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Resumen de ponencia
A aproprição do RAP e seu modo de crítica (periférica) às desigualdades no Brasil.

*Edilene Macedo De Lima



O presente artigo tem por finalidade tratar a expressão musical RAP (rythm and poetry: ritmo e poesia), analisando para tal o contexto de imersão do mesmo no DF e suas transformações ao longo dos anos 1980 e início dos anos 1990, até o presente momento.
A partir do conceito de habitus em Pierre Bourdieu, revisitado por Jessé de Souza, busca-se compreender os espaços que o estilo musical RAP ocupa nas dimensões socioculturais brasileiras. Além do mais são analisadas as características pelas quais o RAP é comumente associado à marginalidade e a determinados grupos ou classes sociais, fazendo com que este estilo musical seja fortemente discriminado. A linguagem, para tanto, é um pressuposto de análise que aparece como uma expressão prática e contextualizada de uma ação social, devendo também ser objeto de nossa interpretação sociológica.
Um ponto crucial a que se deve atentar no que diz respeito ao estilo musical rap é a busca do reconhecimento por parte de quem o faz e o integra. O rap é visto como uma ferramenta discursiva que circunscreve em sua dinâmica a oposição entre o centro e a periferia. Baseando-se na vivência urbana de quem o compõe, ele retrata a realidade dos espaços geográficos e político-sociais nas quais os seus compositores estão inseridos.
Por esse motivo, o uso da linguagem para a compreensão da expressão musical rap, nesse artigo, se faz fundamental. Não se busca, porém, ater-se somente a este fenômeno, por muitos considerado um campo de estudo melhor localizado e abordado pela linguística.
Para compreendermos melhor a relação dos elos formados no rap, devemos, portanto, entender de qual maneira ela se dá. Os grupos de rap formados têm como principal objetivo a conscientização por meio das letras de suas músicas. Para tanto, o que se observa é a criação de uma linguagem própria, legitimada pelas pessoas que ouvem e pelas pessoas que fazem o rap, numa clara relação horizontal de comunicação. Não há, para tanto, uma diferença entre público e espectador.
Não é construída a figura de um ídolo, mas sim a de semelhante que retrata nas letras do rap a realidade social vivida, usando a música como uma arma de conscientização e transformação. A partir daí, essa construção só é possível quando, diante das mesmas condições materiais de vida, a interlocução se torna um objeto de ação. Uma das competências do rap é a de fazer com que a comunicação seja, de tal forma, compreensível e principalmente próxima dos seus pares. Nesse sentido, as frases são construídas de uma maneira adequada, prática e consciente da mensagem que se pretende passar.
Assim sendo, não há uma preocupação necessariamente com a gramática e seus termos. O que se busca, em primeiro lugar, é despertar nos manos da periferia a consciência para os aspectos sociais. Para isso, abre-se mão, muitas das vezes, do uso, por assim dizer, “correto” da gramática. Nesse sentido, por exemplo, as letras do rap são vistas por muitas pessoas como gírias, mas pelas pessoas para quem o rap é voltado e por quem o rap é composto, a linguagem é considerada um dialeto. Nesse sentido, a compreensão depende de uma forma particular que só existe em determinado contexto, pois parte-se do princípio de que a compreensão não atribui apenas um reconhecimento com sentido invariante, tendo, então, que estar integrado à determinada situação para que o sentido seja captado. Desse modo, as palavras por si só não possuem uma existência – a não ser no dicionário – se não estiverem mergulhadas numa simbologia que se caracterize pela prática, sob pena de passarem despercebidas.
Quando se analisa as letras do rap, por exemplo, em que termos tais como “arma”, “arsenal”, “substância venenosa”, entre outras expressões, são empregados não no seu sentido bélico, mas, antes, visando conotar o oposto daquilo que se espera de um indivíduo da periferia: violência, criminalidade, associação com drogas e uso de armas bélicas, a palavra expropriada pelos compositores do rap e ressignificada passa, então, a ser usada como uma ferramenta de conscientização e, ao mesmo tempo, de proteção para as condições marginalizadas dos moradores da periferia. Percebe-se que qualquer outra pessoa que não faça parte daquele contexto social terá mais dificuldade para apreender o sentido contextualizado da palavra, ou não saberá empregá-la na compreensão daquilo que se busca emitir.
Usam-se as letras das músicas com uma linguagem contextual, atrelada ao morador da periferia que diariamente sofre com a escassez de recursos básicos gerados pela desigualdade social. A consciência, então, é a blindagem necessária para não cair na armadilha do sistema. Por isso é tida como uma arma de proteção social e, ao mesmo tempo, de ataque dos moradores da periferia.
É nesse sentido que os autores do RAP formulam uma linguagem em suas músicas que, considerando que ocupam os mesmo espaços e partilham das mesmas condições materiais dos jovens da periferia, desenvolvem uma forma de diálogo mais próxima das pessoas que fazem parte desse cotidiano. Por esse motivo, torna-se mais fácil a compreensão da mensagem que se pretende compartilhar, produzindo espaços de reflexão. A linguagem é importante porque reconhece o outro e, a partir disso, o agrega em contextos político e econômico. É uma linguagem própria desenvolvida para formar e consolidar elos entre seus pares. Aquilo que é entendido como gíria pelas pessoas descontextualizadas, pode ser interpretado, na verdade, como um dialeto. Essa apropriação crítica das palavras constitutiva desse dialeto é tida, portanto, como uma ferramenta de conscientização.




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* Lima
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia da UnB. Universidade de Brasilia - PGSOL/UnB. Brasilia/ DF, Brasil