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Resumen de ponencia
A imagem do golpe sexista político brasileiro: de Dilma Rousseff a Marielle Franco

*Renata Bravo Dos Santos



Quando se pensa em política, uma associação imediata é com um ambiente masculino, de intensa atividade, de muita participação ativa no que tange à sociedade e suas necessidades, bem como de tomada de decisões. Ao pensar em conhecidas figuras políticas, os homens são a maioria esmagadora, sejam como bons exemplos de políticos, sejam como exemplos de políticos corruptos e que prestam ou prestaram um desserviço à sociedade. E isso não se restringe apenas à atividade política de forma estrita; pode e deve ser pensada de forma ampliada para todos os espaços de participação política, em todos os espaços públicos.

Nesse sentido, reflete-se sobre a participação da mulher nos espaços públicos e políticos, uma participação ativa, enquanto sujeito de direito, e não apenas como objeto de um contrato social – ou sexual, como demarca Carole Pateman, ao definir o que seria o contrato social para as mulheres.

Tal reflexão – e consequente problematização – não é realizada de maneira abrangente, eis que a separação entre as questões atinentes às esferas pública/política e privada/doméstica não foi alvo de questionamento pelas teorias políticas por muito tempo, sendo tratada como uma questão natural, como fez Jean Jacques Rousseau, ou, ainda, sendo silenciada.

Assim, a atualização das teorias políticas por teorias feministas é salutar para problematizar a dicotomia público-privada, lançando luz sobre a questão a fim de romper com a naturalização imposta pelo patriarcado sobre os espaços e as questões públicas e políticas. Esses espaços públicos foram direcionados à ocupação de homens, cabendo às mulheres os espaços privados e domésticos, sem participação política efetiva.

Ocorre que nessas relações de poder, há sempre resistências, como entende Michel Foucault, sendo que algumas mulheres conseguem romper com a naturalização da aceitação de pertencimento somente ao privado, momento em que assumem funções públicas e políticas, ou seja, passam a habitar os espaços outrora permitidos somente aos homens.

No Brasil, uma dessas mulheres que desafiou o patriarcado foi Dilma Rousseff, se tornando a primeira presidenta do país, sendo, conduto, impedida de continuar exercendo suas funções para as quais foi democraticamente eleita, em 2016.

A partir da instauração de um governo imposto, não democrático e com políticas com vistas ao extermínio de políticas públicas essenciais para a promoção das igualdades e redução de violências contra minorias políticas, o cenário político brasileiro foi sendo cada vez mais consolidado como patriarcal, machista e autoritário, com o escopo de reafirmar que esse espaço pertence somente ao homem.

Decorridos dois anos do afastamento da ex-presidenta Dilma, o Brasil acordou em 15 de março de 2018 com a notícia do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, mulher que resistiu a diversas relações de poder, das quais destaca-se de classe, de raça e de sexo. Ou seja, era uma mulher pobre negra que conseguiu se eleger vereadora, militando pelos direitos das minorias e contra a violência sofrida pela população pobre e negra das favelas cariocas.

Tanto no processo de impeachment de Dilma – e após, inclusive – quanto no momento posterior à morte de Marielle, as imagens atreladas a ambas foram criadas com o escopo de emitir um único pronunciamento às demais mulheres e à sociedade em geral: o espaço público e político não pertence às mulheres.

Dilma foi taxada de louca, burra, incompetente e desequilibrada emocionalmente para gerir um país. Marielle foi acusada de estar ligada a atividades criminosas e de não ter um “comportamento” adequado, além de várias imagens terem circulado pelas redes sociais atribuídas falsamente a ela.

Destarte, o objetivo da presente discussão é compreender de que forma o poder político patriarcal construiu a imagem da mulher na política no Brasil desde o golpe de 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff até o assassinato da vereadora Marielle Franco.

Para tanto, apresenta-se a ideia da dicotomia público-privada e a necessidade de problematização da mesma, ante a construção de valores, imagens e posições naturalizadas que advêm da referida dicotomia, com base nas teorias políticas feministas, como a de Carole Pateman e Susan Moller Okin. Ademais, analisam-se os papéis impostos às mulheres e aos homens na construção da sociedade patriarcal, ainda com o silenciamento sobre a história das mulheres, como adverte a historiadora Michelle Perrot.

Além disso, analisa-se a forma do exercício do poder patriarcal por meio da construção de estereótipos, de imagens e dos discursos sobre as mulheres, os quais são peças fundamentais para a manutenção da ordem patriarcal, tendo como base Michel Foucault e seus apontamentos no que tange ao exercício do poder e à ordem do discurso.




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* Bravo Dos Santos
Rede Brasileira de Pesquisa em Direitos Fundamentais - RBPDF. Chapecó, Brasil