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Resumen de ponencia
Mídia e crise política no Brasil: Uma análise da cobertura da Folha de S. Paulo sobre a prisão de Lula

*Ana María Da Conceiçao Veloso
*Fabiola Mendonca
*Lais Cristine Ferreira



O trabalho que nos propomos a apresentar durante a 8ª Conferencia Latino Americana y Caribeña de Ciencias Sociales visa analisar a cobertura realizada pelo jornal Folha de S. Paulo – considerado um dos principais veículos midiáticos impressos do Brasil – sobre os fatos relacionados à prisão do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), ocorrida no dia 7 de abril de 2018. O estudo contempla o período que antecede o julgamento do Habeas Corpus pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – negado no dia 4 de abril - até cindo dias após o encarceramento do ex-presidente. Sendo assim, foram analisadas dez edições diárias do jornal, de 3 a 12 de abril de 2018. Utilizamos como aporte teórico a Teoria Crítica, a Economia Política da Comunicação e as Indústrias Culturais, sob a ótica de autores como Karl Marx, Antônio Gramsci, José Paulo Netto, Octavio Ianni, Calos Nelson Coutinho, César Bolaño, Marcos Dantas, Vincent Mosco, Janeth Wasco, Dênis de Moraes e Jessé Souza. A pesquisa faz um estudo de caso descritivo e interpretativo e recorre à análise de conteúdo dos espaços que apresentam a linha editorial do jornal: capas, editoriais e editoria Poder. Com base nas observações, é possível afirmar que as publicações da Folha de S. Paulo, no período analisado, tendem a empreender uma narrativa favorável à prisão de Lula.

O ex-presidente Lula foi preso por determinação do juiz Sérgio Moro, chefe da Operação Lava Jato, após condenação na primeira e na segunda instância da Justiça Federal. Como o processo ainda não foi transitado em julgado – portanto ainda cabe recursos -, a defesa de Lula entrou com um pedido de Habeas Corpus no Supremo Tribunal Federal, pedido esse negado, levando Sérgio Moro a pedir a prisão do ex-presidente. A Lava Jato é uma operação que investiga um esquema bilionário de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a Petrobras, políticos de vários partidos e as maiores empreiteiras do Brasil. No processo que levou o ex-presidenta à prisão, Lula é acusado de ter recebido como propina da construtora OAS um apartamento triplex na praia do Guarujá, em São Paulo, em troca de contratos fraudulentos na Petrobras, os quais beneficiaram a empreiteira, durante o governo do PT. O ex-presidente nega, alegando não haver provas que comprovem a titularidade do imóvel. O triplex está no nome da OAS e encontra-se penhorado judicialmente para pagar dívida da empresa.

A investigação envolvendo o caso do triplex já dura dois anos e está envolvida em muitas polêmicas. Uma delas trata-se de um Power Point apresentado pelo procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa da Lava Jato, que, ao acusar o ex-presidente, afirmou não ter provas, mas sim convicção de que o petista é culpado. Outra polêmica foi a própria apreciação do Habeas Corpus por parte do STF. Dos 11 ministros da Corte Suprema, cinco votaram a favor e cinco contra, ficando a decisão para a presidente da Corte, ministra Carmem Lúcia, que, em seu voto minerva, votou pela não concessão ao direito de Lula continuar em liberdade até a conclusão dos recursos. Em menos de 24 horas após a decisão do STF, o juiz Sérgio Moro determinou a prisão de Lula, o que foi considerado um tempo recorde para a decisão.

A Operação Lava Jato tem recebido um apoio expressivo da mídia brasileira. Tem sido assim desde o início das investigações da força tarefa, iniciada em marco de 2014. Essa opção dos veículos de comunicação tem gerado muitas críticas não só de ativistas de esquerda como juristas e acadêmicos. É o caso do sociólogo Jessé Souza que acusa a mídia brasileira de ser a porta-voz da classe dominante e que, desde 2006, com o escândalo do Mensalão - primeiro escândalo de corrupção envolvendo o governo Lula -, vem atuando em favor de forças políticas que foram sucessivamente derrotadas nas urnas desde a vitória de Lula, em 2002, e só chegou ao poder em 2016, com o golpe parlamentar que destituiu a presidente Dilma Rousseff (PT). A mídia brasileira, inclusive, teve um importante papel no impeachment de Dilma, não só pelas publicações em favor do afastamento da ex-presidente, mas na convocação da população para ocupar as ruas contra a petista.

Essa linha editorial hegemônica dos veículos de comunicação continuou no processo contra Lula, na tentativa de formar uma opinião pública contrária ao ex-presidente. Com a prisão do petista não foi diferente. Nas dez edições da Folha de S. Paulo analisadas pela pesquisa proposta, nota-se uma tendência favorável à prisão de Lula. É possível, a partir do observado, caracterizar a mídia brasileira e a Folha de S. Paulo como príncipe eletrônico, definido por Octavio Ianni como “o intelectual orgânico dos grupos, classes ou blocos de poder dominantes, em escala nacional e mundial” (IANNI, 2001, p. 25), colaborando com Carlos Nelson Coutinho:

“Como meio privilegiado de que a burguesia dispõe para expressar sua vontade, defender seus interesses econômicos e preservar seu poder político, os jornais desempenham, segundo Gramsci, a função de “partidos”, “frações de partidos” ou “funções de determinados partidos”. Trata-se (os jornais) de um intelectual coletivo que se ocupa da formulação e da elaboração sistemática da ideologia necessária à dominação do grande capital financeiro. Mais até do que os próprios políticos, a Folha (de São Paulo), o Estado de S. Paulo, O Globo, a Veja, enfim, a mídia como partido, modelaram a opinião, criaram o “clima” cultural indispensável às privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. Com sua enorme capacidade de canalizar as “paixões elementares” das massas, o partido da mídia organiza e adapta com extrema eficácia a visão de mundo da sociedade às necessidades de desenvolvimento das forças produtivas e aos interesses dos grupos de poder (COUTINHO, 2008, p. 51).




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* Veloso
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO - UFPE. RECIFE, Brasil

* Mendonca
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO - UFPE. OLINDA, Brasil

* Ferreira
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO - UFPE. OLINDA, Brasil