Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Percepções de Gênero: Campo das Universidades Públicas Paulistas no Brasil

*Gabriela Boechat



A desigualdade de gênero subsiste em várias instâncias da sociedade, sendo uma delas a academia. Nas últimas décadas, foi possível constatar diversos progressos na questão de igualdade de gênero na área da educação no Brasil, sendo um dos mais notáveis a entrada massiva de mulheres no ensino superior. Entretanto, a entrada tardia das mulheres nas universidades, espaços antigamente considerados masculinos, traz inúmeras consequências até hoje.
Atualmente no Brasil, depois de um avanço extraordinário, as mulheres são maioria nos cursos superiores, como é possível observar nos dados do Censo da Educação Superior, de 2016, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), que apresentou que a representação feminina nos cursos superiores é de 57,2%.
No entanto, análises mais profundas mostram que a desigualdade em âmbito acadêmico permanece, de uma forma mais invisibilizada. Estudos mostram que há dois princípios de segregação por sexo: um, partindo de uma concentração horizontal, em que as mulheres estão concentradas em determinadas áreas e dois, uma concentração vertical, em que se encontram em menor proporção nas posições mais prestigiadas na carreira científica.
Este trabalho se concentra em analisar a segregação horizontal das mulheres, que estão concentradas em determinadas áreas do conhecimento, ligados à saúde e às humanidades. Analisando os dados das universidades públicas do Estado de São Paulo, é possível constatar a discrepância entre as áreas.
É possível notar, utilizando o ano de 2015, que há uma diferença importante no número de homens e mulheres na totalidade dos alunos de graduação nas universidades públicas no Estado de São Paulo. Ao observar a Universidade Federal do ABC (UFABC), situada no município de Santo André e São Bernardo do Campo, é significativo que ela tenha apenas 30,34% de mulheres em seu corpo discente. Isso porque ao analisar o perfil da universidade, percebe-se que há uma maior quantidade de cursos voltados às engenharias, ciências exatas e tecnológicas, áreas tradicionalmente masculinas.
A UFABC tem somente dois cursos de ingresso, o Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BC&T) e o Bacharelado em Ciência e Humanidades (BC&H). Ao analisar a relação de gênero nos dois cursos separadamente, é possível perceber, de fato, a concentração feminina. No BC&T, curso no qual se encontram as engenharias e as ciências exatas, em 2015, as mulheres eram somente 29,27%. No BC&H, curso em que se encontram os bacharelados em humanidades e ciências sociais aplicadas, as mulheres ainda são minoria, 40,45%, mas já estão mais próximas em equidade de números do que as mulheres do BC&T. Esse dado reflete, que apesar das mulheres estarem concentradas na área de humanidades, os homens são predominantes também nas áreas de ciências sociais aplicadas.
No entanto, a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com diversos campus localizados no Estado de São Paulo (São Paulo, Diadema, Guarulhos, Osasco, São José dos Campos e Baixada Paulista) teve em seu corpo discente 58,55% de mulheres. Analisando novamente o perfil da universidade, é possível verificar que há uma tradição da mesma na área da saúde, ciências biológicas e humanidades, que são mais associadas à lógica do “cuidado” e do “ensino” e, portanto, femininas. A UNIFESP, ao contrário da UFABC, tem diversos cursos de ingresso. Separando-os por grandes áreas de conhecimento (exatas, humanidades e biológicas), é possível ver ainda mais claramente como as mulheres estão concentradas em certos cursos.
Na área de exatas, a UNIFESP conta com somente 13 cursos. Nesses, apenas 43,48% são mulheres, taxa mais baixa em comparação às outras grandes áreas. Na área de humanidades, que conta com 30 cursos, as mulheres são 59,01%, sendo a grande maioria. E, por fim, a área de tradição da UNIFESP, de ciências biológicas, conta com a presença massiva de mulheres: 68,31% em 18 cursos.
Além da UFABC e da UNIFESP, que são os dois extremos da comparação, em que a UFABC pode ser considerada a universidade mais masculina e a UNIFESP pode ser considerada a universidade mais feminina, ainda há outras instituições presentes que contribuem com o debate, tal qual a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Campinas (UNICAMP), a Universidade Estadual Paulista (UNESP) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O objetivo deste trabalho é demonstrar como a segregação horizontal está presente em todos os cursos fornecidos pelas universidades, destacando os números totais do sexo masculino e feminino nas instituições públicas paulistas e depois analisando-os com base nas grandes áreas de conhecimento, que demonstram mais claramente a concentração dos gêneros em determinadas áreas.




......................

* Boechat
Fundação Universidade Federal do ABC UFABC. São Bernardo do Campo, Brasil