Resumen de ponencia
“Eu não tenho nenhuma pergunta, nenhuma dúvida que seja na minha mente sobre a minha humanidade ou a humanidade do meu povo”. Direito, memória e narrativa a partir da perspectiva de Chinua Achebe.
*Katarina Kristie Martins Lopes Gabilan
*Luciana Madeira Caetano
*Willian Felipe Martins Costa
Esta comunicação tem como objetivo apresentar algumas das reflexões resultantes das discussões realizadas no âmbito do desenvolvimento de uma pesquisa que tem como foco central a narrativa literária do escritor africano, de origem nigeriana, Achebe Albert Chinualumogu Achebe (1930-2013). Nascido no contexto de dominação inglesa, desde da sua escolarização inicial teve uma educação nos moldes ocidentais, ao mesmo tempo que experienciava a cultura Igbo, seu grupo étnico, localizado ao sudeste da Nigéria. No contexto do processo de independência deste país africano, o autor produziu três obras (Things Fall Apart/O Mundo se Despedaça (1959), No Longer At Ease/A paz dura pouco (1960) e Arrow Of God/A flecha de deus (1964)) que versam, entre outras coisas, sobre o seu olhar acerca do mundo Ibo e os impactos do colonialismo na região. Desenvolvida no âmbito do AYA - Laboratório de estudos Pós-coloniais e Decoloniais na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), a pesquisa tem como objetivo central, compreender o colonialismo a partir da perspectiva da literatura africana. De acordo com Achille Mbembe, historiador africano de origem camaronesa, com a modernidade, se cria com a expansão do projeto europeu, uma maneira de olhar o mundo partindo da Europa, onde esta “pequena província do planeta”, se inscreve numa posição de comando sobre o mundo, surgindo ao longo do século XVIII diversas produções discursivas e representativas nos mais diversos âmbitos, como o das ciências humanas e biológicas, que criam sobre África o que Mbembe vai chamar de “o poço de alucinação”. Como consequência da modernidade, se inventa o Outro desumanizado, essencializado e estereotipado. É neste contexto que para se requerer ter acesso aos direitos humanos é necessário primeiramente ter o estatuto de humanidade. A modernidade, enquanto construção do ideário do mundo, em que se autoproclama como modelo padrão de ser e estar no mundo constrói o modelo de humanidade: o europeu, branco e ocidentalizado e, como consequência, classifica e subjuga os outros negando-lhes a humanidade. Em contrapartida, sujeitos provenientes desse outro lugar, em suas lutas cotidianas, vivências e experiências, vêm construindo pensamentos, críticas, posicionamentos e formas de ser e estar no mundo que colocam em cheque a colonialidade e denunciam as formas de opressão derivadas desta. Em especial, no que concerne as reflexões desta pesquisa em andamento, os(as) autores(as) que dialogamos, inseridos no campo dos estudos pós-coloniais e decoloniais, têm exigido o seu direito a memória e as narrativas próprias a partir de seus lugares de enunciação. E é neste diálogo que procedemos a análise da documentação histórica (escrita literária de Achebe, entrevistas e biografias do autor) com o objetivo de problematizar a produção do conhecimento histórico sobre as Áfricas discutindo a partir da crítica de Chinua Achebe e de sua leitura acerca do discurso único surgido na modernidade e colocado em prática pelo poder colonial. A partir da obra que iremos investigar, A Flecha de deus (1964), Achebe utiliza do aporte da literatura para questionar e desmistificar um vasto arsenal de imagens depreciativas sobre África. Ao se contrapor às perspectivas hegemônicas, reivindica assim, em sua literatura o direito à memória e o direito de narrar sua própria história, ou melhor do seu coletivo, experienciado na sua formação, durante a infância, essa capacidade de criação da memória, ou sua narração a outras partes do globo, que foram violentados pela modernidade. Achebe defende que a partir da literatura é possível construir possibilidades de construção de um “equilíbrio das histórias”: diante de uma história que você não concorda ou que não te representa é preciso contar outra que a contraponha. Sugerimos, ainda, que a literatura de Achebe possibilita a construção de empatia na promoção dos direitos humanos, pois dada sua intenção de construir uma narrativa nem idílica, nem inferiorizada das populações africanas, acaba por evidenciar suas experiências enquanto pessoas, inseridas em seus tempos e espaços. A narrativa de Achebe, se constitui de um lócus de expressão de histórias, de lutas e de memórias que possibilitam deslocar os conhecimentos eurocentrados e coloniais, envolvendo personagens, enredos e memórias, criando-se possibilidades de se compreender diferentes formas de ser e estar no mundo e de se fugir dos perigos de uma história única.