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Resumen de ponencia
Do grito ao silêncio: uma análise da produção discursiva de mulheres negras de coletivos feministas da periferia de São Paulo

*Alessandra Kelly Tavares De Oliveira



Resumo:

Este artigo tem por finalidade investigar a recente produção de mulheres negras associadas aos coletivos de mulheres da periferia de São Paulo, em especial na zona sul. A ênfase recairá sobre as disputas discursivas que essas mulheres produzem acerca de suas existências e vivências no mundo, destacando-se a denúncia de um suposto silenciamento.

Do grito ao silêncio

A década de 1980 foi um período importante do ponto de vista da mobilização política e da produção de conhecimento sobre as especificidades das mulheres negras, realizado principalmente, por meio da influência do “feminismo negro” brasileiro, como afirma Pacheco (2008). No campo acadêmico, surgiram importantes trabalhos científicos sobre a mulher negra brasileira, que romperam com abordagens mais estigmatizadas e com a cristalização dos papéis sociais e estereótipos de mulata ou doméstica (MOUTINHO, 2004). Tais pesquisas apontaram para a importância de se levar em consideração os marcadores de gênero e raça nas produções tanto do campo dos estudos feministas, como das relações raciais. Conforma afirma Pacheco (2008), constatava-se uma ausência significativa destes temas cruzados nas áreas anteriormente citadas. Contudo, é nesta época também que mulheres negras aparecem como sujeitos da pesquisa e não somente como seus objetos.

É interessante pensar que esta questão era negligenciada tanto pelos estudos raciais, quanto os sobre gênero antes deste período, pois cada campo preocupava-se com a experiência construída por um dos marcadores: por um lado a experiência do homem negro seria a medida para se entender a raça, enquanto a experiência da mulher branca configuraria a questão de gênero (GONZALEZ, 1988). Assim, a especificidade das mulheres negras, marcadas exatamente pela justaposição destes marcadores sociais, acabava por ser ignorada.

Conforme afirma Henrietta Moore (2000), pensar nestas relações implica “que essas formas da diferença estão mutuamente imbricadas, e que, embora possamos falar de prioridades ou determinações entre conjuntos de diferenças, devemos estar cientes de que elas nunca poderão ser cabalmente separadas entre si” (MOORE, 2000: 16).

O corpo concebido como universal e a-histórico, não cabe à compreensão da experiência das mulheres negras, pois deve-se ter em vista que o projeto colonizador realiza a encarnação da raça, como afirma Fassin (2011) tal como os projetos racias, nas palavras de Michael Omi e Howard Winant (1994). Poderíamos entender a mestiçagem e democracia racial como pensamento hegemônico que forma projetos raciais hegemônicos. Neste último sentido, e entendendo que a formação racial engloba outros projetos raciais em constante disputa como apontam Michael Omi e Howard Winant (1994), haveria outros projetos que construiriam discursos contra-hegemônicos? Estes coletivos de mulheres negras não estariam produzindo outro discurso ao denunciarem o silenciamento?

Essa percepção da racialização no presente é feita a partir de um corpo que vive a atribuição da raça e do estigma, a partir deste corpo que também tem a capacidade de lembrar. Um corpo que carrega uma memória, um trauma transgeracional, um entrecruzamento de experiências corporais de gênero e raça. Contudo, trata-se de uma experiência específica que entrelaça estas duas dimensões e não apenas representa a soma das duas.

Dentro deste emaranhado de relações e na dinâmica de atuação das mulheres negras no cotidiano, algumas referências nos sugerem caminhos para a compreensão do fenômeno da denúncia do silenciamento. Trabalhos recentes de ativistas e antropólogas oferecem o suporte para a construção da hipótese deste projeto com Grace Cho (2008), Veena Das (2011:1999), Audre Lorde (1980) e bell hooks (2006) nos apresentando algumas perspectivas que, na ausência de trabalhos sobre o contexto brasileiro, fornecem pistas e suporte para pensar como as dinâmicas sociais marcadas por experiências de perdas, lutas e opressões corporificadas por marcadores sociais podem se desencadear na ausência de linguagem para falar de si e de expressão.

Audre Lorde (1980), no ensaio A transformação do silêncio em linguagem em ação, partilha uma experiência pessoal de aproximação da morte, descoberta de uma câncer de mama, que a faz refletir sobre seus próprios silêncios. No ensaio, autora, aponta que o silenciamento é fruto das relações sociais marcada por “tiranias cotidianas”, ou seja, formas de opressões. Em sua perspectiva, o silêncio se mantêm por proteção; falar contém em si uma dinâmica de “auto-revelação” que, por ser insuportável, causa medo. Este medo tem suas raízes na construção da imagem da mulher negra durante a escravização de renúncia de si que provoca a distorção, social e subjetivamente, de sua imagem.

