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Resumen de ponencia
"Como uma irmã mais velha": uma análise sobre as práticas editoriais de periódicos femininos e as orientações de conduta na Revista Capitolina

*Letícia Silveira



Esta investigação, ainda em curso, trata do estudo de revistas femininas para jovens adultas publicadas na internet. O objeto de pesquisa elencado é a Revista Capitolina, uma revista para jovens adultas, autointitulada independente, publicada desde 2014 em seu site oficial, com uma proposta editorial que reivindica a busca por uma mídia feminina mais diversa, que represente a pluralidade de possibilidades das mulheres, especialmente as adolescentes, vivenciarem suas experiências. Parto assim da perspectiva de que os conteúdos produzidos por esses canais estabelecem um diálogo intenso com configurações da realidade social contemporânea, não somente por refletir os processos sociais dos contextos em que suas produções estão inseridas, mas também por participarem, em certa medida, da construção da realidade social, visto que “diferentes formas de conhecimento sobre o social têm consequências práticas para a sociedade ou, ainda, que as práticas sociais são afetadas pelo constante reexame a que são submetidas com base em informações produzidas sobre elas” (HOELZ; BOTELHO, 2016).
A inquietação acerca desse tema surge através do contato com duas matérias. A primeira publicada na coluna Cotidiano do site da Folha de São Paulo, em novembro de 2015, intitulada “Meninas formam coletivos feministas em escolas de ensino médio em SP”. A reportagem fala de organizações entre adolescentes a partir de 14 anos que buscam desde discutir temáticas como assédio sexual, bullying eletrônico e a proibição ao uso de shorts nos colégios, até aquelas que se reúnem para ler teóricas do feminismo. O texto também cita uma pesquisa de 2010 realizada pela Fundação Perseu Abramo, onde os resultados apontaram que 40% das meninas entre 14 e 17 anos se consideravam feministas. Outro dado importante é que as meninas entrevistadas centralizaram o papel da internet em seu contato com ideias que questionam os papéis sociais e comportamentos atribuídos ao sexo feminino, onde citam, por exemplo, os vídeos de Júlia Tolezano, uma youtuber que viralizou com um vídeo acerca de relacionamentos abusivos. A segunda matéria foi publicada pela ONG feminista “Think Olga – Empoderamento feminino através da informação” no dossiê “Mulheres Inspiradoras 2015” e refere-se a uma pesquisa realizada juntamente com a agência de relações públicas Ideal. O levantamento trouxe o número de produções de artigos e buscas no Google pelos termos “feminismo” e “empoderamento feminino”. Os resultados mostraram que a busca por esta expressão entre janeiro de 2014 e outubro de 2015 sofreu um aumento de mais de 350% e a produção de conteúdo em blogs e matérias da mídia tradicional cresceu 137%.
O protagonismo que a experiência digital tem ganhado na vida de parte da população, especialmente entre jovens, tem mobilizado a sociologia e diversas outras áreas das ciências humanas para a compreensão das novas dinâmicas de convívio e trocas que esse universo estimula. Os dados anteriormente citados me atentaram especialmente para as práticas culturais e consumo de bens culturais mediados pela internet, que aqui serão pensados através da produção, circulação e apropriação de periódicos entre o público juvenil-adulto feminino.
A interpretação das estratégias de publicação das revistas e a relação dos conteúdos com o público de mulheres merece atenção especial, já que “a revista é a mídia mais feminina que existe” (MIRA, 1997, p. 69). Isso porque, segundo Mira, no começo de sua circulação, na Europa do século XVIII, foram as donas de casas burguesas que mais se apropriaram das revistas, visto que se tratava de uma leitura que podia ser associada aos afazeres domésticos, não exigia muita concentração e podia ser feita em intervalos. Assim, o mercado editorial desse setor focou especialmente neste público e estabeleceu certas estruturas recorrentes até hoje, como as colunas de conhecimentos práticos, que contavam com receitas, por exemplo, e dicas para casa e o “aprendizado emocional”, onde é comum o compartilhamento de histórias pessoais de leitoras para que outras mulheres pudessem opinar. Essa última estratégia é responsável por construir uma característica extremamente forte das publicações femininas que é a relação de intimidade entre a leitora e o impresso (MIRA, 1997).
Martins (2008), em seu estudo sobre a imprensa paulista durante a Primeira República, mostra que as publicações femininas, voltadas especialmente para as mulheres de grupos sociais elevados (pois eram as que já cultivavam os hábitos de leitura), reproduziam a imagem de Rainha do Lar (discurso aceito socialmente) e suas colaboradoras e produtoras eram aquelas mulheres leitoras de romances e folhetins, sendo as principais temáticas moda e ensaios de literatura, mesmo que em 1852 já se tenha visto movimentos onde as mulheres tomaram conta da redação, como no “Jornal das Senhoras”, e subverteram a posição de submissão feminina. As revistas passaram assim a desempenhar um papel de aglutinação de ideias de mulheres que buscam igualdade entre os sexos, emancipação feminina através da educação e condição de igualdade intelectual, mas que mesmo assim seguiram os modelos editoriais importados dos maganizes franceses com grande ênfase na publicidade, no consumo e nas seções sentimentais.
