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Resumen de ponencia
POLÍTICAS E EXPERIÊNCIAS PÚBLICAS: o movimento hip hop da Ceilândia/DF como "prática das práticas" urbanas

*Janaina Lopes Pereira Peres
*Luiz Fernando Macedo Bessa
*Rosana De Freitas Boullosa



Cidade é um daqueles objetos de estudo que pode ser assumido por diferentes campos disciplinares, modelando e sendo modelado por diferentes matrizes interpretativas, tais como a economia, o urbanismo, a geografia, entre outras. Ao lado destes percursos mais clássicos de estudo, alguns campos interdisciplinares também começam a assumi-la como objeto, reunindo alguns primeiros esforços. Dentre estes, destacamos o campo interdisciplinar de estudos em políticas públicas, que começa a produzir estudos sobre políticas públicas urbanas, particularmente em referência tanto à chamada sociologia francesa da ação quanto às contribuições pioneiras da primeira geração de filósofos pragmáticos, a partir da assunção de que a cidade é o êxito de processos de construção de público e de seus problemas, por meio das suas práticas de uso. E é justamente neste novo movimento que este trabalho se insere.
Inserida no escopo de outra pesquisa, mais ampla, que desenvolve um olhar pós-pragmatista para o estudo da política urbana, a partir do campo de estudo das políticas públicas (no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sociedade e Cooperação Internacional - PPGDSCI/CEAM/UnB e no Grupo de Pesquisa "Processos de Inovação e Aprendizagem em Políticas Públicas e Gestão Social" (GPP/FACE/UnB)), em um movimento crítico, sobretudo, às abordagens dominantes em tal campo, que assumem a ação (racional e linear) dos governos (ou dos atores dotados de poder) como objetos centrais de análise. Do ponto de vista ontológico, esta pesquisa considera que políticas públicas vão além do que os governos fazem ou deixam de fazer (DYE, 1972), pois dizem respeito a fluxos multiatoriais de construção de problemas e preservação de bens, ambos no plano da pública relevância.
Seguindo esta direção, o presente trabalho objetiva re-interpretar, a partir de uma nova lente cognitiva, o movimento hip hop da Ceilândia/DF - uma das 31 Regiões Administrativas que conformam o controverso e contraditório território de Brasília -, escolhidos como pano de fundo e locus para tal exercício de construção. Quer-se demonstrar que, ao compreendermos o movimento hip hop como não linear, não homogêneo e não necessariamente projetado/planejado, outras (e talvez novas) possibilidades interpretativas emergem. Embora inspirado pela cidade estabelecida, por realidades já cristalizadas, por cotidianos assumidos como dados, o hip hop parece mais interessado nas cidades possíveis, nas utopias, nas brechas, nas oportunidades de mudança, seja da cidade ou das mentalidades de quem a constrói e de quem é construído, diariamente – e, por vezes, inconscientemente – pelas "quebradas" brasileiras. Entre os espaços cristalizados, é sempre possível encontrar brechas (ou, se necessário, abri-las à picareta): espaços invisibilizados, escondidos, não regulados, não condicionados, a partir dos quais é possível criar - por meio dos usos - outros lugares, que se soprepõem espacial e temporalemtne aos já existentes, em um movimento de produção de contraespacialidades (PERES; BESSA, 2017).
Para isso, adotamos, como pontos de partida teórico-metrodológicos, o pragmatismo americano de John Dewey (e a releitura francesa dessa abordagem); o conceito de arena pública, de Daniel Cefaï (2011); o conceito de práticas, de Pier Luigi Crosta (2009) e a teoria da "mirada ao revés" para o estudo das políticas públicas, desenvolvida por Boullosa (2013). Adotar tal referencial teórico significa criticar as tentativas de despolitização das políticas públicas e a perspectiva estadocêntrica de matriz positivista; significa problematizar a pretensa neutralidade científica atribuída à análise racional das políticas públicas; e significa, sobretudo, assumir, como premissas de pesquisa, que: as políticas públicas são socialmente construídas; podem ser entendidas como processos ou fluxos multiatoriais; acontecem no espaço público, conformando diferentes arenas; e são constituídas de interações múltiplas, quer dizer, de práticas de público (CROSTA, 2009; BOULLOSA, 2013).
Do ponto de vista empírico, esta proposta está alicerçada na observação participante (em palestras, debates, rodas, cursos, oficinas e eventos relativos ao tema) e em entrevistas realizadas com praticantes do movimento hip hop da Ceilândia, que, em suas falas, revelam possibilidades de redesenho das políticas públicas - a partir das margens, das ruas -, em resistência às tendências hegemônicas supracitadas. Não nos interessa, de fato, a discussão sobre o enquadramento ou não do Movimento hip hop em um movimento artístico - ou do rap, do break e do graffiti, considerados individualmente, no repertório de obras de arte. Interessa-nos, por outro lado, seu potencial de construir outras narrativas, outras perspectivas ou caminhos interpretativos (PERES; BESSA, 2017).
Assim, os resultados parciais desta pesquisa apontam, justamente, para tais potencialidades: potencial de ressignificação dos lugares; potencial, embora fragmentado e difuso, de transformação dos "fazeres" e "saberes" coletivos e artísticos em "saberes" e "fazeres" políticos. Trata-se de uma interpretação que busca valorizar as estéticas – que às vezes desagradam - impostas pelo movimento hip hop e que se reforça a partir dos dizeres de Dewey (1998, p. 291), quando afirma que "a função da arte sempre foi quebrar a crosta da consciência convencionalizada e rotineira. Coisas comuns, uma flor, um brilho do luar, o canto de um pássaro, não coisas raras e remotas, são meios com os quais os níveis mais profundos da vida são tocados para que surjam como desejo e pensamento".
Por fim, esta nova lente parece revelar que a “garantia de permanência” talvez não seja mais uma prerrogativa passível de ser atribuída às coisas (à arte, à cidade, às políticas, etc.), pois, em função de seu caráter (cada vez mais) público, as coisas estão em constante transformação – são moldadas por coletividades que tem a liberdade e os instrumentos para alterá-la continuamente: nesse sentido, a coisa viva e a experiência conjunta ganham relevo como potenciais instrumentos de transformação e chamam atenção para o fato de que política pública não é apenas o que o governo faz, mas o que todos nós fazemos.




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* Lopes Pereira Peres
Universidade de Brasília - UnB. Brasília, Brasil

* Macedo Bessa
Universidade de Brasília - UnB. Brasília, Brasil

* De Freitas Boullosa
Universidade de Brasília - UnB. Brasília, Brasil