Este trabalho é fruto de nossa dissertação de mestrado e vem no sentido de discutir as experiências espaciais de mulheres de diferentes eixos interseccionais da Região Metropolitana do Rio de Janeiro - Brasil, diante do risco de sofrerem violência de gênero em seus trajetos urbanos.
Assim, seguimos para a concepção de espaço como conflituoso, fluido e inseguro (McDowell, 1999). Esse espaço surge das relações de poder que estabelecem normas que definem limites tanto sociais, quanto espaciais, porque determinam quem pertence a um lugar e quem é excluída/o, bem como, determinam a situação ou a localização de uma determinada experiência (p.15). Nesse sentido, o espaço urbano também é expressão desses processos e, portanto, está marcado pelas diferenciações entre gêneros fruto de um sistema que cria papeis hierárquicos para homens e mulheres. As estruturas da cidade, em larga medida, funcionam a partir do masculino enquanto norma, influenciando no modo de viver, nos deslocamentos e em todas as dinâmicas espaciais.
A forma de pensar o espaço urbano a partir de dicotomias geográficas, como esfera pública e privada, trabalho e casa, reprodutivo e produtivo acaba por reforçar estereótipos de gênero de masculino e feminino na cidade. Esses binarismos são resultados de construções ideológicas que afetam diretamente o ordenamento urbano e a estrutural espacial (Villágran, 2013, p. 201). Ou seja, contribuem para fortalecer estereótipos que identificam o masculino enquanto aberto, oficial, o público e o feminino associado ao interior, doméstico e privado (Villágran, 2012, p. 149). A falsa ideia de que mulheres pertencem ao espaço doméstico e ao cuidado se expressa diretamente na cidade, proporcionando às mulheres deslocamentos e experiências diferenciadas em relação aos homens.
Neste sentido, a tradicional concepção do urbanismo em dividir espaços de viver, trabalhar, consumir e de lazer em diferentes pontos do espaço urbano implica profundas desigualdades no uso e nos benefícios da cidade. Isto porque estas dicotomias associadas aos papeis de gênero demandam duplas ou triplas jornadas de trabalho para as mulheres, o que reduz a qualidade de vida e de seus deslocamentos. Assim, as assimetrias de gênero refletidas, reproduzidas e constituídas no espaço urbano resultam nas mulheres a sensação, em variados níveis, de não pertencimento ao espaço público, o que promove a construção do medo e da percepção de iminente risco de violência ao circular por este espaço. Neste caso, o medo e a insegurança aparecem como um fator regulador dos corpos femininos na cidade. Este medo da violência possui componentes de gênero específicos alinhados a diferenças de raça, sexualidade, presença de deficiência e classe social o que agravam ou não essa percepção e modelam a vida urbana.
Neste contexto, entrevistamos sete mulheres entre 20 e 29 anos, de distintas orientações sexuais e raças, moradoras de áreas periféricas e nobres da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Nesta gama de diversidade, todas elas revelaram que o estupro é o principal medo ao sair na rua. Este indicativo revela, em primeiro lugar, o gênero do medo e a expressão da geração em questão, onde a juventude é o maior alvo em ocorrências de violência sexual no Brasil e no Rio de Janeiro.
As entrevistas nos mostraram que este recorrente medo cerceia a livre circulação das mulheres pelo espaço público, já que elas indicam que deixam de frequentar e circular por certos lugares e temporalidades reconhecidas como masculinas, como alguns bares, oficinas, obras e meios de transportes, buscando caminhos alternativos que representem maior segurança dentro de seus símbolos de perigo real ou imaginário. Foi possível identificar nas falas a construção de mapas mentais a partir de seleção prévia de lugares dentro destes símbolos, ou seja, a partir de um roteiro pré-definido das ruas onde pode ou não circular. Os espaços abandonados, vazios e mal iluminados permeiam mais freguentemente o imaginário do medo e da violência das entrevistadas. Estes mapas mentais são elaborados também em associação simbólica entre noite, escuridão e perigo. O que mostrou-se muito latente nas narrativas foi este medo maior da noite, onde a maioria indicou evitar sair depois de determinados horários sozinhas.
O uso do espaço de maneira mais dinâmica quebrando a lógica capitalista de cidade fragmentada, voltada apenas para a reprodução do capital é primordial para a sensação de segurança das jovens, já que espaços vazios e sem função aglutinadora representa um aumento na sensação de risco, em especial à noite. A sensação de maior perigo quando estão sozinhas e à noite foi também um dado importante durante a pesquisa qualitativa, aparecendo em todas as falas. Neste sentido, três das entrevistadas relataram que a companhia de um homem de seus convívios oferecem mais segurança aos seus deslocamentos. Esta questão aponta para o fato dos homens, no geral, serem vistos como o pertencente ao espaço público, da mesma forma em que é fruto dessas divisões binárias, a ideia do homem como símbolo do público, do poder, força e respeito, o que acaba sendo assimilado pelas mulheres e proporcionando maior sensação de segurança.
