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Resumen de ponencia
A clínica e a rua: projetos independentes de saúde mental popular

*Renata Queiroz



A concepção da psicanálise enquanto saber e prática de caráter elitista é corriqueira no discurso do senso comum, se baseando, entre outras coisas, nos altos custos das sessões e na longa duração do tratamento. Nas ciências sociais, a crítica da despolitização do saber e do fazer psicanalítico se expande, para além disso, numa sinalização da inabilidade de se lidar, no tratamento tradicional, com as questões sociais que interpelam o sujeito e com as diferenças socioculturais que se refletem em especificidades da subjetividade. Em setores mais críticos dentro da própria tradição psicanalítica, há também a compreensão de que o que os analistas apreendem ou não nas falas de seus analisandos (para além de quem são essas pessoas com acesso ao tratamento) varia ao longo do tempo: com efeito, a história da psicanálise pode ser vista como a história da escuta psicanalítica, sempre situada histórico, cultural e politicamente. Embora Freud e Lacan tenham ao longo de suas trajetórias enfatizado a relação do psiquismo com o mundo social – em “Função e campo da fala e da linguagem”, de 1953, Lacan já afirmava que não deveria exercer a psicanálise o analista que não partisse de uma compreensão da subjetividade de sua época – o descaso da escuta psicanalítica com temáticas políticas, em especial, vem sendo alvo de uma justa crítica há muito tempo.
O reconhecimento profundo dessas questões está no coração de recentes iniciativas Brasil afora de oferta de atendimento psicanalítico gratuito em espaços públicos. Em São Paulo, há dois projetos com propostas desse tom, apesar de diferentes em alguns sentidos – a Clínica Pública de Psicanálise, atendendo desde o segundo semestre de 2016, e a Clínica Aberta de Psicanálise, funcionando desde março de 2017. Em Brasília, em março de 2018, um coletivo de psicanalistas intitulado Psicanálise na Rua iniciou atendimentos com esse mesmo princípio. A construção dos projetos, desde o princípio espontânea, voluntária e livre de vínculos institucionais ou estatais, tem caminhado no sentido de oxigenar a tradição psicanalítica, questionando elementos como a função do dinheiro na relação analítica, o setting terapêutico, a elitização da terapia, a exclusão das classes trabalhadoras das formações em psicanálise e a desatenção às questões sociais na clínica.
Utilizando como referencial teórico e metodológico os estudos em Antropologia da Saúde, o presente trabalho procura compreender essas iniciativas, explorando o significado desses rearranjos da dinâmica clínica a partir dos três projetos supracitados – em especial, do Coletivo Psicanálise na Rua, de Brasília – e explorando, para isso, questões relativas à intersecção entre psicanálise e política. A ideia é compreender o significado psicossocial do atendimento nas vidas de quem passa por ele, além do sentido e impacto que esse tipo de iniciativa de saúde tem no mundo social e na tradição psicanalítica. Procuramos verificar de que formas essas propostas tornam possível (ou não) a travessia de uma psicanálise edificada de forma excludente a uma adequada ao contexto da saúde popular, na medida em que conseguirem se inserir e se aproximar das lógicas e realidades dos sujeitos plurais que as procuram.
Para tanto, abordamos a questão por três vias de investigação antropológica: uma revisão de bibliografia e estudo panorâmico do que já foi produzido sobre a dimensão social do sofrimento psíquico e a relevância política do atendimento psicanalítico; uma análise da produção teórica a respeito dos três projetos mencionados – artigos produzidos por seus membros, entrevistas, relatos da experiência –, e uma pesquisa etnográfica do projeto Psicanálise na Rua, construída a partir da minha aproximação das atividades do coletivo, a saber, do grupo de estudos promovido quinzenalmente, das assembleias que acontecem mensalmente e dos atendimentos semanais que realizam. Nos atendimentos, onde, pela proximidade com o coletivo, passei a desempenhar a função de acolhimento de quem se aproxima desejando ser atendido, serão conduzidas entrevistas semi-estruturadas com analistas e analisandos que passarem pelo projeto. A partir das entrevistas e da observação dos procedimentos terapêuticos em ação, procura-se pensar as vivências dos participantes no atendimento e, dessa forma, compreender de que forma a psicanálise nesses moldes de engajamento político pode constituir uma tecnologia de cuidado no contexto da saúde popular.




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* Queiroz
Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Brasília ICS/UnB. Brasília, Brasil