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Resumen de ponencia
Letramentos: instrumento de resistência

*Sandra Jardim De Menezes



Este trabalho trata das pichações nas paredes das ruas, concebidas como estratégias e práticas de letramento, a fim de compreender suas realidades sociais como formas de (não) resistência aos duros padrões de exclusão social. Esta pesquisa busca analisar pichações nas paredes da cidade de Itapuranga-Go, com foco no letramento de resistência que elas podem expressar nesse contexto específico. Diante das dificuldades e conflitos sociais impostos por padrões culturais hegemônicos e colonizadores, os grupos sociais marginalizados no Brasil que são invisibilizados por grande parte do corpo social buscam a partir da escrita, e por meio das pichações resistirem e dar vozes as suas angústias e identidades. Observando o número de pichações espalhados pela cidade, pude observar que são vozes que buscam ser ouvidas pela sociedade, já que a pichação é vista de forma marginal, o que me provocou uma inquietação e me levou a pensar nos possíveis tipos de letramentos contidos neste tipo de escrita. O letramento de resistência, porém, diante da sua importância e da necessidade de valorizar a escrita como prática social valoriza vozes que buscam ser ouvidas através das pichações, configura-se então, o cerne de uma inquietação a partir de minhas observações. Pensar em letramento se trata de um assunto amplo e complexo, pois preza pela concepção social da escrita. O termo letramento ultrapassa os meios mais amplos do domínio da escola e está diretamente envolvido com o desenvolvimento da sociedade, um olhar da escrita como o produto de práticas sociais de determinada cultura. O letramento é um conjunto de práticas que envolve em seus contextos específicos o uso da escrita, e essa escrita está em nosso meio nas mais diferentes formas, e a pichação é uma delas, pois as pichações são utilizadas para promover discursos que representam um grupo específico da comunidade. Os pichadores utilizam da paisagem cotidiana como palco para toda uma representação simbólica que carrega expressões sociais. As pichações estão repletas de críticas a um padrão cultural extremamente segregador, racista e que menospreza as diferenças contidas no seio social moderno. A escrita nesse sentido se faz como um instrumento social de grande importância para desconstruir padrões impostos e de leituras de mundo e de sociedades. Nesse contexto quem fala é o sulbaternizado, que encontra nas pichações resistir a invisibilidade e ouvir as vozes que utilizam desse método para se expressar em um contexto específico podem estar carregadas de significados marginalizados. pichações estão presentes nas cidades brasileiras em vários locais, muros, construções, viadutos, em patrimônios privados e públicos. De acordo com Eliane Marquez Fernandes (2011, p. 241), define que “essas inscrições são denominadas pichações que invadem locais de visibilidade e agridem a visão do transeunte urbano”, tais práticas são definidas como uma forma de violação, já que infringe a lei Art. 65 da Lei de Crimes Ambientais - Lei 9605/98. pichadores são cientes desta condição, mas escolhem continuar efetuando tal ação. Dada a ilegalidade, concebemos as pichações como práticas de resistência. Kleiman (2005) considera as pichações como prática de escrita que produz mensagens, vozes que lutam por espaço, lutam para ser ouvidas. As pichações estão livres, buscando espaço e podendo então provocar reflexão através de seus enunciados, participando assim de eventos de letramento (MARCUSCHI, 2001). Mesmo com palavras escritas fugindo ao padrão normativo da língua portuguesa, é possível identificar vozes que representam uma parte da sociedade que busca ser ouvida. É notório que o indivíduo letrado não é apenas o que domina a leitura e a escrita, mas que domina práticas de letramento. “[...] a escrita é considerada manifestação formal do letramento, mas isso não quer dizer que só a escrita que aprendemos na escola é a correta. Existem outros agentes de letramento que envolvem variadas práticas da escrita”. (SÁ, 2015, p. 301). Os pichadores participam de um evento de letramento quando publicam frases contestadoras e reflexivas em ambientes onde podem manifestar resistência. E, para determinados grupos, como por exemplo do Hip-Hop, essa resistência está associada a um movimento político. Pesquisado por Souza (2009), o Hip-Hop mostra grafias sociais impostas por grupos negros, que resistem a um padrão cultural racista e colonizador, branco, imposto a diversos séculos. Grupos subalternizados então se utilizam da escrita como poder estratégico para resistir e reexistir diante de uma sociedade que constrói padrões velados da forma como observa e julga o outro. As pichações são uma possibilidade de trazer à tona a invisibilidade de grupos sociais. Levando isso em consideração, a pesquisa se pauta em estudos que percebem essa atividade como meio de participação social de grupos que lutam para resistir a sociedade contemporânea.




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* Menezes
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS UEG. ITAPURANGA/GOIÁS, Brasil