Primeiramente, é necessária a ressalva sobre o estágio da presente pesquisa. O desafio de buscar confluir os estudos da teoria crítica com o olhar genealógico sem perder de vista as práticas sociais encontradas na empiria ainda está apenas começando. A intenção é trazer ao debate as questões levantadas no projeto de doutorado que iniciou esse ano. A escolha pelo estudo das práticas policiais se deu pela observação ainda prévia de um possível padrão de atuação em certos conflitos. Principalmente, no que se referem aos conflitos envolvendo questionamentos sobre a institucionalidade.
Os protestos e manifestações públicas de descontentamento com a classe política, com a condução das políticas públicas e de estado se tornaram parte do cotidiano da sociedade brasileira. Esta nova realidade tem causado nós de tensão entre a sociedade civil e o aparato policial. A situação é limítrofe. O estado como representante da institucionalidade tem o dever de intermediar as relações com os movimentos sociais que representam a sociedade civil. O diálogo entre estas esferas é o centro do projeto democrático. Todavia, as fricções ocorridas durante os protestos e manifestações são recorrentes. Sem dúvida, os eventos que trouxeram a luz do grande público esta conflitualidade entre institucionalidade e sociedade civil foi o chamado ciclo de protestos de junho de 2013. Daí surge o tema proposto: estudar a polícia que está sendo posta para mediar estas ações políticas para então repensar a categoria de polícia repressiva/ostensiva dentro de um projeto democrático contemporâneo. Uma questão será perene durante o trabalho a policia que temos é a polícia que queremos? Obviamente, que dentro desta que questão estão imbricadas outras questões suplementares, qual a polícia que temos? E qual é a polícia que queremos? Para trilhar esse caminho recuperaremos os caminhos de transformação da policia ostensiva no brasil (mais especificamente trabalharemos com a Polícia Militar do RS), questionando quais são os discursos que informam suas práticas? Qual é o esquema axiológico de validação destes discursos? Para reconstruirmos um padrão de instituição polícia iremos espelhar os resultados destes questionamentos com os demais. Qual é a relação entre a realidade social brasileira e os padrões normativos de um Estado Democrático de Direito ocidental? E quais são os rumos para uma polícia nova dentro dos padrões brasileiros e possíveis?
Honneth (2009, p.45) afirma que sua defesa do modo clássico de crítica da Escola de Frankfurt depende de alguns pressupostos, o primeiro é a busca por reconstruir a forma ideal da crítica clássica e não se ater a sua execução nos escritos em especifico e o segundo é que sua defesa não está de maneira alguma ratificando os conteúdos materiais da própria teoria social. Pois, em sua opinião, os conceitos básicos histórico-filosóficos e sociológicos da Escola de Frankfurt não podem mais ser defendidos.
Sua reconstrução passa pela inclusão do modelo genealógico não apenas como um surplus ao exercício da crítica. Honneth encontra na genealogia mais um método de produção de conhecimento e uma fonte epistemológica na busca de uma nova fundação para o modelo clássico de crítica.
A genealogia, e por este conceito se refere a tentativa de criticar a ordem social demonstrando historicamente a extensão de quanto dos ideais e normas que definem certa sociedade já legitimam práticas disciplinares e repressivas. Mais a frente o autor vai defender a inserção necessária de um viés genealógico na produção de conhecimento crítico, porém antes de comentar sobre as implicações de tal afirmação, é necessário elucidarmos que conceito é essa genealogia? E quais são as possibilidades que sua utilização pode abrir para a crítica social?