Um dos outros espaços que causam grande desconforto para a maioria delas é os transportes públicos, devido aos recorrentes casos de assédio sexual, violência de gênero ainda pouco denunciada e punida no Brasil. A sensação da insegurança dentro de modais públicos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro mostrou-se latente nos resultados pela constante ocorrência de abusos sexuais, principalmente em horários de pico, o que acaba comprometendo a mobilidade e a igualdade de acesso a esse sistema por homens e mulheres.
Apesar de haver pontos em comum entre as entrevistadas, como o medo da violência sexual e o maior temor pela noite e espaços desertos, os eixos interseccionais interferem diretamente na percepção do risco de violência de gênero. Os transportes públicos, por exemplo, enquanto que para a maioria das moradoras de áreas periféricas representa um elemento de insegurança seja pelos assédios, risco de assaltos, ou mesmo pela ineficiência do serviço, representa, para uma moradora de um bairro privilegiado do Rio, um fator de segurança e eficiência. As questões de classe social foram centrais para a construção da noção de risco e perigo. A precariedade nos serviços urbanos de segurança, iluminação, transportes e lazer agravam seus medos e reduzem suas espacialidades, confinando-as e impedindo-as de ter maior acesso à cultura, educação, trabalho e lazer, muitas vezes.
Os eixos interseccionais foram centrais para a compreensão da complexidade que envolvem as mulheres, o que rompe o conceito de mulher enquanto categoria única e universal que invisibiliza experiência e espacialidades de mulheres pobres, não brancas, não heterossexuais e com deficiência. Buscamos perceber como as conexões entre essas categorias de análise afetam as questões pessoais e espaciais do dia-a-dia delas. No caso das duas mulheres entrevistadas que se autoafirmam lésbica e bissexual, o medo era acrescido por estarem transgredindo a regra heteronormativa da cidade, onde não se sentem à vontade de demonstrar afeto por suas companheiras. A expressão da sexualidade destoante a regra, principalmente quando interlaçada a opressão de raça, classe e deficiência, tem vários efeitos na vida das mulheres e, por isso, há a construção de várias estratégias de sobrevivência que implicam, inclusive a auto-invisibilização (IPÓLITO, ALLDRIDGE, FURCHI, 2013).
Da mesma forma, o racismo enquanto dimensão simbólica, institucional, política, econômica e espacial afeta de forma direta as mulheres negras entrevistadas. As mulheres negras identificaram a existência de espaços racializados, onde não se sentem pertencentes a muito deles pela cor de sua pele, o agravamento do medo por considerarem uma espécie de objetificação de seus corpos e de estereótipos racistas que acabam por naturalizar e/ou legitimar a violência contra elas. A própria constituição espacial do Rio através de alta segregação racial e socioespacial já confinam essas mulheres que encontram-se, em maioria, em áreas pouco valorizadas da região, com altos índices de violência. O racismo e o sexismo entrelaçados como categoria de estratificação social cerceiam a liberdade de ir e vir pelos altos custos dos transportes públicos e por seu péssimo funcionamento e pela falta de acesso a serviços básicos. Isso agrava o medo de sofrer violências de gênero em decorrência dos estereótipos racistas e da estrutura urbana que não lhes oferece a menor segurança e dificulta o pleno exercício de sua cidadania.
BARROSO, Vanessa. CAMINHOS, VIOLÊNCIAS E R-EXISTÊNCIAS: EXPERIÊNCIAS DO RISCO DE SER MULHER NA METRÓPOLE FLUMINENSE. 2017. 184 f. Dissertação (Mestrado) - Geografia, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2017.
IPÓLITO, Jessica; ALLDRIDGE; Célia; FURCHI, Camila. Lésbica e estratégias de resistência. Blog da Marcha Mundial de Mulheres [Blog internet]. São Paulo, 2013.
MC DOWELL, Linda. Género, Identidad y Lugar, Un estudio de las geografías feministas. Madrid: Cátedra, 1999.
VILLAGRÁN, P. El miedo de las mujeres a la violencia en la Ciudad de México. Una cuestión de justicia espacial». En: Revista INVI, Santiago, Vol. 27, N. 75, pp. 145-169 (2012).
VILLAGRÁN, P. Entre los espacios del miedo y los espacios de la violencia. Discursos y prácticas e la corporalidad y las emociones. En: Cuerpos, espacios y emociones: aproximaciones desde las ciencias sociale