O texto que apresentaremos à 8ª Conferência Latinoamericana e Caribeña de Ciências Sociais visa promover o debate e reflexões sobre os impactos da internacionalização da educação superior, em tempos de crise e globalização uniformizante, com o fim de analisar as tendências de reconfiguração dos sistemas e políticas nacionais na América Latina e prefigurar a dinâmica tendencial da geopolítica do conhecimento no mundo contemporâneo. A problemática da internacionalização da educação superior está na ordem do dia dos sistemas e das políticas para esse nível de ensino, seja por força das avaliações propostas pelas agências nacionais, seja por exigências dos organismos multilaterais que disseminam critérios e procedimentos de regulação, pesquisas e análises simbólicas que as justifique, casos do Banco Mundial (BM), da Organização Mundial do Comércio (OMC), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), da União Europeia, UNESCO e outras entidades reguladoras. Nesse passo, promovem, mais do que dinâmicas de internacionalização, uma verdadeira transnacionalização, dado o caráter de receita universal para uma educação mundial lastreada nas necessidades do sistema de acumulação do capital. No grupo de discussão que promovemos analisaremos também os fundamentos epistemológicos hegemónicos das políticas de educação para a educação superior, de influência europeia e estadunidense, suscitando o debate sobre novos fundamentos, de caráter contra-hegemónico, que tenham em vista políticas de educação superior que promovam uma democratização profunda e radical das instituições de educação superior e a decolonialidade das estruturas dominantes de poder e micro-poder nessas mesmas instituições. Estas sempre atuaram sob o ânimo da internacionalidade, especialmente no que respeita à pesquisa docente e institucional e ao intercâmbio de estudantes e professores. No entanto, no contexto de uma ordem econômica e política que prima por reafirmar sua universalidade, sob os imperativos do fenômeno da globalização hegemônica, conduzida pelos macroprocessos econômicos de natureza transnacional e pautadas nos sistemas classificatórios, formatados em rankings, as universidades parece não terem outra saída senão internacionalizar-se. E, assim, tendem a fazê-lo nos padrões hegemônicos advindos da ordem econômica e política mundiais, o que significa transnacionalizar-se de acordo com um modelo epistemológico e cultural dominante. Isso implica o envolvimento dessas instituições em redes transnacionais de pesquisa que congregam uma multiplicidade de países dos diversos continentes ou pela mobilidade de docentes e estudantes, sobretudo de doutorado, num movimento que, para a América Latina, assim como para outras áreas periféricas do sistema-mundo, se comporta no sentido Sul-Norte (metáfora utilizada para reafirmar a hegemonia de uma geopolítica dominante) e impele à reprodução de uma desigual geopolítica do conhecimento. Por outro lado, as exigências de produtividade acadêmica obrigam a que os pesquisadores publiquem os resultados das suas pesquisas em revistas indexadas e com fator de impacto, de preferência em língua inglesa, considerada a língua da ciência. Entre outras questões que se colocam, essa política pode ser questionada pelo fato de facilmente conduzir ao produtivismo e à superiorização dos países ocidentais relativamente aos chamados países do Sul (metáfora geográfica para uma classificação política), emergentes ou periféricos. Nessa linha de raciocínio, as perspectivas de vigência de um conhecimento produzido no Sul que possa afirmar sua dignidade epistemológica e dialogar com o conhecimento ocidental e com todas as formas de conhecimento são cada vez menores, levando à manutenção de uma geopolítica do conhecimento homogeneizadora, imperial e colonial que concentra a produção do conhecimento nos países do capitalismo desenvolvido e submete os países periféricos– em especial os que foram colonizados – a um processo violento de neocolonização intelectual e acadêmica. Exige-se um processo de decolonialidade, indissociável da promoção da interculturalidade crítica e da dissolução das estruturas de dominação colonial inerentes às instituições de ensino e educação superior tendo em vista a inclusão dos povos e populações historicamente marginalizados e subalternizados e a desejável promoção de um diálogo intercultural e inter-epistémico.