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Resumen de ponencia
A revolta do olhar: interpretações históricas em audiovisuais guaranis

*Luisa Tombini Wittmann



Diversos povos indígenas têm utilizado o formato audiovisual para contar sua própria história. Atualmente, há um crescimento significativo de vídeos produzidos por (ou em conjunto com) comunidades indígenas que se transformam em ferramentas de luta por direitos e de circulação de histórias, memórias e culturas. A linguagem audiovisual, conforme os próprios indígenas, se adequa mais do que o formato escrito ao seu modo de ser pautado na oralidade e na ancestralidade. A presente comunicação se propõe a analisar interpretações históricas indígenas presentes em audiovisuais guaranis, principalmente acerca do contato histórico e contemporâneo com não-indígenas. Analisar-se-á filmes realizados sobretudo pelo Coletivo Mbyá Guarani, entre eles “Duas aldeias, uma caminhada” (63 min, 2008) e “Tava, a casa de pedra” (78 min, 2012). Ambos trazem uma interpretação dos guarani sobre a história de suas comunidades durante as missões jesuítas no século XVII no Brasil, Argentina e Paraguai e também sobre o convívio com os não indígenas na atualidade.
Como, o que e por que os indígenas filmam e contam sua própria história? Esta é a complexa questão-problema da pesquisa intitulada “A revolta do olhar: concepções de história na narrativa audiovisual Guarani”, desenvolvida no AYA - Laboratório de estudos pós-coloniais e decoloniais, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). A pergunta central da pesquisa se ramifica em outras a serem investigadas: como os conceitos que constituem o modo de ser Guarani (Nhanderekó) – especialmente territorialidade, espiritualidade e educação – se articulam com o discurso histórico? A linguagem audiovisual indígena colabora, portanto, para a disseminação de outros olhares sobre a História, nesse caso uma história transnacional guarani. Além de despasteurizar a imagem numa revolta do olhar, como ressalta a liderança indígena Ailton Krenak, essa narrativa audiovisual protagonizada por povos originários revelam perspectivas outras acerca da História que constituem nosso passado, presente e futuro. Buscar-se-á, portanto, evidenciar um olhar decolonizado Guarani, partindo da perspectiva de que os povos indígenas são sujeitos da História e produtores de conhecimento acerca dela.
É preciso construir valores e comportamentos que reconheçam e respeitem as características próprias de grupos étnicos diversos a partir do que eles mesmos produzem enquanto conhecimento histórico. Nessa perspectiva, se abrem caminhos para a ampliação da cidadania e de uma sociedade mais igualitária, equânime e solidária. A cultura escrita, que serviu durante séculos como uma espécie de passaporte para a história, não pode incluir plenamente as perspectivas indígenas e suas formas de contar. A dissonância entre as lógicas do congelamento da cultura via escrita e da instabilidade/dinâmica da oralidade causam por vezes desconforto aos indígenas. Diferente da textualidade, a linguagem audiovisual trabalha com a presença do corpo e do gesto, elementos essenciais às culturas orais. Não é por acaso, portanto, que diversas comunidades indígenas Brasil afora têm buscado no vídeo, na fotografia e em narrativas sonoras formas de registrar sua própria história. O estudo dessas produções indígenas contemporâneas é importante para a construção do que poderíamos chamar de um “equilíbrio narrativo”, onde estas populações deixam de ocupar espaços predeterminados nas narrativas sobre o passado para tornarem-se sujeitos ativos não só da história, mas de suas formas de fazer e contar. Trata-se de um alargamento de linguagens e narrativas históricas, necessário para a construção de epistemologias novas. Aos perigos da história única, descritos por Chimamanda Adichie, poderíamos acrescer as consequências de uma história exclusivamente escrita.
É fundamental refletir sobre a exclusão dos grupos marginalizados na história, e consequentemente de suas perspectivas históricas, para que se reconheça sua importância e suas lutas na conjuntura atual; para que sejam problematizadas as perspectivas de produção do conhecimento provenientes de uma concepção eurocêntrica e colonialista sobre o mundo. E, mais do que isso, para que sejam construídas novas epistemologias (MIGNOLO, 2003). Vivemos a permanência da colonialidade do poder, do saber e do ser no sistema-mundo moderno colonial, que pressupõe, entre outras questões, o controle da subjetividade e do conhecimento: “da perspectiva epistemológica, o saber e as histórias locais europeias foram vistas como projetos globais (...) que situa a Europa como ponto de referência e de chegada” (MIGNOLO, 2003, 41). A colonialidade provocou a expropriação e a exclusão, a invisibilidade e a renegação de histórias locais e experiências nas Áfricas e Américas (ANTONACCI, 2013).
A proposta do giro-decolonial, que se constitui de um movimento teórico, ético, político, prático e epistemológico, busca questionar à lógica da modernidade/colonialidade. Nesta perspectiva, se abre possibilidades de aprendizado mútuo na medida em que se mantém uma postura desestabilizadora e decisiva na releitura dos construtos discursivos que moldaram o pensamento ocidental (MIGNOLO, 2003). Portanto, é necessário o questionamento do saber epistêmico ocidental/colonial e o descobrimento e a valorização das teorias e epistemologias do sul, e aqui não se trata de um recorte geográfico, mas sim de saberes, viveres, ideias de sujeitos subalternizados pelo pensamento eurocêntrico/colonial/moderno (MIGNOLO, 2003; ANTONACCI, 2013) que pensam com e a partir de corpos e lugares étnico-raciais/sexuais subalternizados. Não se trata de uma substituição, mas do surgimento de paradigmas outros. É legítimo pensar que, consoante com Antonacci, na contramão dos cânones ocidentais, as narrativas e as estéticas, as dinâmicas de expressão e o reconhecimento de histórias, de lutas e de memórias de grupos subalternizados estão a desalojar conhecimentos continentais engessados e fechados em si mesmos (2013, 248). Nesse sentido, essa pesquisa está comprometida com uma interpretação decolonizada acerca das histórias do povo Guarani, a partir do que eles mesmos constroem enquanto conhecimento acerca da sua própria História.




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* Tombini Wittmann
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. Florianópolis, Brasil