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Resumen de ponencia
UM MURO FINO ENTRE A CIÊNCIA E DEUS: Formação da consciência de professoras religiosas, uma abordagem marxista

*Bartira Telles Pereira Santos



o conservadorismo avança no Brasil, principalmente entre os mais escolarizados, aponta pesquisa realizada pelo IBOPE, Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística, uma multinacional brasileira de pesquisas de opinião e estudos de mercado, com forte destaque para as pesquisas eleitorais e pesquisas de audiência televisiva. A pesquisa divulgada pela revista piauí, no dia 12 de abril de 20018, mostra que, embora a variação tenha sido marginal no conjunto da população entre 2016 e 2018, o índice de conservadorismo cresceu muito acima da média entre quem fez faculdade. O índice reflete a proporção de brasileiros que apoiam ou refutam cinco propostas: casamento de pessoas do mesmo sexo, legalização do aborto, redução da maioridade penal, prisão perpétua para crimes hediondos e adoção da pena de morte.
O artigo se insere neste complexo campo de contradições ao abordar o tema pertencimento religioso e formação da consciência da(o) futura(o) professora(or). Deste modo, trazemos para o campo analítico, o desafio de pensar sobre a relação de um lado, dos elementos culturais da formação da consciência das(os) futuras(os) professoras(es) que tem por base a transmissão de valores no interior da cultura pela religião; e, de outro, dos elementos culturais aprendidos ao longo do curso superior de Pedagogia.
Neste particular, busca investigar nos marcos do materialismo histórico, os modos, através dos quais, o sistema de referências do campo religioso, enfatizando, em especial, a fé, aspecto estruturante da visão de mundo do religioso repercute sobre a formação da consciência da(o) futura(o) professora(or) no processo de formação desta(e) no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Sergipe. O estudo apresenta formulações críticas sobre as mediações que caracterizam esta relação, em especial àquelas produzidas pela própria civilização agnóstica capitalista, ao se tornar demasiadamente dominadora, calculista e instrumental criando as condições para o surgimento de um tipo de fé baseada no fanatismo.
O desafio de refletir sobre a formação da consciência da(o) professora(or) religiosa demanda considerar como instância primordial do debate as características que a tornam particular, afinal, como dito por Eagleton: “Porque a fé não é totalmente consciente, é raro abandoná-la somente em consequência da reflexão.” (EAGLETON, 2009, p. 127). Um dilema para as políticas de formação de professores, em particular, quando a expressão desta crença sedimentada resulte em práticas preconceituosas e ideologicamente opressivas.
Com essas considerações buscamos evidenciar o nosso propósito de análise da consciência, tomando como referência básica a dialética da relação entre o indivíduo particular, e a totalidade social como fundamento para o conhecimento concreto entre ambos. Sob essa perspectiva, a consciência resulta da unidade e luta dos contrários.
Ao propor o debate o conceito de personalidade segundo o referencial teórico do Materialismo Histórico Dialético. No âmbito da produção acadêmica, o reconhecimento da importância do processo de personalização do professor como fator que interfere no processo pedagógico constitui-se em uma referência crescente nas pesquisas (Antônio Nóvoa, 1992-1997; Garcia, 1997; Esteve, 1991; Cavaco 1991 Berger, 1991; Serrão, 2006, Martins, 2015) e nas políticas de formação de professores. Para nossa discussão nos valemos da perceptiva teórica e metodológica de Lígia Martins, 2001 e Iasi, 1999 e 2006. De acordo com as contribuições dos pesquisadores, partimos da premissa de que as circunstâncias objetivas de vida delimitam o campo de atividades, “[...] é a singularidade que compõe a ação humana diante do mundo na forma de uma intencionalidade que deve agir comprimida por uma materialidade determinada.” (IASI, 2006, p.76). Sob essa perspectiva, a personalidade resulta da unidade e luta dos contrários, indivíduo e personalidade. Ou seja, “Em sua gênese, a personalidade resulta de relações dialéticas entre fatores externos e internos sintetizados na atividade social do indivíduo. Como fatores extrínsecos, temos as condições materiais de vida, o conjunto de relações sociais que sustentam a superação do ser hominizado em direção ao ser humanizado, que guardam as possibilidades reais da atividade humana. Como fatores intrínsecos, temos todos os processos biológicos e psicológicos desenvolvidos em consequência dessa atividade, que representam as condições internas e subjetivas.” (MARTINS, 2015, p.76). Para o nosso tema, isto implica considerar os indivíduos e suas trajetórias particulares. A delimitação do campo de estudo com ênfase no aspecto religioso insere o artigo, também, na linha dos estudos da sociologia marxista da religião, ao buscar entender os fenômenos religiosos e o seu papel na história, “[…] o peso da religião na consciência das massas” (LUXEMBURGO, 2005, p.111) e na luta de classes (ENGELS, 1895). O investimento do estudo neste aspecto da formação da personalidade se justifica devido a disputa teórica quanto aos fundamentos do processo de formação de professores, com forte polarização e tensão, dependendo da tradição religiosa dos pares envolvidos, especialmente relacionado ao debate sobre direitos humanos, com grande rejeição dos argumentos dos movimentos no campo da crítica ao capitalismo, justiça de gênero, da sexualidade e da reprodução humana. Sabemos, não se tratar de uma questão nova, entretanto, em tempos de politização reativa dos movimentos religiosos, velhas questões retornam, nos desafiando a pensar nos modos através dos quais constituiremos os filtros institucionais necessários para formação de professores que desafiem todas as expressões da ideologia do capital.




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* Santos
Universidade Federal de Sergipe UFS. São Critóvão, Brasil