Esta comunicação se propõe a apontar, a partir de reflexões em torno da experiência no desenvolvimento de atividades de ensino e pesquisa no campo dos Estudos Africanos, os caminhos trilhados no questionamento das tradições eurocêntricas presentes na produção do conhecimento e de visões simplistas e estereotipadas das inúmeras experiências e vivências, no passado e no presente, das populações africanas. Nosso foco centra-se na chamada literatura contemporânea africana, em especial na escrita literária do escritor africano, de nacionalidade nigeriana, Chinua Achebe (1930-2013) que, através de suas obras, apresentou ao mundo ocidental formas de narrar e contar a história e de ver o mundo. A literatura, aqui vista enquanto documento histórico possibilita que nossas reflexões se debruçem sobre e com a pessoa e a escrita do autor, discutindo o papel social e político da sua produção literária, como contraponto às perspectivas hegemônicas de construção de conhecimento eurocentrado, reivindicando assim, em sua literatura o direito à memória e o de narrar sua própria história. A partir da análise literária é possível apontar evidências para a compreensão dos processos históricos ocorridos nas sociedades igbo no contexto do século XX e, por isso, nosso principal documento de análise é a sua obra “No Longer At Ease/A paz dura pouco” (1960), escrita no contexto de independência da Nigéria. Mas mais do que isso, objetivamos discutir e apontar perspectivas de inclusão de saberes de pessoas que foram historicamente subalternizadas ao longo do processo histórico na modernidade. Como afirma Mignolo, a modernidade “não é definida como um período histórico do qual não podemos escapar, mas sim como uma narrativa de um período histórico escrito por aqueles que perceberam que eles eram os reais protagonistas” (2008, p. 316). No campo de nossas reflexões, pensamos que um dos caminhos possíveis em torno da produção do conhecimento de Histórias das Áfricas seja a compreensão de que este, no passado e no presente, é marcado por histórias, memórias, tempos, culturas, modos de ser e de estar no mundo por diferentes grupos. E, portanto, é preciso considerar que existem diversas e plurais formas de se produzir conhecimento e de que existem diversos olhares sobre um mesmo processo, fato histórico ou vivência. O próprio escritor, em uma de suas entrevistas, afirmou ser fundamental que ocorra aquilo que livremente traduzimos como “o equilíbrio das histórias”: diante de uma história que você não gosta ou que não te representa, é preciso contar outra que a contraponha. Profundamente inspirados por suas ideias consideramos necessário construir uma perspectiva acerca da produção do conhecimento histórico e do ensino das Histórias das Áfricas o que se constitui num desafio epistemológico e político para todos e todas. Em um diálogo entre intelectuais dos campos teóricos pós-coloniais e decoloniais, partimos do princípio que é necessário o questionamento do saber epistêmico ocidental/colonial e o descobrimento e valorização das teorias e epistemologias do sul que pensam com e a partir de corpos e lugares étnico-raciais/sexuais subalternizados. Não se trata de uma substituição, mas do surgimento de paradigmas outros. Nossos esforços têm se centrado na proposição de referenciais de estudos que apontam as populações africanas como protagonistas e agentes de suas próprias histórias. Mas, também, o seu papel central na construção de interpretações de sua experiência social e histórica. Não se trata de desconsiderar ou negar as produções e pesquisas realizadas por africanólogos de diferentes nacionalidades na Europa ou na América, nem atribuir aos africanos exclusividade como produtores de conhecimento, muito menos de considerar que apenas eles possam falar sobre si. Contudo, pensamos que podemos e devemos assumir uma postura sensível para que seja possível ouvir as suas vozes, suas criações culturais e históricas, seus conhecimentos, na tentativa de buscar aquilo que é próprio do(s) modo(s) de ser africano no mundo (HOUNTONDJI, 2010: 133). Por exemplo, por história africana entende-se normalmente o discurso histórico sobre África, e não necessariamente um discurso histórico proveniente de África ou produzido por africanos (...)” (HOUNTONDJI, 2010: 133). Por outro lado, pesquisadores(as) não-africanos poderiam contribuir nesse sentido a partir da sua própria perspectiva e contexto histórico. Neste sentido, podemos e devemos assumir uma postura sensível para que seja possível ouvir as suas vozes, suas criações culturais e históricas, seus conhecimentos ou forma de concebê-los enquanto tal e, assim, construir epistemologias outras, pautadas num diálogo sul-sul. Tal postura implica na inclusão de um amplo corpus documental e bibliográfico: desde literatura, ensaios, entrevistas, escritos filosóficos, sociológicos, históricos, literários. Este trabalho é realizado tendo como foco central o princípio heurístico da diversidade de forma que seja possível construir uma interpretação e explicação da existência de contextos e sociedades diversas e complexas que constituem o continente africano. Conforme apontado anteriormente, tendo como princípio de que os africanos são produtores de histórias e constroem narrativas sobre si, a literatura de Achebe, devidamente problematizada e analisada, possibilita acessar indícios acerca do posicionamento e intencionalidades do escritor, circunscritos ao tempo e contexto no qual estava inserido no momento da escrita de sua obra. Mas, também, concepções e percepções sobre seus próprios legados históricos-culturais-sociais. Além disso, concebemos as ações universitárias enquanto um lócus de exercício de prática docente, de pesquisa e de extensão indissociáveis e articuladas a partir de uma relação dialógica com a sociedade. A pertinência de ações de pesquisa e ensino que construção de uma narrativa que leve em conta o que os africanos têm a falar sobre si mesmos, além de superar imagens e representações estereotipadas e preconceituosas que foram perpetuados por muito tempo, contribui para a implementação dos dispositivos legais brasileiros na área da educação: a Lei Federal nº 10.639/2003 e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação da Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (Resolução nº 1, de 17 de junho de 2004). É importante lembrar que não se trata apenas de trabalhar com essas temáticas ou incluir conteúdos, mas pensar em quais perspectivas epistemológicas estes estão colocados de forma que contribua para o combate aos estereótipos e preconceitos raciais. Mesmo porque, nos é caro pensar que afinal, o conhecimento e a história, têm que servir para a vida.