Já no século XX, apesar da ascensão do que ficou conhecido como segunda onda do feminismo na Europa e nos Estados Unidos, durante as décadas de 1960 e 1970, as revistas femininas de grande circulação no Brasil colocam a questão da emancipação feminina para escanteio e enaltecem a ideia do que seria uma “mulher brasileira” (MIRA, 1997), dado que a questão nacional volta à tona com o período do regime militar e que o próprio movimento feminista brasileiro descentraliza as reivindicações mais específicas de gênero e passa a abarcar questões mais latentes à redemocratização do País (BARREIRA, 2003).
As mudanças de pautas editoriais de acordo com o contexto político-histórico-social não só reiteram o argumento de que as publicações periódicas se adéquam ao público leitor e suas demandas, mas também vão de encontro com a ideia de que práticas podem ser afetadas a partir do que é dito acerca daquela realidade. Isso pode ser exemplificado através da publicação da revista Nova, pela Editora Abril na década de 80 que importando a fórmula editorial da americana Cosmopolitan instaura uma redação majoritariamente feminina, trazendo à tona assuntos como sexo e conquistas, estimulando o flerte e a sexualidade feminina através da imagem da “mulher liberada”, provocante e conquistadora – vale dizer que essa revista não era vista pelo público como revistas para as “mães de família” e que esses comportamentos só passam a ser valorizados por conta da legalização do divórcio e popularização da pílula anticoncepcional (MIRA,1997).
Essa experiência histórica me ajuda a entender o conteúdo da Revista Capitolina, pois evidencia características que consolidaram estratégias editoriais da publicação de revistas em relação ao público feminino. Mesmo tendo sido criada como uma forma de resistência de suas fundadoras em relação às representações mais comuns da mídia hegemônica seu conteúdo busca trabalhar, na grande maioria das vezes, as temáticas tradicionais, visto que “revista feminina sempre fala de moda, beleza, casa, amor, novela, fofoca etc. O que muda é a dosagem de cada um deles, podendo mesmo alguns temas serem excluídos. O que se transforma é a visão histórica a partir de qual cada um destes temas vai ser exposto, discutido ou recomendado em cada momento. Deste ponto de vista, pode-se dizer que a revista é um dos veículos que muda mais rapidamente de acordo com o movimento das ideias e do público”. (MIRA, 1997, p. 91).
As matérias que serão analisadas para essa investigação tratam sobre o cotidiano em assuntos como relacionamentos, vida escolar, saúde, beleza e amizades. Proponho a leitura e análise das revistas para adolescentes como manuais de condutas já que, assim com nas revistas para as mulheres mais velhas, indicam possibilidades de escolhas e posicionamentos a serem tomados por suas leitoras. Fazendo um paralelo dessa proposta de investigação com os estudos de Nobert Elias com os manuais de conduta da corte, fontes históricas para a compreensão do habitus aristocrata, bem como de uma determinada economia psíquica que passava a ser internalizada pelos membros da corte, proponho investigar a formação de uma economia de sentimentos e de um habitus leitor nas matérias publicadas, relacionando as formas de agir, classificar e apreender o mundo social corroborada por essas plataformas de conteúdo e a organização do movimento feminista no Brasil, especialmente entre as adolescentes.
Para atingir esse fim, o estudo do conteúdo publicado se dará em cima da ideia de construção de uma identificação social das leitoras com determinados grupos sociais, compreendendo que figuras e narrativas são utilizadas pelas editoras para transmitir uma ideia de representatividade dos valores defendidos por sua edição. Além das definições médicas, a adolescência também pode ser compreendia por psicólogos e sociólogos como o período da vida psíquica que o ser humano busca a construção de uma personalidade e maneira de agir próprias, distanciando-se dos modelos familiares e buscando referências e conexões externas. Por ser uma demanda inerente de seu público, as revistas para adolescentes, em geral, estão sempre abordando essa questão de alguma forma, com a Capitolina não seria diferente. Assim, elenquei alguns aspectos a serem observados nas publicações, são eles: as questões de etnia, regionais, as referências culturais (especialmente da cultura pop) e as narrativas históricas.
As conclusões poderão ser colocadas na apresentação oral, com a pesquisa já encaminhada.




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* Silveira
Universidade Federal do Ceará UFC. FORTALEZA, Brasil