A questão que este artigo se propõe responder indaga como que o amadurecimento da emergente lógica de acumulação capitalista, baseada na coleta massiva e constante de dados (Zuboff, 2015), incide sobre o esvaziamento de significados das ideais da democracia liberal (Brown, 2015)? Para responder esta questão, este texto assume, a partir dos trabalhos de Giovanni Arrighi e Beverly Silver (2012), que as duas últimas décadas do século XXI podem representar um momento de transição de um ciclo sistêmico de acumulação do capitalismo e concomitante evolução de uma, ainda, emergente e nova lógica de acumulação. O argumento que este artigo desenvolverá é que a alteração na configuração da divisão do trabalho a partir da mediação computadorizada (Zuboff, 1985, 2015), iniciada no final do século XX, reconfigura também a alienação de quem utiliza dispositivos digitais e que, somada a tendência de opacidade do processamento da informação, produz um sentimento difuso e geral de impotência com relação o exercício da soberania popular e transformação das ordens estabelecidas.
A “bolha ponto-com”, nos anos 2000, é para Arrighi e Silver (2012: 78) um sintoma da sombra do declínio hegemônico norte-americano que caracterizou o século XX. O caos sistêmico, portanto decorrente dessa crise financeira apontava para a possível transição de um ciclo de acumulação sistêmico para outro, novo e emergente. Será a crise financeira de 2008, seguida das mobilizações sociais nos anos de 2010 e 2011 – com os movimentos de ocupações dos espaços urbanos, em países europeus, nos Estados Unidos, nos países árabes, nos países latino-americanos – que marcarão o momento, definitivo, de transição. Simultaneamente há a formação incipiente de uma reorganização da produção econômica do capitalismo. De acordo com Shoshana Zuboff (2016: 5–6) , a crise das “ponto-com” foi o momento em que inicia uma formação embrionária de uma “nova lógica de acumulação” (Zuboff 2015) liderada pelo modelo de negócios do Google sobre publicidade orientada para o comportamento humano.
Buscando prever tendências econômicas, o capital passa, segundo Zuboff (2015: 82-83), a acreditar que, ao acumular um grande volume de dados do cotidiano humano, através da tecnologia da informação, é capaz de compreende a realidade em sua totalidade complexa. Ao considerar isso possível – compreender a totalidade da realidade – passa a procura em eliminar a fonte de incerteza sobre as decisões econômicas. Entretanto, a fonte da incerteza, para Zuboff (2015: 78), é a autonomia humana, em um nível individual, e as instituições da democracia liberal, em um nível estrutural.
Portanto, por isso que a Internet, em sua arquitetura complexa, serve como um importante elemento constituinte da base material desse novo ciclo de acumulação capitalista. O risco de mercantilização do comportamento humano dentro do “capitalismo de vigilância”, nas análises de Zuboff, pode ser relacionado ao que Wendy Brown (2015) analisa da racionalidade neoliberal na conversão de “toda necessidade ou desejo humano em um empreendimento lucrativo” (Idem: 28).
Segundo Brown (Ibdem: 33-34), a racionalidade neoliberal esvazia a noção de “povo” contida em “demos”. Substancialmente, essa racionalidade transforma a noção de “cidadão”, contida nas várias concepções de democracia, e a transforma na noção de “capital humano”, que compreende sua emancipação exclusivamente como forma de agregar valor sobre si mesma. Agregação de valor sobre si mesmo, isto é, o “capital humano”, acaba por demandar a constituição de métricas e índices capazes de mensurar a constituição do processo de agregação do valor. Em sintonia com esta racionalidade, a lógica de acumulação baseada na vigilância tem como implicação a necessidade de constituição de métricas e categorias que valorizem os comportamentos cotidianos monitorados. Assim, por meio das plataformas que projetam a vanguarda deste capitalismo de vigilância, como a Google e Facebook, o “capital humano” logra estabelecer índices de audiência para atrair o valor de um investidor ao invés de um self, como “através de mídias sociais, 'seguidores', 'likes' e 'retweets'” (Ibdem: 33-34).