O conhecimento e valorização da história e cultura dos povos afrodescendentes, dos africanos e dos povos indígenas possibilita a desconstrução de preconceitos, sendo de suma importância para a construção da nação. Neste sentido, os diálogos entre educação e insurgências da população negra no Brasil pode colaborar para a construção de pensamentos outros para o que o aluno compreenda o sentido do respeito, reconhecimento, valorização, convívio construtivo (SILVA, 2014), sendo possível por exemplo combater o racismo nas escolas, que não diferente de outras instituições, marca as relações entre as pessoas. (SILVA, 2014).
Ao considerarmos tais aspectos, foi crucial considerarmos recompor uma agenda de pesquisa com foco nas narrativas contra-hegemônicas de educação.
A Lei no10.639/2003, cuja promulgação completará quinze anos em 2018, é uma das políticas públicas proposta pelo Movimento Negro, em diferentes momentos do século XX, que impactaram a realidade educacional. Neste sentido, compreende-se que demandas como sustentabilidade e produção das diferenças, desigualdades e diversidade, etc., foram impulsionadas não pelo Estado para a sociedade, mas pelos movimentos sociais, bem como coletivos sociais diversos (GOMES, 2017).
Neste sentido, o diálogo entre educação e insurgências da população negra no Brasil é de suma importância, uma vez que será dado protagonismo a um povo historicamente subalternizado e invisibilizado, uma vez que sua história na maioria dos casos não é contada, dificultando a construção de saberes para além de uma perspectiva colonial.
Quanto a decolonialiedade, Walsh afirma que implica partir da desumanização e considerar as lutas dos povos historicamente subalternizados pela existência, para a construção de outros modos de viver, de poder e de saber. Desta forma o conceito seria visibilizar as lutas contra a colonialidade.
As insurgências trazem para nós a possibilidade de um pensamento decolonial.
O Brasil é conhecidamente o país com a maior população negra fora da continente africano. Segundo o IBGE, com base nos dados sobre moradores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2016, 54,9% foram autodeclarados pretos ou pardos. No entanto, dentro desse contingente significativo de negros e negras existentes no país, ainda é um número pequeno que conhece e se apropria de sua própria história e cultura.
O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, dentre todos os países que se beneficiaram do tráfico de africanos no mundo. Diante disto, a integração de elementos da cultura trazida de vários povos daquele continente foi assimilada por aqui, sendo a cultura negra um dos pilares da produção cultural, pedagógica, filosófica e também científica do país.
Pesquisadores que dedicaram aos temas da insurgência, identificaram que no Brasil, os africanos deixaram fortes traços de sua identidade na religião, na história, nas tradições, etc. Esses traços, recriados pelos afro-brasileiros são o que melhor define a identidade nacional.(Lopes, 2008)
No entanto, por viver em um país que tem em seu âmago o racismo ainda profundamente enraizado, a grandiosidade dos feitos de seus ancestrais mantém-se invisibilizada e despercebida por grande parte dos brasileiros. Trazendo prejuízos especialmente para a população negra, que permanece, involuntariamente, ignorando a própria história.
Muito fomentado, alimentado e difundido pelos mais diversos meios culturais, midiáticos, pedagógicos, entre outros, o racismo atua como elemento enfraquecedor e desarticulador da comunidade negra brasileira. Absorvendo uma postura de autonegação e auto ódio, o negro/a brasileiro, numa tentativa de impactar-se menos com o racismo (direto e/ou estrutural) passa a rejeitar sua própria cultura, com intuito de ser acolhido pela cultura branca/europeia e, desta forma, conseguir ocupar lugares e conceitos mais valorizados socialmente. A desumanização provocada pelo racismo acaba por provocar uma perda de identidade do indivíduo negro, que vai além da simples negação. Muitos negros, apesar da tonalidade da pele, não conseguem identificar-se como negros, enxergam-se distanciados de qualquer elemento étnico, cultural ou histórico que tenha a ver com sua ancestralidade africana.
Convém ressaltar que, no período escravista brasileiro, diversos grupos étnicos foram traficados do continente africano e trazidos para o país. Dentre eles, os Malês e os Bantos ocupam certa posição de destaque por terem sido as etnias mais comercializadas pelos portugueses. Eram denominados Malês todos os negros trazidos da África que provinham de cultura islâmica. Esses indivíduos vinham de etnias que dominavam o árabe e seguiam o alcorão. De acordo com Nei Lopes, esse islamismo foi que criou a mítica do negro altivo, insolente, insubmisso e revoltoso.
Outrossim, conhecimentos estratégico-pedagógicos foram utilizados também por povos de etnia Banto para se organizar e combater a escravidão. Essas outras formas de insurgir foram responsáveis pela mais significativas formas de introjeção da cultura negra no país, conforme infere Sandra Haydée Petit.
Em 1889, período de pós-abolição, as irmandades, grêmios, clubes e associações foram os principais movimentos insurgentes dos negros ex-escravos e seus descendentes . Tinham como principal com objetivo garantir a sobrevivência de uma população, agora, marginalizada. A Irmandade dos Homens Pretos, em Salvador, é uma das mais antigas que se tem registro no Brasil, fundada em 1685, ganhando status de terceira ordem em julho de 1899. Outros grupos de negros surgiram pelo Brasil diante a situação de vulnerabilidade social desses indivíduos, conforme aponta Domingues.
Importante destacar que, em que pese o letramento banto tenha ocorrido de maneira distinta à dos malês, aquele foi de suma importância para a articulação daquele povo, sendo capaz de produzir resultado eficaz na insurgência em questão.
Assim, as insurgências elencadas mostram que articulações e pedagogias outras, dentro de uma perspectiva afrocentrada, são possíveis. As mentes estão contaminadas pelas vertentes eurocêntricas, dos seus racionalismos e cartesianismos que apregoam nas formações acadêmicas a incapacidade africana e ensinam com desenvoltura o “saber” desenvolvido no mundo ocidental branco.