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Resumen de ponencia
O amadurecimento do capitalismo de vigilância: o início do longo século XXI?

*Alexandre Arns Gonzales



A questão que este artigo se propõe responder indaga como que o amadurecimento da emergente lógica de acumulação capitalista, baseada na coleta massiva e constante de dados (Zuboff, 2015), incide sobre o esvaziamento de significados das ideais da democracia liberal (Brown, 2015)? Para responder esta questão, este texto assume, a partir dos trabalhos de Giovanni Arrighi e Beverly Silver (2012), que as duas últimas décadas do século XXI podem representar um momento de transição de um ciclo sistêmico de acumulação do capitalismo e concomitante evolução de uma, ainda, emergente e nova lógica de acumulação. O argumento que este artigo desenvolverá é que a alteração na configuração da divisão do trabalho a partir da mediação computadorizada (Zuboff, 1985, 2015), iniciada no final do século XX, reconfigura também a alienação de quem utiliza dispositivos digitais e que, somada a tendência de opacidade do processamento da informação, produz um sentimento difuso e geral de impotência com relação o exercício da soberania popular e transformação das ordens estabelecidas.
A “bolha ponto-com”, nos anos 2000, é para Arrighi e Silver (2012: 78) um ​​sintoma da sombra do declínio hegemônico norte-americano que caracterizou o século XX. O caos sistêmico, portanto decorrente dessa crise financeira apontava para a possível transição de um ciclo de acumulação sistêmico para outro, novo e emergente. Será a crise financeira de 2008, seguida das mobilizações sociais nos anos de 2010 e 2011 – com os movimentos de ocupações dos espaços urbanos, em países europeus, nos Estados Unidos, nos países árabes, nos países latino-americanos – que marcarão o momento, definitivo, de transição. Simultaneamente há a formação incipiente de uma reorganização da produção econômica do capitalismo. De acordo com Shoshana Zuboff (2016: 5–6) ⁠, a crise das “ponto-com” foi o momento em que inicia uma formação embrionária de uma “nova lógica de acumulação” (Zuboff 2015) liderada pelo modelo de negócios do Google sobre publicidade orientada para o comportamento humano.
Buscando prever tendências econômicas, o capital passa, segundo Zuboff (2015: 82-83), a acreditar que, ao acumular um grande volume de dados do cotidiano humano, através da tecnologia da informação, é capaz de compreende a realidade em sua totalidade complexa. Ao considerar isso possível – compreender a totalidade da realidade – passa a procura em eliminar a fonte de incerteza sobre as decisões econômicas. Entretanto, a fonte da incerteza, para Zuboff (2015: 78), é a autonomia humana, em um nível individual, e as instituições da democracia liberal, em um nível estrutural.
Portanto, por isso que a Internet, em sua arquitetura complexa, serve como um importante elemento constituinte da base material desse novo ciclo de acumulação capitalista. O risco de mercantilização do comportamento humano dentro do “capitalismo de vigilância”, nas análises de Zuboff, pode ser relacionado ao que Wendy Brown (2015) ⁠ analisa da racionalidade neoliberal na conversão de “toda necessidade ou desejo humano em um empreendimento lucrativo” (Idem: 28).
Segundo Brown (Ibdem: 33-34), a racionalidade neoliberal esvazia a noção de “povo” contida em “demos”. Substancialmente, essa racionalidade transforma a noção de “cidadão”, contida nas várias concepções de democracia, e a transforma na noção de “capital humano”, que compreende sua emancipação exclusivamente como forma de agregar valor sobre si mesma. Agregação de valor sobre si mesmo, isto é, o “capital humano”, acaba por demandar a constituição de métricas e índices capazes de mensurar a constituição do processo de agregação do valor. Em sintonia com esta racionalidade, a lógica de acumulação baseada na vigilância tem como implicação a necessidade de constituição de métricas e categorias que valorizem os comportamentos cotidianos monitorados. Assim, por meio das plataformas que projetam a vanguarda deste capitalismo de vigilância, como a Google e Facebook, o “capital humano” logra estabelecer índices de audiência para atrair o valor de um investidor ao invés de um self, como “através de mídias sociais, 'seguidores', 'likes' e 'retweets'” (Ibdem: 33-34).




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* Arns Gonzales
Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília IPOL - UnB. Brasília, Brasil