O artigo proposto tem como motivação compreender quais são as razões para as diferentes configurações da violência letal contra as mulheres negras com relação as não negras no Brasil na última década e justificativa desta pesquisa consiste em contribuir para a discussão com a devida importância da temática e a construção de campo de pesquisa, aonde os feminicídios vão para além do mundo privado, fruto da violência doméstica e vão para o espaço público. A análise sobre o feminicídio é um tema latente na sociedade contemporânea, bem como a questão do debate com o recorte racial. Tal recorte analítico é pouco trabalhado nas Ciências Sociais, por tal motivo contempla o campo de estudos.
Este trabalho utilizará, num primeiro momento, como autores basilares na parte bibliográfica teórica sobre violência de gênero como Heleieth Saffioti (1995) onde a violência de gênero se caracteriza por ser cometida no âmbito de relações privadas e familiares. No refere o debate racial, apresento as reflexões sobre o “[i]nvisível e o visível”, com as obras de DuBois (1999) e Franz Fannon (1952). Eu início com a metáfora do “véu”, ou seja, o Invisível. Tal metáfora simboliza a separação de dois mundos, o negro e o branco. O primeiro nos apresenta que o “Negro” deveria adotar sua condição e não continuar se sujeitando aos olhares opressores, olhares esses desenvolvidos desde o processo da escravidão. Uma vez apresentada o lugar da invisibilidade na obra de Du Bois, o presente trabalho estará em diálogo com a produção sobre a visibilidade do negro apresentada por Frantz Fanon, em Pele negra, máscaras brancas (1952). Nesta obra, Fanon constrói a hipótese de que a alma negra é uma “criação de brancos”, sendo o preconceito de cor um fenômeno superestrutural na sociedade. Na mesma obra, o autor não enfoca unicamente seu estudo sobre o racismo em relação ao Negro, mas deixa nítida sua rejeição contra todas as formas de preconceito e explora¬ção, “[t]odas as formas de exploração são idênticas, pois todas elas se destinam a um mesmo ‘objeto’: o homem.” (FANON, 1983, p. 75).
Achille Mbembe na obra Crítica da razão negra(2014) apresenta a elaboração sobre o conceito de “Negro”, onde inicia por fazer um arranjo entre o conceito de “Negro” como imagem de uma experiência subalterna, com sua humanidade negada, para uma condição comum, ou seja, universal. Neste sentido, todos seriamos “Negros” subjugados no sistema neoliberal e pelos seus novos modelos de exploração e submissão. O autor mantém atualizado a análise da condição econômica na percepção da questão racial, vendo-as como indissociáveis: a subjugação do ser “Negro” e a exploração no sistema capitalista. Mbembe apresenta ainda como, desde a colonização o conceito de escravo confunde-se com o de “Negro”, que em um certo momento, tornam-se iguais. O racismo ter-se-ia, assim, desenvolvido com exemplo legitimador da opressão e da exploração, ao serviço do capitalismo, o qual carecia de pressupostos raciais para sua existência.
Nesta tensão dialética entre o debate sobre gênero, apresentada por Scott (1994/95) e Bourdieu (1999); o conceito de violência, apresentado por Adorno (2002) e Misse (2006); e o debate sobre o recorte racial apresentado por DuBois (1999), Fannon (1952) e Mbembe (2014); importantes para nossa reflexão, apresento o conceito de interseccionalidades para trazer possíveis diálogos sobre gênero e raça para com o fenômeno da violência letal contra as mulheres negras, em nosso caso, o crime de feminicídio.
O conceito de interseccionalidades cunhado por Kimberle Crenshaw (1991), em sua obra Mapping the margins: intersectionality, identity politics, and violence against women of color, nos apresenta um tema relevante para as ciências sociais e para o objeto de pesquisa desenvolvido: a perspectiva das interseccionalidades, sobretudo da raça e do gênero. Tal perspectiva busca contemplar com mais atenção a complexidade das identidades por meio de um olhar para além do reconhecimento da sua multiplicidade dos códigos de opressão sobre as categorias acima citadas, mas constata, em sua análise, o processo de produção e reprodução das desigualdades sociais. Neste texto, a autora apresenta temas fundamentais para análise do objeto dessa tese, o primeiro versa sobre a organização das mulheres negras nas últimas décadas do século XX contra as inúmeras violências sofridas, tais violações que anteriormente eram tratadas como algo do privado, ganham na atualidade a esfera pública. O segundo ponto da análise, versa sobre a articulação do racismo e do patriarcado como formas de dominação que afeta diretamente as mulheres negras.