O objetivo principal reside na convivência entre a critica social propositiva da reconstrução com a desconstrução genealógica e sem necessitar de qualquer esforço construtivista. E é esta a tarefa que este estudo pretende cumprir, demonstrar a possibilidade de aliar estas duas abordagens sem se escorar em conceitos construtivistas.O esquema institucional da polícia brasileira é sui generis perante todas as polícias dos demais países. A divisão entre polícia ostensiva e investigativa, a primeira de categoria militar e a segunda dita civil, e a entrada diferenciada na carreira (praças x oficiais e agentes x delegados) é ímpar na constituição dos estados democráticos de direito. Essa separação entre as polícias faz com que a cultura institucional destas, seja muito diferente, o que provoca uma desconfiança mútua (NASCIMENTO, 2008)
As informações obtidas acabam se fragmentando o que facilita a apropriação particularizada, uma vez que não há, necessariamente, uma linha de integração entre as instituições, dificultando o planejamento da segurança pública numa perspectiva global e o controle das atividades institucionais. Até poderia se interpretar a divisão da polícia como algo benéfico ao se considerar a possibilidade de evitar a concentração de poder. Porém, de uma maneira geral, as divisões externas e internas das polícias geram uma insatisfação com a distribuição das atividades e também com os salários, minando a coesão das instituições. (MIRANDA, 2008: NASCIMENTO; 2008)
A produção e reprodução destes conflitos se refletem na atuação policial e na sua relação com a sociedade, comprometendo a circulação de informações, o controle das ações e a qualidade do atendimento oferecido a população. O resultado desta combinação de instituição policial pré-constitucional com um sistema democrático representativo liberal e elitista com certeza contribuem para o distanciamento entre cidadão e estado e mais do que isso contribui para a fricção entre policia e manifestantes que eclodiu mais significativamente em junho de 2013.A trajetória das questões levantadas até agora já desvelam alguns dos desafios que estarão no caminho da construção deste estudo. Um destes desafios é navegar sobre as nuanças do debate da teoria critica que permanece, conscientemente, se alterando e reformulando novas abordagens para uma critica imanente, reconstrutiva, uma reconstrução racional ou normativa. Tais abordagens não necessariamente se superam, mas procuram se colocar em espaços de constante reflexão e por vezes diferenciam-se entre si (REPA, 2016). Para além dos problemas conceituais, o maior desafio da Teoria Crítica, aqui englobando as diversas abordagens mencionadas, é a articulação produtiva entre teoria e pesquisa. Os desenvolvimentos teóricos recentes da Teoria Crítica têm tratado com desídia a preocupação com a pesquisa social. Isto por que contemporaneamente o "teste" empírico das ideias teóricas perdeu importância acadêmica, oriunda de uma ausência de estímulo a novos projetos de pesquisa empírica no campo da Teoria Crítica (VOIROL, 2012). Outro desafio é o processo de recuperação de documentos para a produção de um estudo eminentemente genealógico. Sim, a genealogia é cinza, porém as instituições brasileiras, principalmente aquelas de controle social, nem sempre cooperam com a academia. A produção e publicidade de dados referente a atuação de instituições como as polícias ainda é sobrestada diversas vezes por freios institucionais tradicionais. A frustração do pesquisador fica clara quando sua pesquisa perde uma esfera de analise por decisões institucionais arbitrárias. A construção do estudo demandará não apenas análise documental, pois para que possamos sentir o pulso da instituição no estado em que está e pensar as perspectivas possíveis será necessário o emprego de entrevistas. Os interlocutores serão atores que participaram ativamente no ciclo de protestos dentro e fora da esfera policial. Alguns interlocutores poderão ser gestores de segurança pública que estavam no poder na época dos fatos ocorridos. As entrevistas poderão ser padronizadas abertas ou assistemáticas. Nas padronizadas as perguntas são apresentadas a todas as pessoas exatamente com as mesmas palavras e na mesma ordem, de modo a assegurar que todos os entrevistados respondam à mesma pergunta, no tipo aberta a resposta é livre, não-limitada por alternativas apresentadas, o pesquisado fala livremente sobre o tema que lhe é proposto. As assistemáticas solicitam respostas espontâneas, não-dirigidas pela pesquisa. A escolha dependerá da abertura do campo e do desenvolver da pesquisa (GOLDENBERG, 2004).
Toda essa empreitada está centrada na necessidade de confluir teoria e prática, superar o mais básico dos preconceitos tradicionais que ainda assola a vida comum e até a academia em certos setores. Propostas como essa só podem ser cumpridas se a relação entre teoria e pesquisa se realiza de uma maneira dialética. A pesquisa deve sempre ter um poder de redefinir construções teóricas e oferecer possibilidades para novos diagnósticos (VOIROL, 2012).