Resumen de ponencia
Racismo de estado e resistência: o homicídio dos jovens negros e a narrativa "das que ficam"
*Andressa Das Neves Teixeira
A presente proposta de trabalho está inspirada no meu projeto de dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tal projeto trabalha com dimensões relacionadas a gênero e raça, focando nos efeitos “indiretos” do que os movimentos negros do Brasil têm chamado de “genocídio da juventude negra”. Tal ideia de genocídio está associada ao perfil que dados sobre mortalidade permitem traçar sobre as vítimas de homicídios no País. Segundo o estudo “Os jovens do Brasil: mapa da violência 2014” a face dessas vítimas no Brasil é de homens jovens negros: a publicação, que utiliza dados de 2012, mostra que cerca de 53% das vítimas eram jovens e destes jovens 77% eram negros e 93% eram homens. Esse mesmo perfil se observa nas “mortes decorrentes de intervenção policial”: de acordo com o infográfico “Segurança Pública em Números 2017” formulada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2016 ocorreram no País 4.224 mortes causadas por policiais civis e por policiais militares em serviço e fora de serviço e 99,3% dessas vítimas eram homens, 81,8% tinham entre 12 e 29 anos e 76,2% eram negros.
Estudos na área da saúde, como Psicologia e Saúde Coletiva, destacam que é insuficiente que as investigações se concentrem apenas nas vítimas diretas ao interpretarem homicídios como fatos que não são pontuais, mas acontecimentos que reverberam na vida daqueles que formavam parte do círculo social da vítima e no território no qual ela estava inserida. Luciane Rocha no seu artigo intitulado “Black mothers’ experiences of violence in Rio de Janeiro” se utiliza deste pressuposto e o complementa sustentando a importância de voltar o olhar às mulheres negras ao afirmar que ainda que os homens negros sejam as principais vítimas de mortes violentas, são as mulheres negras que vivem as experienciam as consequências desta violência.
Compreendo os homicídios dos jovens negros a partir do que Veena Das propõe como “evento crítico”- no capítulo “The Act of Witnessing” do livro “Life and Words”, por exemplo, analisa o processo de partição da Índia da década de 1940 como evento crítico, retomando a biografia de Asha. Para a autora, eventos críticos são acontecimentos que geram um impacto no dia-a-dia dos indivíduos. É relevante utilizar-se desta noção neste estudo, pois Das sustenta que para compreender tais contextos é necessário fazer um “descenso ao cotidiano”. É nele que se perceberá como as pessoas respondem a estes tipos de acontecimentos. Esse olhar ao diário permite identificar as condições de possibilidade de resistência, o que se relaciona com o que James C. Scott – em “Formas cotidianas da resistência camponesa” - propõe como “resistência cotidiana”, visto que é uma categoria que interpreta ações que num primeiro momento são vistas como meramente individuais como algo digno de investigação.
Desse modo, tenho como objetivo analisar a narrativa de mulheres negras familiares e companheiras de jovens negros (15 a 29 anos) vítimas de homicídio em Porto Alegre (a quinta capital brasileira com maior taxa de homicídios de jovens negros). A partir da narrativa dessas mulheres, que chamo de “as que ficam”, buscarei observar seus possíveis processos de resistência e como reorganizam suas vidas após a perda.
Respondendo a sugestões concedidas pela banca na defesa deste projeto e tendo o modo de fazer o “descenso ao cotidiano” adotado por Das como inspiração, optou-se a nível metodológico coletar a narrativa de poucas mulheres: duas ou três. Serão escolhidas mulheres não muito jovens, que já tenham perdido seu companheiro ou familiar há um número considerável de anos que permita apreender como elas têm se reorganizado e interpretado sua perda. Essa decisão permite que se faça um trabalho de coleta e análise de dados mais detalhados, assim como se compromete a não fazer do trabalho acadêmico algo que sirva como “gatilho” e gere mais sofrimento às mulheres que são os sujeitos desta pesquisa.
Diante de todos os aspectos mencionados anteriormente, resta apresentar o problema de pesquisa nas seguintes indagações: Como “as que ficam” se reorganizam após o homicídio do jovem negro? Como dão significado e tal evento crítico e, a partir dele, como dão seguimento às suas vidas?