Em sua perspectiva, o silêncio expressa o medo da visibilidade e da própria humanização gerando o “medo do desprezo, da censura, do julgamento, ou do reconhecimento, do desafio, do aniquilamento”. A autora também argumenta que a própria experiência política produz silenciamentos, na medida em que a mulher negra não é reconhecida na sua complexidade dentro dos movimentos que estaria inserida.

Já para bell hooks, no ensaio Vivendo de Amor, a experiência de escravização e pós-abolição geraram um aniquilamento da expressão afetiva, uma vez que a “sobrevivência estava muitas vezes determinada por sua capacidade de reprimir as emoções”. Desta forma, não só expressar as emoções, mas também elaborá-las e colocá-la em discurso passa a ser perigoso, e neste sentido, conflui com a perspectiva de Lorde, do medo do aniquilamento. Ao levar sua análise para mulheres negras com expressão pública, hooks afirma que “aprendemos a negar nossas necessidades mais íntimas, enquanto desenvolvíamos nossa capacidade de confrontar a vida pública”.

Ainda neste mesmo texto, hooks aponta que, para a mulher negra, a falta de elaboração de suas experiências e sentimentos estaria na sua própria falta de definição interior, e talvez até reconhecimento deste universo. Tendo em vista que, ao senti-la e defini-la estaria colocando em xeque sua capacidade de sobrevivência, então, como estas poderiam ser comunicadas?

Outro suporte importante nos é oferecido pela antropóloga indiana Veena Das. No artigo “O ato de testemunhar” (2011), a autora conduz sua análise tendo como foco o contexto indiano, especialmente, o que se seguiu a partição do país com a formação do Estado nacional, concebido e imaginado como masculino. A construção da violência não como algo extraordinário, mas cotidiano, por meio de várias violações ao corpo feminino é um dos pontos aos quais ela se atém. Logo no inicio de seu trabalho Veena Das, questiona:

O que isso fez à subjetividade das mulheres? Precisamos perguntar não só como a violência étnica ou comunal foi perpetrada por atos de violação específicos de gênero, como o estupro, mas também como as mulheres tomaram esses signos nocivos de violação e os re-ocuparam através do trabalho de domesticação, ritualização e re-narração (DAS, 2011:11).

As mulheres, em suas expressões corporificadas, configuram os signos dessa gramática violenta de gênero/nação, que orbita uma zona de silêncio. A própria autora utiliza-se de uma metáfora, elaborada pelas mulheres pesquisadas, que expressa sua vivência no mundo: “conhecimento venenoso”. Trata-se de linguagem metafórica que serve também de escape para uma narrativa não direta, auto-revelatória, da violação.

Soma-se a estas perspectivas o trabalho da antropóloga estadunidense Grace Cho que, em seu estudo sobre a diáspora coreana, busca compreender o complexo processo de produção do silêncio sobre a guerra da Coreia, desde os Estados Unidos. Ela demonstra como narrativas oficiais, cotidiano familiar e produção acadêmica se articulam no sentido de produzir um apagamento da brutal violência perpetrada neste país pelo exército norte-americano com o intuito de reforçar a imagem de uma guerra bem-sucedida em que os EUA se destacariam como salvadores, fazendo da guerra da Coreia uma guerra esquecida. No entanto, a autora demonstra, este esquecimento não se realiza por completo, ao contrário, ele é constantemente assombrado por fantasmas produzidas pelo próprio silenciamento.

Neste sentido, a figura da yanggongju (prostitutas dos acampamentos do exército norte-americano) é fundamental. A partir de fontes variadas e de um texto muito potente e distante de etnografias convencionais, a autora vai demonstrando como muitas dessas mulheres casaram com soldados americanos imigrando para os Estados Unidos. Cho afirma que a yanggongju é uma figura assombrosa e assombrada, transmitindo através do tempo a tristeza não reconhecida. A autora se refere ao trauma, trauma este que é transmitido através das gerações de famílias assombradas a partir do apagamento.

Assim, partindo da bibliografia mobilizada, é possível relacionar também a diáspora forçada como a desterritorialização, que produz um deslocamento subjetivo destes sujeitos, que no texto de Cidinha da Silva, aparece mediado pela experiência dolorosa da viagem, este passado que é corporificado na experiência racial no gênero e do gênero no racial. Estes conteúdos estariam mobilizados na produção de uma particularidade que, talvez, não pode ser expressa, pelo medo do aniquilamento, mas também pelo aprendizado da negação de suas emoções e necessidades como forma de sobrevivência.




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* Tavares De Oliveira
Universidade de São Paulo USP. São Paulo, Brasil