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Resumen de ponencia
A Instalação de Empresas Brasileiras na África entre 1970 e 1985

*Camila Castro Kowalski



Este trabalho constitui parte de uma pesquisa de Doutorado acerca da internacionalização das empresas brasileiras para o continente africano. A proposta é avaliar o primeiro momento do impulso à internacionalização, entre 1974 e 1984, de modo a buscar compreender o papel do Estado brasileiro neste processo e a forma como os interesses empresariais podem ter influenciado a aproximação com o continente africano. Por outro lado, busca-se com este trabalho desmistificar a ideia de que a instalação de empresas brasileiras no continente africano teria sido um processo recente.

O foco no continente africano decorre do fato de que as relações do Brasil com a África seguiram de modo relativamente concertado as tendências da política externa brasileira como um todo. Isto é, nos momentos de maior “alinhamento” aos Estados Unidos, o continente africano foi, em larga medida, negligenciado. Entretanto, nos períodos marcados pela tentativa de diversificação e criação de coalizões para reformar o sistema internacional, a África foi vista como parceira estratégica. Além disso, no caso específico do recorte temporal proposto, entre 1970 e 1984 o comércio do Brasil com a África aumentou em 23 vezes (partindo de US$ 130 milhões e superando os US$ 3 bilhões). Por se tratar de um espaço em que a inserção brasileira depende de uma certa vontade e articulação política, o continente africano oferece uma rica oportunidade de estudo da relação entre o Estado e o setor privado brasileiro.

Os avanços nos sistemas de transportes, a digitalização da indústria financeira, a padronização técnico-científica e o aprofundamento do capitalismo intensificaram as trocas comerciais entre Estados-nações durante o século XX, levando a um nível sem precedentes de interconexão. Neste contexto, multiplicaram-se empresas com operações em diversos Estados. A princípio, foram sobretudo os negócios de países da América do Norte e da Europa Ocidental que lideraram o processo de internacionalização. Seu interesse era distribuir a produção entre localidades que oferecessem recursos naturais e/ou mão de obra a baixo custo. Contudo, a instalação destas empresas em outros países mostrou-se vantajosa também para o governo e população dos seus Estados originários, tanto por criar um comércio regular intra-firma (garantindo assim um fluxo de exportações da sede para as filiais), quanto pelas remessas de lucros e pelo poder de barganha que asseguravam ao governo da sua matriz. “[Em] uma economia globalizada, a competitividade das firmas nacionais em mercados estrangeiros torna-se crescentemente importante para a performance do país como um todo” (ALÉM & MADEIRA, 2010, p. 42).


Progressivamente, buscando os benefícios que tais empreendimentos poderiam trazer, os países em desenvolvimento passaram também a estimular a internacionalização. Ao fortalecer suas empresas em nível mundial, evitavam que fossem compradas por outros Estados e reduziam sua vulnerabilidade externa. Além disso, viabilizavam a exportação de serviços (e não apenas produtos), fomentando trocas que ultrapassavam as restrições do comércio tradicional. O aumento do espaço ocupado pelos países em desenvolvimento enquanto investidores não significa que tenham deixado de ser destino da inversão estrangeira. Esta espécie de “dualidade” é característica e, no caso brasileiro, é muito marcante. Embora no Brasil haja enorme quantidade de mão de obra desqualificada e barata, o que estimula a instalação de multinacionais estrangeiras no país, há também empresas nacionais inovadoras, que contam com serviços e tecnologia de ponta e geram interesse por parte de outros Estados. Assim, apesar de ser receptor de IED, o Brasil responde pela metade de todo o investimento realizado por empresas latino-americanas fora dos seus respectivos países e é o único Estado da região a dispor de investimento significativo fora das Américas (DANIELS et al, 2007).

A escolha pelo Brasil se deu pelo fato de que a instalação de empresas fora do continente americano é uma característica peculiar deste em relação aos demais países latino-americanos. No caso da África, o primeiro impulso brasileiro para internacionalizar suas empresas em direção ao continente se deu em 1974, durante o Regime Militar, sob o governo Ernesto Geisel. Assim, para esta proposta, tomaremos o ano de 1974 como ponto de partida e estenderemos nossa pesquisa de modo a abarcar também o governo seguinte, liderado por João Figueiredo, o último governante militar brasileiro do século XX.




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* Castro Kowalski
Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. Porto Alegre, Brasil