A partir do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, a tendência neoliberal chega com mais força ao Brasil aliada a uma concepção de racionalização e eficiência a partir de reformas econômica, previdenciária e também educacional a fim de que o país continuasse a crescer. Em profunda concordância com essas concepções estavam as privatizações ocorridas que tinham por objetivo transferir para o setor privado empresas vinculadas ao estado brasileiro, sob o argumento de racionalização de recursos. Para além disso como argumenta Silva Júnior (2002), o Estado brasileiro buscou se adequar as mudanças enfrentadas pelo capital internacional, tendo as determinações do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, como norteadoras de suas políticas públicas. Assim, vemos a importância de um projeto de educação que não preze pelo lucro, mas entenda a educação como um direito que deve ser estendido a todos. Essa fórmula contraria a política vigente nos anos de 1990 que, segundo Frigotto; Ciavatta (2003), se encontrava dividida entre uma maior democratização do ensino e a subordinação da política educacional à lógica capitalista. A lógica que embasa as políticas de educação hoje estão segundo Saviani apud Frigotto (2011) traduzidas numa “pedagogia de resultados”, guiadas por uma lógica de mercado que valoriza competências e aprovações. Nossa proposta é discutir os documentos Reforma de la educación primaria y secundaria en America Latina y el Caribe e Brasil: Justo, Competitivo, Sustentável – Contribuição para Debate produzidos pelo Banco Mundial para orientação da educação na América Latina e no Brasil, respectivamente, e os reflexos dessas recomendações nas reformas educacionais implementadas pelo governo Temer, a saber a reforma do ensino médio instituída pela Medida Provisória 746, aprovada na Câmara dos Deputados em fevereiro de 2017 e a Base Nacional Comum Curricular aprovada em abril de 2018. Nesse contexto de reformulação educacional com consequente restrição do direito à educação, discutiremos também dados referentes às ocorrências criminais registradas em escolas públicas da rede estadual e municipal da cidade de Viçosa-MG entre os anos de 2009 e 2016 a partir da análise dos dados disponibilizados no sistema REDS/SIDS. A cidadania deve ser conferida tanto ao indivíduo quanto à sociedade, como direito fundamental de um Estado democrático de direito. Para se criar quaisquer estratégias de ampliação do acesso à cidadania, se faz necessária a análise do quadro social e o diagnóstico desse evento danoso – a violência na escola. Logo, nosso objeto de análise será o espaço escolar e, dentro dele, o distanciamento que a violência e a criminalidade causam entre os atores envolvidos estudantes, professores, servidores técnicos e comunidade externa. Assim, nosso trabalho se faz como um mapeamento das ocorrências criminais que têm como local dos eventos as escolas públicas de Viçosa-MG, e de forma introdutória, buscando compor o campo de estudo das políticas públicas para a educação básica, a partir da compreensão das causas de tais eventos. A violência, definida como “uma ação contrária à ordem ou à disposição da natureza [...] contrária à ordem moral, jurídica ou política” (ABBAGNANO, 2007, p. 1198) é atrelada em nossa ótica e objeto de estudo ao delito ou crime. A temática violência escolar analisada neste trabalho será particularmente observada numa ótica penal, prevista na legislação brasileira. Quando se trata da violência na escola, vislumbrando a ótica delituosa, os agentes infratores podem ser os alunos, pais e/ou responsáveis, além dos servidores ligados às escolas. Neste trabalho os dados englobam os crimes ocorridos nas escolas públicas de Viçosa-MG, e em seu entorno, possuindo uma ligação com a instituição de ensino ou em razão da mesma. Os dados nos indicam que a contradição entre a educação “salvadora” e “redentora”, motor das mudanças e melhorias das condições sociais e os crimes e eventos delituosos registrados nas escolas públicas viçosenses e/ou em razão dela é apenas um indicativo do descomprometimento do Estado e de parte da sociedade civil com o núcleo da sociedade que mais detém a atenção dos indivíduos, depois da família. Conforme indicam Minayo (1994), Abramoway e Rua (2002) e Ruotti et al. (2006), na escola os níveis de linguagem, de processo e de evento, além dos fenômenos de legitimação, de dominação e de agressão das formas de violência transitam de forma pontual, mas sim como um processo. Tal mapeamento ajuda a desenhar o croqui que pode reverberar possíveis estudos e contribuições para o estudo da temática, mas por ser um processo devemos estar atentos às mudanças sociais, conforme Bourdieu e Passeron (1995), que também agitarão o cerne da escola e da educação pública. Uma vez que o Estado tem se esquivado, conforme observado nas atuais políticas educacionais, das responsabilidades previstas em leis mediantes alternativas ligadas ao mercado e ao trabalho, à sociedade cabe a tomada de consciência de seu comprometimento com o papel fundamental da escola para que seja, além de pública, gratuita e de qualidade, para a formação cidadã, garantindo a diversidade e a inclusão.