O projeto apresentado trata da questão do trabalho em determinados setores nas Cidades Gêmeas, suas migrações e dificuldades. Esse termo foi definido pela portaria do Diário Oficial da União em 24 de março de 2014, e trata-se de cidades de fronteira (seca ou fluvial) que possuem integração urbana, com influências econômicas e culturais, tendo mais de 2 mil habitantes e com a divisa normalmente se limitando ao espaço de uma rua. No Brasil contamos com 29 dessas cidades, sendo 10 só no estado do Rio Grande do Sul. A proposta de análise cabe as cidades de Ponta Porã (MS), que conta com 83.747 habitantes, e de Pedro Juan Caballero (Paraguai) com 115.583 habitantes, com ideia de comparação ainda com a cidade de Dourados (MS) que possui 215.486 habitantes, que mesmo próxima da fronteira, já apresenta outras características. A necessidade do termo partiu de grande demanda por políticas públicas específicas que por além de fronteira, são importantes para a integração sul-americana.
Na formulação dos questionamentos como quanto a situação do trabalhador, não podemos deixar de lado a construção tanto do cotidiano quanto da história, onde vemos pensamentos como da teleologia, ideia hegeliana onde se crê que os processos históricos caminham para uma finalidade, tida como realização plena, e tem-se o questionamento se faz parte da formação do pensamento dos indivíduos analisados, ou se a ideia se conecta com a ideia de fatos ontológicos sociais apresentados por Marx, que necessariamente se relaciona (inter-relação) e que pode exercer a teleologia (já que não serão relacionados a predestinação do caminho), que se baseia em sua essência que gera um sentido levando a finalidade.
O homem e sua substância são desenvolvidos a partir de construção e transmissão de cada estrutura social, vendo que se a essência é um resultado histórico, logo sua substância social também o é, então questiona-se a construção da ideia trabalhista e as construções em volta da mesma, sendo que temos a consciência da importância da formação das pessoas.
Sem esquecer que, perante esse tópico, temos a questão do tempo, que é a irreversibilidade de acontecimentos, onde vemos que a rapidez que o tempo decorre está diretamente proporcional para o ritmo de alterações das estruturas sociais. Nesse momento temos o contraponto que gera o questionamento de que o tempo na fronteira diversas vezes fora apresentado de maneira confusa, onde tem-se a soma de várias épocas que permitem formas de dominações arcaicas e formas de reprodução do capital, também arcaicas, logo torna-se necessário cautela sobre o assunto para o desvendamento de tais questões.
Também existe a questão de que se essas cidades seriam formadas por esferas heterogêneas, das quais seguem um ritmo a parte de desenvolvimento, esferas essas que originam a moral do grupo e sua produção, gerando assim o valor que é do ser genérico humano.
O valor é tudo que contribui para o enriquecimento das componentes essenciais, sendo para Marx inclusive a objetivação do trabalho até parte da mesma, junto com a sociedade, universalidade, consciência e liberdade. O que prova que a consciência humana é mutável.
Vemos que a história, formadora de ideias e conceitos são contínuas colisões de valores de esferas heterogêneas, sendo interessante a análise da construção das visões para cada grupo, e a tentativa de reconstrução da origem dessa mesma ideia, como no caso desse projeto, as relações trabalhistas.
Importante também é considerar o desenvolvimento axiológico, do qual percebe-se que nenhum valor da humanidade se perde totalmente, valores esses que não são escolhidos, mas seus juízos estão ligados a imagem do mundo.
Quanto ao cotidiano, sabemos que é inviável o desligamento do mesmo, tendo o trabalho como parte orgânica dele, assim como a vida privada, lazer, etc. Não sendo apenas heterogênea, mas também hierárquica, o que nos induz à pergunta quanto as relações estabelecidas no sistema migratório das cidades observadas. Vê-se no livro Cotidiano e História a seguinte afirmação: “O homem já nasce inserido em sua cotidianidade”, e aponta-se que o amadurecimento está ligado a adesão do meio, onde levanta-se a pergunta se existe a consciência de diversas explorações e há uma aceitação, ou se a inquietude se faz presente mas a dominação predomina.
Temos também a dúvida do posicionamento crescente das relações coisificadas/reificadas entre pessoas, concorrendo com as relações sociais entre coisas, que de fato leva ao esquecimento de como são produzidas.
Na sequência de aspectos, cabe analisar ainda as mudanças pós anos 60-70 advindas da crise do padrão de acumulação, onde houve esgotamento econômico, político e ideológico, que levou a reestruturação da produção e à flexibilização do trabalho, onde não existe vínculos e nem tempo pré-estabelecido para a permanência no emprego. Pontos negativos que podem ser parte do caráter exploratório, ainda mais com a possível ação da polivalência, que se trata da introjeção da ideia de não exploração, com indivíduos que chegam até a cumprir funções que não são destinadas a si, com pagamentos baseados em comissões e metas, que levam somadas ao envolvimento a fragmentação da classe como consequência, sendo mais uma deixa para avaliação se existe resistência ou submissão.
São situações de conflitos, mas onde há caos, segundo José de Souza Martins é onde as sociedades se formam, desorganizam e reproduzem, valendo o olhar crítico para tais Cidades Gêmeas, e ainda sobre o mesmo autor, interessante relembrar que o mesmo coloca que não devemos romantizar a fronteira, pois os mistérios são tantos que praticamente inviabiliza a investigação do pesquisador, mas sendo mais um motivo para o aprofundamento no assunto.