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Resumen de ponencia
Formação popular feminista: diversidade e dissenso mediados por dispositivos de conversação

*Bibiana Serpa



O agente do feminismo é a mulher. Mas de qual mulher estamos falando? Muitas discussões se forjam na dificuldade e no perigo de falar sobre mulher como um grupo único. Da mesma forma que o sujeito moderno essencial é questionado nas teorias pós-modernas, a adoção de mulher como uma categoria analítica é questionada pelo feminismo como sendo, também, essencialista. É preciso negar a construção de uma mulher universal, que apenas se oporia ao homem universal modernista e, assim, validaria uma identidade homogênea comum a todas as mulheres. Dito isso, é preciso afirmar a categoria mulher como identidade política, que afinal é a razão de ser do movimento feminista.
Nesse sentido, o feminismo, enquanto movimento de ação política que representa seus sujeitos políticos distintos, também tem nuances alternadas dependendo do país onde atua, ideologias que defende e as condições históricas que combate. Percebe-se o crescimento da atuação acadêmica e militante de interpretações feministas contraditórias e complementares à visão branca e pequeno-burguesa original. É possível inferir, a partir dessas disputas, que de acordo com o contexto histórico e a correlação das forças políticas no interior do próprio movimento, na academia ou na convivência social, uma ou outra vertente feminista ganha força.
Observamos um cenário profícuo. Se de um lado, a compreensão dos problemas de opressão de sexo como comuns a todas, sem levar em conta elementos como raça, classe ou orientação sexual, silencia sobre a multiplicidade de experiências específicas que compõem a diversidade de feministas; do outro lado, há a questão da ação política pragmática, que justifica a busca por um sujeito do feminismo capaz de combater as opressões estruturais.
Diante dessa problemática, situa-se a atuação de formação política da coletiva/rede feminista Agora Juntas, que se propõe uma rede interseccional de articulação de iniciativas, sujeitos e espaços feministas no Rio de Janeiro. Como uma rede interseccional, entendemos a imbricação de identidades sociais e sistemas de opressão, dominação e discriminação e desejamos construir um movimento feminista que ouça os diferentes grupos de mulheres que existem dentro dele. Essa premissa propõe um fazer político democrático, que aceite a pluralidade e o dissenso oriundo dessa diversidade.

Ao realizar uma formação política feminista em parceria com a Universidade Livre Feminista, nos vimos (Agora Juntas) defrontadas com uma problemática que envolvia a articulação entre a proposta de educação popular e o feminismo como movimento de organização política plural. As diversas vertentes feministas que se identificaram entre as participantes da formação foram positivamente entendidas como ricas para o debate porque acreditamos em um dissenso democrático, mas ao mesmo tempo, nos preocupamos com dinâmicas possíveis para o desafio educacional e dialógico que essa realidade impôs.
Ao traçar estratégias, nos deparamos com as práticas do design anthropology e o uso de dispositivos de conversação. Design Anthropology é uma área transdisciplinar inclinada à experimentação, que incorpora a essência etnográfica de processo aberto e da atenção ao contexto e suas especificidades, assim como ferramentas e modos de pensar do design. Nesse sentido, compreendemos o processo de design como uma prática que posiciona dispositivos de conversação – objetos, imagens, sistemas e dinâmicas – como facilitadores de reflexões e engajamento, sem propor soluções para uma questão, mas pelo contrário: encontrando formas de estar junto à questão e enxergá-la de novas formas.
Partindo do pressuposto da produção agonística de conhecimento, entendemos a democracia como intrinsecamente controversa. A promoção de uma formação política democrática, que pudesse acolher as divergências e, ao mesmo tempo, propor um entendimento do sujeito político do feminismo, era nosso objetivo com o curso, tanto metodologicamente quanto como fins últimos de educação.
Sem perder de vista as demandas educativas formuladas para o curso, que já estavam estruturadas previamente pela Universidade Livre Feminista, desenvolvemos atividades que fazem uso de dispositivos de conversação, cuja função central foi mediar diálogos e provocar a imaginação. As dinâmicas propostas não fizeram uso de ferramentas prontas, mas foram elaboradas de acordo com a particularidade de cada encontro da formação, que possuíam temáticas diversas como história do feminismo, estudo de sistemas de opressão, luta organizada das mulheres, etc. Diferentemente de muitos processos ditos democráticos, as atividades formativas do curso não buscaram estabelecer verdades absolutas ou soluções finais, mas sim mediar o debate e a coexistência de subjetividades distintas, convergentes ou divergentes, tornando-as tangíveis através do uso dos dispositivos de conversação. Estes dispositivos normalmente são simultaneamente produzidos e querem produzir algo, ou seja, durante o seu processo colaborativo de construção, as ferramentas usadas provocam debates, fazendo emergir questões e subjetividades, tornadas visíveis através dessas mesmas ferramentas. O resultado desse processo é também por si só provocador de novos debates, carregando consigo a visualização e materialização das percepções distintas e não se entendendo como peça final, insinuando futuros desdobramentos para o dissenso democrático.
Esse trabalho, portanto, busca valorizar a diversidade das vertentes dentro do movimento feminista como articuladora real do sujeito político do feminismo a partir da formação política encadeada por ferramentas conhecidas como dispositivos de conversação.
Ser um ativista envolve freqüentemente abordar um conjunto de práticas simultaneamente para alcançar um conjunto abrangente de metas, para mobilizar mais e envolver-se em atividades de movimento. Nesta oportunidade, pudemos vincular os conhecimentos do feminismo interseccional à educação popular e dinamizar o processo a partir de ferramentas do design anthropology. A partir desta experiência, acreditamos que os preceitos do design anthropology contribuir com a reflexão e a ideação das movimentações sociais porque justamente propõem disrupturas e estimulam diálogos agonísticos, intermediados por dispositivos de conversação que evidenciam e evocam ao invés de argumentar e concluir e que encontram formas de enxergar questões por diversos ângulos concomitantemente. A utilização do processo de design como articulador encorajou a contestação como fundamental e nos evidenciou que os ambientes mediados desta forma podem funcionar para promover o reconhecimento de questões e relações políticas, expressar dissensos e tensões e possibilitar reivindicações identitárias e argumentos contestatórios.
Nesta experiência, pudemos evidenciar o entendimento amplamente presente nas teorias feministas de que a agência toma forma em contextos concretos, em redes de relações que não permitem considerar os indivíduos isoladamente e de maneira abstrata. Do mesmo modo, compreendemos que nenhuma análise sobre as desigualdades pode prescindir das diferentes relações sociais como estruturantes dos sistemas de explorações e opressões. Principalmente em ambientes formativos, não devemos negar as diferenças num intuito moderno de universalizar as experiências e definir, a partir daí, reivindicações para um movimento social tão diverso como o feminismo. Neste processo formativo, foi incontestável a necessidade das diferenças para o debate. É necessário enxergar as diferenças como possibilidades de ação plural e avaliar as interconexões entre afirmações de conhecimento e poder como estímulos à pratica política do sujeito do feminismo.





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* Serpa
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO UERJ. RIO DE JANEIRO, Brasil