann, no livro “O Funk e o Hip Hop invadem a cena” (Rio de Janeiro: Ed UFRJ, 2000, p. 203-204):
Na realidade, a mulher no mundo hip-hop carioca ou paulista ocupa um papel secundário, apesar de nenhum de seus membros admitir isso nas várias entrevistas realizadas. Além de enfrentarem um machismo velado, que se expressa no uso freqüente da expressão “vadia” nas músicas e discursos, elas enfrentam o pouco espaço que existe para que artistas de sexo feminino – cantoras, dançarinas ou grafiteiras – possam se manifestar. Ao contrário das mulheres funk, as do hip-hop não podem usar explicitamente o erotismo como estratégia para subverter esse universo predominantemente masculino. Nenhuma delas usa roupas provocantes, com medo justamente de ser estigmatizada por isso. Sua idumentária lembra as roupas pesadas e largas dos homens. Sua estratégia é fazer uso da palavra, em um discurso que se aproxima muito do ‘feminista’ tradicional. Respondem ao discurso dos homens com mais discursos, ou melhor, diante da verborragia masculina, produzem mais verborragia.
As relações que se dão dentro do Hip Hop (consequentemente entre os MCs) e do preconceito para com as mulheres praticantes revelam hierarquia, na qual o poder é exercido pelo machismo. No entanto, algumas táticas foram adotadas pelas MCs para lidarem com a desigualdade, preconceito e diferenças de gênero. Uma das táticas consiste na aproximação do comportamento corporal dos homens, tais como os movimentos das mãos, braços e pernas. Uma outra forma é o timbre de voz que se aproxima o máximo possível com a dos homens, além também, da vestimenta. Embora hoje os modelos utilizados sejam mais justos e sensuais, ainda são roupas ditas como pertencentes ao vestuário masculino. Tal procedimento comportamental também é uma maneira utilizada pelos indivíduos LGBT, uma vez que o comportamento tem que estar dentro dos “padrões” adotados pelos MCs do gênero masculino, ou seja, o gênero como ato performático representado pelo corpo e suas expressões. Neste caso, não seria (é) algo natural, todavia uma “face” politicamente regulada. Tais procedimentos camaleônicos, além de camuflar, inibem a emancipação das mulheres e dos sujeitos LGBT, que são submetidos a modelos eminentemente masculinos, elucubrando qual lugar de representatividade deve ser ocupado dentro do movimento Hip Hop.
As relações de poder envolvidas e associadas às relações de gênero nas RCs são complexas e merecem reflexões mais aprofundadas, pois ainda são escassos os estudos sobre a presença desses sujeitos sociais nesses movimentos juvenis. Os jovens que participam das batalhas começam com 13 anos em sua maioria, muitos deles estão se construindo enquanto sujeito social/político o que torna esse processo preocupante no que se refere às reproduções machistas continuas, propagando assim as representações tradicionais referentes à mulher. Dessa forma, ao evidenciar as representações sociais da maioria presente nas RCs, pode-se observar que a construção de identidade de gênero acaba por determinar os papéis e lugares sociais (incluo a esses dois o “poder”, no sentido de enquadramento das ações, assim como o engessamento das diversas identidades participantes como ouvintes ou não das RCs) junto ao movimento.
Vale ressaltar a importância das RCs na constituição de sujeitos mais fortalecidos socialmente, no entanto a exclusão de determinados grupos é evidente. O movimento propõe discutir várias desigualdades sociais - sejam elas relacionadas com as questões raciais, políticas, econômicas - mas existe uma clara e sinuosa discriminação ao que se refere ao gênero.
Compreende-se, então, que as RCs se constituem como possibilidades de identificação para os sujeitos sociais nelas envolvidos, ao menos deveria, por exemplo, para as mulheres que buscam um agir coletivo, seja este orientado para as reivindicações de forma geral, ou para a reivindicação dos direitos daqueles que vivem em condições de exclusão mergulhados numa invisibilidade social derradeira. Alguns grupos começam a questionar o posicionamento dito “inferior” que lhes é atribuído, reivindicando outros papéis culturais e políticos na tentativa de construção, reconhecimento e solidificação de identidade e representação diferentes das quais lhes são impostos, buscando espaços de autonomia no pensar e representar.
Quais seriam as alternativas possíveis de produção cultural fora de culturas concebidas e estabelecidas predominantemente por uma lógica masculina? E quais seriam as táticas que a minoria dispõe para combater as desigualdades de um modo geral? Talvez algumas respostas estejam alicerçadas no movimento surgido pela necessidade de dar voz às jovens mulheres, intitulado “Batalha das Musas”.
A Batalha das Musas, criada em março de 2017 comemorando o mês da mulher, idealizada e produzida por Aline Pereira, vem incentivando a participação de diversos sujeitos sociais. Em entrevista ao jornal O Globo (09/03/2018, disponível em https://oglobo.globo.com/rio/bairros/no-rap-batalha-das-mulheres-por-igualdade-22470097), Aline destaca a importância desse movimento pioneiro:
Dentro do que já foi mapeado até o momento, o grupo de Niterói aparece como sendo a única roda cultural de rap composta somente por mulheres no estado do Rio [...].
Para Aline Pereira, a proposta da Batalha das Musas é conversar sobre as questões que limitam as possibilidades das mulheres na sociedade ou que as deixam intimidadas, por exemplo, a participar de um movimento que é mais associado aos homens. [...]
Aline foi convidada pelo MC Marechal para coordenar a produção da Batalha do Conhecimento, cuja principal proposta é o caráter educativo [...].
Aline foi também responsável por coordenar as seletivas para uma edição nacional de duelo de MCs no estado do Rio, momento em que acabou sendo vítima de cyberbullying.
— Incomodei muita gente no momento em que tive um empoderamento. Fui muito pressionada, a ponto de receber mensagens que me chamavam de piranha e coisas muito piores. Depois de trabalhar tantos anos nessa cena, não havia qualquer tipo de reconhecimento. Eu percebi que era invisível. Quando fui buscar apoio de gente influente no próprio meio, as pessoas se calaram — conta a produtora.
Questionada sobre o que os homens que participam da cena do rap estariam fazendo para modificar esse tipo de comportamento, Aline afirma não perceber mudança significativa:
— Creio que não estão fazendo nada. Não fazem contra, mas não fazem nada a favor. É uma omissão. O deixar de falar sobre acaba oprimindo da mesma forma.
Essas reflexões tiveram como objetivo propiciar um pequeno panorama entre as questões de relações estabelecidas entre – representação e significado – sujeito e identidade – gênero e representatividade.