Pretende-se nesta comunicação apontar quais as problemáticas evidenciadas no desfile carnavalesco do Paraíso do Tuiuti, escola de samba carioca do grupo especial, que no ano de 2018 levou para o sambódromo o enredo “Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão?”. A priori, parece uma simples pergunta que nos remete a um passado parado em que não temos mais acesso (LOPES, 2008). Porém, sua proposta é mais complexa, densa e provocativa, principalmente por entender a escravidão no Brasil como um processo histórico que guarda consigo reverberações em nosso tempo presente (ROUSSO, 2016). Pensar o nosso próprio tempo, como salienta o historiador francês Henry Rousso (2016), é um incessante desafio, pois parte de um exercício da constante reescrita da história formada por balizas móveis, ou seja, propor um debate que não se
tenha um fechamento, mas que consista numa abertura, que se escanda, propiciando outros pesquisadores a sugerirem novos olhares e leituras. Inclusive, a intervenção da história mediante a temas próximos de nosso tempo, é o que Henry Rousso (2016) denomina de demandas socais, isto é, ocupar um espaço de debate público sem abrir mão do caráter cientifico do nosso saber. A partir dessa narrativa carnavalesca são colocadas em xeque às políticas públicas do atual governo (in)legítimo brasileiro, principalmente as relações de trabalho e os direitos dos afro-brasileiros na atualidade. Esses temas, recentemente, destacam-se nas pautas dos sindicatos trabalhistas e dos movimentos sociais, gerando uma ampla discussão e repercussão ao grande público. Inclusive, uma das questões em foco refere-se a reforma trabalhista, que teve parte do texto base aprovada em 2017, cindindo assim, com alguns direitos dos cidadãos e cidadãs brasileiras garantidas pelas leis do trabalho (CLT), de 1943. No outro passo, o debate posto em cena da Paraíso do Tuiuti também consiste em perceber quais os espaços de circulação das populações afro-brasileiras na atualidade, pois mesmo passado 130 anos da abolição da escravatura, uma grande parcela destes sujeitos ainda vive refém de um cativeiro social. Logo, lançados em meio a uma sociedade racista do pós abolição (1888), e a um sistema republicano (1889) excludente, estes sujeitos que
carregavam consigo a insígnia da cor preta tiverem que constantemente resistir as opressões de uma “bondade cruel” (TUIUTI, 2018). De acordo com a historiadora brasileira Bebel Nepomuceno (2012), o projeto de Brasil do início da república pautava-se numa imagem de modernidade em que progresso e civilização tornavam-se palavras de ordem. Mediante isso, homens e mulheres negros não tinham seu lugar nesse processo, sendo assim, retirados dos centros das cidades e empurrado para o quarto de despejo (JESUS, 1960). Optar por uma reflexão da sociedade brasileira a partir de uma escola de samba (Paraíso do Tuiuti 2018) torna-se relevante pelo fato dessas agremiações carnavalescas exporem seu modo de ler e interpretar o país. Além disso, possibilita encontrar outros campos de análise, percebendo que a história a todo momento está em constante circulação, fazendo-se presente em vários espaços públicos. Outro elemento emblemático é propiciar que sujeitos possibilitem se identificar com tal narrativa, que exprime denúncias da sociedade brasileira e se também se constitui como o “quilombo da resistência contemporânea” (TUIUTI, 2018). O historiador inglês Peter Burke (2008) destacou que “os principais lugares de onde a maioria dos brasileiros extrai suas visões do passado são certamente o carnaval e a telenovela”, contribuindo para a formação de uma cultura histórica da população. Para o historiador Jörn Rüsen (1994), a cultura história é entendida como a relação em que a sociedade no presente estabelece com o seu passado. Vale ressaltar que um desfile de carnaval desenvolve uma complexa trama narrativa, em que se articula o texto (enredo), o visual (fantasias e alegorias) e o sonoro (samba-enredo). Também, devemos compreender que as escolas de samba, ou seja, os componentes e a comunidade que a compõe, não estão alheias as questões políticas, econômicas, culturais e sociais que permeiam a sociedade, elas carregam consigo uma bagagem intelectual, isto é, uma leitura de um acontecimento histórico (DOSSE, 2013) dentro da concepção de espaço e tempo. Por conseguinte, as referências dos sujeitos que integram as agremiações carnavalescas vão para além do campo acadêmico, podendo formar sua cultura histórica através da televisão, cinema,
música, jornais, livros, entre outras fontes. O desfile do Paraíso do Tuiuti encontra-se disponível em plataformas digitais, podendo ser acessada facilmente. Pontua-se que o material selecionado carrega consigo narrativas e intencionalidades num determinado tempo e espaço. Enfim, tal pesquisa é parte do projeto de mestrado desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e vinculado ao AYA Laboratório de Estudos Pós-coloniais e Decoloniais, que abrange um maior recorte temporal, ampliando discussões teóricas e
metodológicas.